No luxury and no comfort, no delight and no pleasure, no new liberty and no new discovery, no praise and no flattery, which we may enjoy on our journey, will mean anything to us if we have forgotten the purpose of our travels, and the end of our labours. Isaiah Berlin
30 Novembro 2005
Sobre a inter-subjectividade da lei e da criação do direito
Caro João Galamba,
Já percebi o teu ponto de vista; a discussão foi interessante mas, da minha parte, penso que está na hora de a suspender. Perdoa a pequena provocação, mas vou encerrá-la de uma forma autoritária; prescindo do inter-subjectivo reconhecimento da tua parte e do direito que terás em discutir comigo: eu vou refugiar-me na minha esferazinha intangível.
Ou, pegando no mote do Tiago Mendes, a bola está do meu lado, vou fugir com ela, e jogar com quem me apetecer. O teu inter-subjectivo direito ao meu esférico, esse, vai ter de esperar!
Peço desculpa por interromper abruptamente tão interessante debate, mas alguém que representa a minha «comunidade política concreta» e cujos ditames são os oráculos da minha discreta existência ontem à noite revelou-me com toda a clareza o sentido que deveria dar a este meu blue space, quando lhe perguntei o que achava do meu novo blogue:
«É uma grande seca! Quando é que escreves umas coisas com piada?».
Face a esta reprimenda, vou ter de arrepiar caminho por uns tempos!
Um grande abraço,
Rodrigo Adão da Fonseca
29 Novembro 2005
Existência, (re)conhecimento de direitos, platonismos e autoritarismos nos escritos do João Galamba
Meu caro João Galamba,
O meu ponto de partida vai ser a parte final do teu post, curiosamente a raiz de algumas das nossas divergências, mas peço-te que tenhas presente outros aspectos do teu texto, bem como dos comentários que fazes ao meu post: o platonismo e o autoritarismo que receias derivarem da existência de uma Lei que transcende a esfera dos indivíduos; a dimensão essencialmente politica que dás à existência humana, inspirada em Taylor e Walzer (a ideia de que a realidade depende do seu reconhecimento politico por parte de uma comunidade politica concreta); ou a elevação ao estatuto de valor que dás ao diálogo e à democracia (em relação a este último aspecto, recomendo-te também a leitura – concentrada – deste meu post antigo, originalmente publicado no Blasfémias).
Dizes,
«Eu acho que a existência e o reconhecimento do direito não tem uma descontinuidade absoluta. A forma como colocas a questão parece pressupor que tu defines o direito (que é absoluto) e depois a comunidade e obrigada a reconhecê-lo. Mas isto não colhe».
Ora, uma coisa é a existência, outra é o (re)conhecimento do direito. Aliás, a própria palavra já de si se aponta para um diferença com a noção de existência: (re)conhecimento significa «identificação de algo ou alguém já conhecido».
Antes de mais, volto a insistir na diferença que subsiste, em Hayek, entre «Laws» e «Commands». Penso que no dia em que for compreendido o lugar de cada uma destas dimensões, uma parte significativa das reservas que existem em relação à Escola Austríaca poderão ser ultrapassadas.
Para tornar a distinção entre existência e (re)conhecimento do direito mais acessível vou recorrer a um exemplo que seja perceptível, no caso, a «vida»: a vida é condição da minha existência subjectiva; e eu só posso ser sujeito de direitos porque existo; mas, ainda assim, será que o direito que tenho à vida depende do reconhecimento por uma comunidade política concreta? Será que a tal comunidade política pode reconhecer direitos que colidam com a possibilidade da minha existência?
Claramente, os «outros» – a que chamas eufemisticamente «comunidade política concreta», como se fosse um ente, um corpo social distinto dos indivíduos que a compõem – podem opor-se ao facto de que eu vivo, e até podem subjectivamente eliminar a minha existência, por exemplo, enforcando-me. Agora, a minha vida e o direito a exercer a minha existência não se faz na relação que tenho com os «outros», embora eles possam limitá-lo e até suprimi-lo. E mesmo que os «outros» que não me aceitam, decidam enforcar-me, o direito à vida subsiste na existência dos «outros» que (me) sobrevivem, apesar desta violenta coacção de que eu, pobre azarado, possa ter sido objecto.
Mas não apenas: mesmo que todos os homens decidissem, em consenso, saltar ao mesmo tempo para o precipício da morte, ou lançarem-se numa viagem espacial sem regresso, poderia acabar a humanidade, algures nos anéis de Saturno, mas não o mundo: e subsistiria a Vida e a Lei, deixariam de fazer sentido as leis dos homens, as suas ordens e comandos, os seus consensos ou até as arbitrariedades; mas aquelas que existem para lá dos homens, e cuja existência não depende do nosso conhecimento, permaneceriam imutáveis.
As «Leis» (no sentido de Hayek, «Laws») existem, para lá da nossa existência; para que possam ter relevância, nem sequer carecem de ser conhecidas; na medida das nossas capacidades humanas – que são limitadas – podemos violá-las; podemos até subjectivamente reprimir o seu conteúdo; agora, elas serão sempre o que são, mesmo que queiramos convencionar o contrário, e que pensemos que o conhecimento que temos é a medida de todas as coisas.
Não há em Hayek platonismos nem autoritarismos, até porque da percepção de que existe «Lei» que transcende a esfera dos indivíduos conduz à exigência contrária, afirmando-se a necessidade de demarcar uma esfera individual protegida da acção concertada dos «outros» - ou, utilizando a tua expressão, da «comunidade política concreta».
Ao ler o teu post, o que constato é que tens uma visão destas questões, digamos, a «preto e branco»; e que a única fonte de legitimidade é a que resulta do convencimento dos «outros» - logo, da capacidade de me afirmar na «comunidade política concreta» - chegando a utilizar uma expressão que te arruína, ao defenderes que a autoridade de uma posição particular «só pode ser estabelecida pragmaticamente e em diálogo com os outros».
Dizes,
«Se os neoliberais (termo meramente descritivo) querem estabelecer um quadro mínimo de direitos ou um night watchman state, não podem simplesmente invocar os seus apriorismos ou os seus princípios auto-evidentes. Eles têm de defender politicamente as suas posições e conquistá-los da única forma legitima que eu conheço: convencendo os seus concidadãos, ou mobilizando uma maioria suficiente para os por em prática. Por tudo isto, quando articulamos um conjunto de direitos ou valores não estamos a invocar ligações misteriosas a Verdades ou Absolutos. Mas apenas a defender uma posição particular cuja autoridade só pode ser estabelecida pragmaticamente e em dialogo politico com outros».
Hayek para mim teve a virtude de definir com clareza qual o espaço que está reservado ao político, e qual o papel que os cidadãos têm numa realidade que não é apenas a sua. Se afirma algum autoritarismo, é a da afirmação do eu, como ponto de partida para uma humanidade inclusiva, e não exclusiva, onde cada um tem um espaço que é seu.
Do que eu tenho receio não é da afirmação do eu individual, como ponto de partida para uma cooperação justa, mas de quem afirma a «legitimidade» dos «outros», não como seres individualmente considerados, na sua forma plural, mas como uma «comunidade política concreta», conjugada no singular. É neste «Eu Colectivo», Singular, Unidimensional (porque reduz – e utilizando as tuas expressões – a existência humana a uma dimensão essencialmente politica), que eu encontro derivas tendencialmente autoritárias; onde encontro platonismos é na forma como apresentas «democracia», elevada ao estatuto de «valor», porque vale «em si», oferecida como um processo dialéctico que se exprime necessariamente numa síntese que se impõe ao todo.
Um grande abraço,
Rodrigo Adão da Fonseca
Imperdível: A pronúncia do Norte (via A Destreza das Dúvidas)
Caro LA-C,
É bom ver que voltas a estar de novo junto do carinho dos teus, sentido esse estímulo que é contactar com o país real:
«Um outro dia, passeava por Braga, já ao anoitecer. Uns putos jogavam às escondidas entre os carros. Melhor seria dizer, a canalha jogava às escondidas. Uma senhora abre a janela e grita, ó Pedro meu grande filho-da-puta, mas vens para dentro ou não? Responde o puto, já vou mamã, já vou».
Portugal no seu melhor!
Um abraço,
Rodrigo Adão da Fonseca
28 Novembro 2005
Blue Lounge no Mundo
Ao fim de um par de dias no ar, decidi verificar a origem geográfica dos que têm visitado este lounge azul à beira-mar plantado.
Para além dos clientes habituais da blogosfera lusa, aparentemente o Blue Lounge tem despertado forte curiosidade na América do Norte (Canadá e EUA), México, Europa Central e Ásia, cibernautas eventualmente perdidos em busca de outras «ocorrências». De facto, um busca no Google permitiu-me concluir que a expressão Blue Lounge tem diversas significações, servindo os mais variados fins, senão vejamos (cortesia Google):
Logo à cabeça surge, directamente da Alemanha, o Blue Lounge, local que aparenta ser um sofisticado centro de diversão nocturna situado na cidade de Colónia; boa selecção musical (pelo menos a que é apresentada no site); agora, vendo as fotos das mais diversas festas e após breve passagem dos olhos pela lista de cocktails (de onde constam sugestivas bebidas como o b. sexy, Adonis, Thunderpussy, entre outras relíquias que talvez o AMN me possa ajudar a traduzir), estou convencido que o meu blogue, recheado de referências a Hayek, Berlin e quejandos seja fonte da mais profunda desilusão para alguns dos meus mais recentes amigos, entre os quais constam alguns sósias dos Village People e jovens (e menos jovens) mulheres que dificilmente concluiriam o ensino secundário se a lotaria natural de que fala Rawls as tivesse colocado numa qualquer Escola Secundária de Gaia.
Sejam bem-vindos, Guten Abend*, que este lounge está aberto a todos os que queiram contribuir para o sitemeter, ainda que, admito, não fale alemão, e dificilmente possa concorrer com o dinamismo da Claudia Lenzene e da Ursula Iseken, proprietárias de tão aparentemente divertido bar. O máximo que posso garantir são festas temáticas! Shade**? Certamente, ich muss mich entschuldigen***, meu senhor, e já agora, gure rise****, alles gute*****!
Muleta:
* Boa Noite ** Que Seca! *** Peço imensa desculpa **** Boa viagem ***** Corra tudo bem.
Blue Lounge é ainda o a imagem de marca de uma empresa de design, cujo site merece uma visita. Tema de uma música de jazz (track number 5) , de um bar recomendado em Barcelona, de uma sala de espera de acesso restrito no aeroporto de Melbourne, na Austrália, de um enigmático e aparentemente luxuoso restaurante de um país remoto do Oriente, quiçá da comunista China, de um fórum mexicano, sala de atendimento do The Music, Technology and Innovation Research Center da De Montfort University, no Reino Unido, e até palco de eventos de speed-dating, em Middlesbrough, igualmente no Reino Unido (caros AAA, Tiago Mendes e João Galamba, esqueçam que tem já a referência event sold out)!
Blue Lounge é ainda o nome de uma esplanada em Malibu que, pela apresentação no site, parece ter algum interesse.
Algures no Oriente existe um blogue que usa a mesma designação, Blue Lounge, onde a imagem de marca é um cão, e cujos textos, apesar do meu esforço, não consegui decifrar. Freaky Blue Lounge é também o nome de um blogue do país-irmão que é o Brasil.
Agora, de facto, nada supera as blue lounge pants do Batman, que encontrei na loja virtual webundies.com:
Blue Lounge é, de facto, a mais globalizada expressão da terra! Dificilmente poderia ter encontrado uma designação mais divertida e multifacetada para este meu novo blogue! E, com fraqueza, acho que vim superar uma lacuna nas suas áreas de abrangência!
Rodrigo Adão da Fonseca
O fim do BdE na secção de media do DN
De facto, em Portugal, não há nada como ser de esquerda...
(via A Invenção de Morel)
Rodrigo Adão da Fonseca
Liberalismo, norma e intencionalidade em F. Hayek
Aos meus amigos António Amaral e Adolfo Mesquita Nunes, Tiago Mendes, João Miranda, Carlos Novais, João Galamba, Henrique Raposo e André Azevedo Alves; ao José Barros (que tem urgentemente de se lançar na dinamização de um blogue),
Na sua obra The Constitution of Liberty, Hayek apresenta-nos duas concepções de Lei, Laws e Commands.
As Leis [«Laws»] – ou as «normas» – preexistem, são anteriores e independentes a qualquer tipo de invenção humana; as «normas» são o produto de um processo de descoberta, o qual não tem necessariamente de resultar da utilização de mecanismos racionais. As «normas» são forças que transcendem a humanidade, compreendida como a organização dos homens, que seguem uma ordem própria e que antecedem – ou estão para lá de – qualquer acto humano voluntário.
Hayek defende ainda que os valores fundamentais da liberdade e da justiça estão incorporados nas «normas de conduta» – a «nomos» – sendo princípios imanentes da vida social, incondicionais «em si».
Justiça aqui mais não é do que o respeito pelas «normas de conduta», as quais por isso têm essencialmente um carácter negativo, estabelecem simplesmente os princípios que determinam o domínio protegido de cada um, que ninguém deve invadir, e que importa sejam iguais para todos. Deste modo, o respeito pela vida alheia ou pela propriedade privada são incondicionais «em si» e impõem-se como valores fundamentais, imanentes da vida social. A acção espontânea de diversos indivíduos reflecte-se numa ordem social, projectando-se no mercado (conceito que deve ser entendido de um modo amplo, e não apenas como um «local de troca de bens» como por vezes é interpretado) ou catalaxia; ora, o resultado desta acção, o produto de uma ordem social não intencionada nunca pode estar sujeita a julgamentos morais.
Em Hayek, a intencionalidade é o critério para definir a acção moral. Ora, estando a «Lei» – entendida aqui como «Law» – para lá da acção humana, ela não é passível de qualquer juízo moral. As «Leis» em Hayek são parte integrante de uma meta-finalidade que abstrai daquilo que são os desígnios da Razão Humana. Os juízos sobre injustiça apenas se colocam neste plano quando a acção prescritiva do indivíduo ou de um grupo (que pode ser uma instituição ou o próprio Estado) ultrapassa a esfera de inviolabilidade que resulta das «normas de conduta».
Os juízos normativos e prescritivos têm o seu lugar numa reflexão liberal, mas concentram-se na esfera dos «commands», das ordens e instruções: podem enquadrar-se neste plano de análise, por exemplo, correntes como a «Public Choice», a definição de Políticas Públicas ou até certas teses de base contratualista e utilitarista. Nesta linha, é admissível afirmar-se que existe um nível onde os liberais se preocupam com as questões tidas na terminologia corrente como «normativas», e que um pensamento liberal apresenta várias esferas de análise.
Importa ainda apresentar o contexto de linguagem em que se apresenta a expressão «norma»; na verdade, e numa corrente inspirada na Escola Austríaca, «norma» reporta-se a «Lei», entendida como algo despido de qualquer intencionalidade; ora, na terminologia corrente, ao plano «normativo» subjaz sempre uma intenção, traduzida no plano teleológico (ou a intenção do legislador), na «finalidade» da lei ou no seu «espírito». Estas apreciações fazem sentido na Escola Austríaca, mas ao nível dos commands. Por isso, pode admitir-se um plano normativo e positivo, mas devidamente centrado nesta esfera, e não naquilo que se entende por «Norma» ou «Lei». Estes preciosismos da linguagem – a que gosto de chamar «pormaiores» – são frequentemente fonte dos maiores «misunderstandings» (expressão dedicada aos emigrantes no Reino Unido).
Em resumidas contas, as questões de justiça/injustiça e os juízos morais, sendo preocupações liberais, só se colocam quando nos defrontamos com processos intencionais, e não com o resultado de forças impessoais.
Já agora, com tanta coisa para desconstruir – como por exemplo a recente visita a Portugal do pai do operaismo italiano e das Brigate Rosse, António Negri; quando milhares de pessoas morrem a tentarem emigrar para a Europa, pelo facto de nos seus países viverem na extrema pobreza, fruto do proteccionismo, da corrupção e da ausência de liberdades; num momento em que o pensamento de esquerda domina o subconsciente da generalidade dos cidadãos – convido-os a todos a escrevinharem um pouco sobre os paradoxos dos novos socialismos, e dos perigos que representam para as sociedades que se querem livres.
Um grande abraço,
Rodrigo Adão da Fonseca
27 Novembro 2005
Antonio Negri: o camaleão do marxismo à italiana - III
O Henrique Raposo diz que Negri não é marxista; esta frase teria talvez alguma razão de ser se proferida nas discussões mantidas entre as várias esquerdas algures nos anos 60. Ler, hoje, que Negri não é marxista, quando o próprio aliás faz questão em afirmá-lo, penso que não fará especial sentido.
Até porque claramente a raíz do pensamento actual de Negri permanece marcadamente marxista: ao defender que o capitalismo se encarregou de substituir o trabalho intensivo e os valores tangíveis pela desmaterialização e pela revolução tecnológica, retirando valor ao trabalho intelectual; quando substitui a expressão «proletariado» - que perdeu a sua carga significativa e o seu peso específico, face ao surgimento de outras formas de organização da economia - pelo conceito de «multidão», aliás bem mais difuso e por isso tendencialmente mais abrangente. O pensamento de Negri tem ainda uma estrutura determinista e historicista, facilmente perceptível quando apresenta a ideia de Império, essa nova configuração da humanidade, a forma globalizada do capitalismo, a síntese prévia à sua desagregação.
Fico com a sensação, contudo, que o post do Henrique Raposo não é propriamente sobre Negri, servindo apenas a intenção escondida de crucificar definitivamente Carl Schmitt, apresentando-o como inspirador do «novo radicalismo esquerdista».
Não que não considere pertinente a análise do HR; acho-a até bastante interessante em alguns aspectos, sobretudo naquilo que é a constatação de que as novas esquerdas do século XXI encontram na rua, nas demonstrações de poder, uma fonte de legitimidade, na procura da desagregação e enfraquecimento do Estado e da lei constitucional em favor da tal nova identidade superior. Curiosa ainda a comparação entre o sufrágio e a noção de opinião pública.
Agora, Negri reinventa o marxismo, dá-lhe uma nova roupagem, escreve certamente sob o efeito de outras influências. E se a sua linguagem se afasta em muitos aspectos dos chavões da velha esquerda (aliás, toda a sua vida procurou dar esta sensação de que estava num processo constante de reinvenção do marxismo) - os quais foram substituídos por outros com uma carga semântica mais adequada aos novos tempos («multidão», «globalização», «mestiçagem das culturas») - não devem subsistir dúvidas em classificá-lo como marxista - ou, talvez, neo-marxista.
Negri tem um passado subversivo significativo que importa não desprezar, e uma forte capacidade de impor as suas ideias sobretudo entre os grupos insatisfeitos dos meios estudantis e da juventude; pode dizer-se, como o faz HR, que «Negri (...) tem muito pouco de Esquerda». Eu, com franqueza, discordo. Mas o mais grave é que a própria Esquerda discorda, também, e absorve - sobretudo os mais jovens - os seus neo-chavões marxistas, nesta sua nova versão para plataformas «MP3», com enorme apetite.
Rodrigo Adão da Fonseca
Antonio Negri: o camaleão do marxismo à italiana - II
[Extractos da entrevista de António Guerreiro a Antonio Negri na revista Actual do «Expresso» de ontem; os itálicos são meus]
«[...] «Império» [...] que já foi classificada como uma reescrita do Manifesto do Partido Comunista para o século XXI, tornou-se um objecto privilegiado de crítica e apropriação [...]».
«[...] (a tese desenvolvida na obra «Império»:) a ordem contemporânea do mundo é determinada por uma transferência de soberania dos Estados-nação para uma identidade superior que é o Império (descentrado, desterritorializado, configuração última da dinâmica globalizada do capitalismo) [...]».
«[...] (a propósito de um outro livro de Michael Hardt, «Multidão - Guerra e Democracia na Era do Império»:) O conceito de multidão designa um sujeito político que emerge na situação contemporânea. A multidão conduz uma acção política de resistência ao Império e de expansão da democracia [...]».
«[...] Havia um processo no sentido da recomposição mundial e de discussão da soberania imperialista que foi violentamente quebrado pela Administração Bush. Ora, tudo isto confirmou que essa ordem mundial estava a reconstruir-se e a procurar uma legitimidade. Uma ordem nunca é algo de espontâneo. O mercado nunca determinou as suas próprias normas, é necessário um poder para determinar uma linha de legitimidade [...]».
«[...] (Sobre os tumultos de Paris:) Eu consideraria esses movimentos como uma expressão dos novos movimentos da multidão, da passagem da cidade do trabalho assalariado para os territórios urbanos marcados pela flexibilidade, pela mobilidade e mestiçagem das culturas [...] Se há algo que aí se está a reconstruir é o sentimento do comum, da singularidade [...]».
«[...] Não tenho problemas com as minhas dívidas em relação ao marxismo. Acho que sou um marxista que constrói um novo horizonte e que precede à demolição da ortodoxia para construir outra coisa. Mas o problema, para mim, é outro: o conceito de multidão é ainda insuficiente [...] O que é a multidão na metrópole? O que é a multidão no desenvolvimento social, no tempo das transformações sociais? [...]».
«[...] Venho de uma tradição «operaista» [...] uma tradição de recusa do trabalho. O que significa recusar o trabalho? Sabotagem, luta de massas contra o trabalho, contra o tempo do trabalho [...]».
«[...] Não há possibilidade de sair do valor da troca, a não ser através da resistência [...]».
«[...] (Pergunta:) Você seguiu uma linha contínua do «operaismo» até ao «Império» ... (Resposta:) Sim, e ela corresponde a uma renovação do marxismo. A força do marxismo é formidável... [...]».
Certas entrevistas valem por mil posts. E estas passagens falam por si. Os tempos que se avizinham não vão ser nada fáceis.
Rodrigo Adão da Fonseca
Antonio Negri: o camaleão do marxismo à italiana - I
Antonio Negri esteve em Portugal. Filósofo de «profissão», Negri é desde os anos 60 um dos pensadores e dirigentes mais activos da chamada nova esquerda italiana, militante e inspirador de centenas de grupos políticos de raiz marxista e «operária».
António Guerreiro, na revista Actual (Expresso de ontem), entrevista Antonio Negri, apresentando-o de uma forma no mínimo curiosa, como «um criador de conceitos, com os quais procede à análise da nova ordem do mundo e reinventa um pensamento crítico que arrisca aventurar-se na reconstituição de uma linguagem política».
De facto, se há traço da personalidade que caracteriza Negri é esta procura constante de reinventar o marxismo: desde 1966, momento em que acompanha o grupo renovador que se cindiu do PCI em busca de um modelo operário distinto do tradicional que Negri participa e inspira grupos distintos de reflexão e intervenção política; destacando-se em 1971, e já na ressaca do Maio de 68, o movimento de base juvenil e estudantil Brigate Rosse, de que terá sido um dos principais impulsionadores.
A acção política de Negri está rodeada de diversas névoas que o fim dos inúmeros processos judiciais de que foi alvo não dissipou. Em 1977, exila-se para Paris, num momento em que o centro universitário a que pertencia foi alvo de investigação judicial. Dois anos mais tarde, em 1979, e na sequência do rapto e assassinato de Aldo Moro, democrata cristão (1978), é detido e acusado de ser o seu mentor; durante esse ano, Negri é acusado de mais 17 homicídios. Após várias insurreições, raptos de magistrados e militares, do desaparecimento da principal testemunha de acusação, da tentativa de se resguardar na imunidade parlamentar, e já ausente novamente em França, Negri é julgado à revelia, sendo condenado a 30 anos de prisão, pese embora haja sido absolvido de algumas das acusações de que era alvo. Cumpriu apenas 5 anos de prisão efectiva, e 14 de exílio. Só em 1997 regressa a Itália, sendo novamente preso mal saiu do avião. Só recentemente foram suspensas as pendências judiciais que incidiam sobre Negri.
António Guerreiro sintetiza assim este pendor activista que tanto marcou pela negativa a vida política da Itália: «Apreender o tempo de modo subversivo e revolucionário foi a tarefa que o filósofo Antonio Negri confiou ao seu pensamento. Tal imperativo ritmou também a sua acção, de tal maneira que a obra deste autor (...) surgiu sempre rodeada de circunstâncias arriscadas de intervenção política».
Num post que escrevi no mês passado - O que é ser Esquerdista, hoje (e que já está no meu blogue de arquivo) - chamei a atenção para o facto de, no início deste novo século, o «Fim da História» estar bem longe de estar escrito; e que, pelo contrário, o que se assiste é a uma verdadeira «Revisão da História», devidamente promovida por uma Nova Esquerda que se apresenta com um discurso adequadamente recalibrado, com novos «amanhãs que cantam», liberto dos constrangimentos criados pela Queda do Muro de Berlim, disposta a continuar a distribuir «ópio ao povo».
É nesta linha que surge a obra que Negri publicou em 2000 com Michael Hardt – «Empire» (na versão portuguesa, «Império») – e que tem, de facto, funcionado como uma das principais alavancas da nova esquerda, como bem refere António Guerreiro, sendo visto até por alguns como «uma reescrita do Manifesto do Partido Comunista».
[continua]
Rodrigo Adão da Fonseca
A propósito da Escola de Gaia - a ditadura do politicamente correcto e da autocracia educativa
Duas jovens de um Liceu de Gaia viram a sua intimidade devassada pelo facto da Escola não ter sabido gerir internamente um assunto que, pela sua natureza, não merecia ser discutido na praça pública. Ao permitir a mediatização desta questão, a Escola abriu a porta da sua intimidade a uma sociedade sedenta de escândalo; permitiu que se dissecassem os pormenores que rodearam o suposto comportamento homossexual das alunas, colocando-as no centro do debate.
Assim, educamos, ou criamos estigmas sobre jovens ainda em fase de formação, abrindo a porta às mais diversas agressões desnecessárias, não só às alunas como a uma comunidade escolar inteira?
Não conheço em pormenor o que se passou; mas estas questões deveriam ser resolvidas entre as alunas, os professores e seus pais. Com bom-senso e frontalidade. E nunca caindo na hipocrisia desresponsabilizante de proibir as manifestações de afecto hetero e homo, numa cedência ridícula ao «politicamente correcto».
Educar significa também salvaguardar os alunos e a comunidade escolar, não fugindo dos problemas, mas defendendo os alunos e alunas contra a devassa da privacidade - especialmente grave porquanto falamos de adolescentes - promovidas pelos media e pelo traiçoeiro «politicamente correcto» (tão recheado de armadilhas).
Escrevo este post depois de ter lido o excelente artigo do Professor Espada na revista Actual de hoje (suplemento do jornal Expresso), que fala de «Isahiah Berlin e a Liberdade». Coincidência feliz, por estar este blogue na sua fase de arranque, sendo Berlin o «Santo Padroeiro» desta minha nova casa.
JCE apresenta, ainda que apenas como referência, a controvérsia berliniana em redor do liberalismo e do pluralismo. Não sei o que diria Berlin sobre toda esta polémica do Liceu de Gaia, e também não tenho de facto um plano na algibeira que me permita enquadrar todos os problemas concretos que surgem nas nossas comunidades. Pegando nas palavras de JCE, não se pretendem aqui desvendar posições ideológicas; prefiro antes resguardar-me naquilo que era o apego de Berlin a uma liberdade ordeira ou negativa, patrocinadora de um espaço onde cada um de nós pode agir sem a coacção de terceiros (ver, também, a este proposito, a crónica de João Pereira Coutinho na parte que fala de Berlin, no Caderno Principal do Expresso).
Estou certo que, como eu, Berlin se sentiria desconfortável com a exposição que foi dada a este caso, fonte de agressões e de graves violações da liberdade individual, desresponsabilizando-se a Escola, por cedência ao «politicamente correcto», da sua missão primordial, que é Educar. Excluindo os pais desta questão. Demitindo-se, refugiando-se em regras de carácter administrativo.
Sintomas de uma Escola sem Valores, onde não há espaço para a Escolha. Onde os pais não participam, vivendo na ignorância em relação ao que se passa com os seus filhos. Onde os professores se refugiam na tecnocracia. Onde o espaço moral é o espaço mediático. Onde os alunos se educam para os valores em regime de auto-gestão, e onde ninguém defende a sua esfera de direitos. Sem dúvida, vale mesmo a pena pagar impostos.
Rodrigo Adão da Fonseca
26 Novembro 2005
So long, farewell, auf wiedersehen, adieu?
O BdE apaga hoje as luzes. Habituei-me diariamente a lê-los. Depois da implosão do Barnabé, acaba o BdE?
Não: trata-se - usando uma linguagem empresarial - de uma cisão, porque do BdE nascem dois novos blogues: Aspirina B e A Invenção de Morel. Já estão ambos na coluna das ligações.
Boa sorte a todos.
Rodrigo Adão da Fonseca
Tertúlia em Montes Claros
Ontem, a convite do meu velho amigo Jorge Gustavo - do blogue No Fundo, No Fundo ... - fui conhecer Montes Claros, um residência universitária, e palestrar com alguns dos estudantes residentes e seus amigos. O tema - os jovens e a política - foi amplo o suficiente para patrocinar uma discussão acesa, interessada, interessante. Percorreram-se as dicotomias esquerda/direita, cidadania/partidarismo, liberdade/ditadura do politicamente correcto, centralismo/descentralização; houve ainda tempo para discutir a índole do Estado Social, fazer a crítica do neoconservadorismo, defender a força das ideias e de uma cultura de exigência. A minha apresentação foi breve, seguiu-se um longo período de perguntas e debate.
A discussão prolongou-se até tarde, as perguntas e respostas surgiram como cerejas. A dada fase, foi mesmo necessário forçar a decisão de acabar. Tive ainda a oportunidade de conhecer - finalmente - o Bruno Gonçalves, o grande dinamizador de um dos meus blogues preferidos, o Bodegas.
Nos próximos dias, irei actualizar este post com alguns links para textos que escrevi no Blasfémias, e que julgo complementam alguns dos aspectos que apenas foram apresentados de uma forma sumária.
Um grande abraço,
Rodrigo Adão da Fonseca
24 Novembro 2005
Blue Lounge
Depois de uns meses no Blasfémias, e sem prejuízo de outras colaborações que certamente irei ter em blogues colectivos de cariz político (e liberal, obviamente), decidi lançar-me na concepção de um blogue individual, onde pudesse imprimir um estilo mais pessoal, num ambiente mais sereno.
Num período em que se discute com frequência o que é um blogue - e cada vez mais estou certo que ele pode servir distintas finalidades - penso que fará sentido apresentar-vos desde já uma carta de intenções. Desde logo, este blogue não será uma plataforma informativa; aqui não se vai tentar seguir um estilo jornalístico; pretendo apenas patrocinar um espaço de debate, de cidadania, um local onde possa partilhar a minha forma de ver o mundo com quem me honre com a sua visita; este blogue é como um lounge, ou um café virtual (embora sem bebidas), um espaço aberto a quem quiser visitá-lo; irei procurar aqui criar um ambiente descontraído e plural, onde todos se sintam bem; os comentários serão livres, sem restrições. É blue, porque foi essa a cor que escolhi, que lhe dá uma imagem minimalista e low profile, e que também aponta para a sua denominação geográfico-clubística, pois as minhas raízes, essas estão sempre presentes em tudo o que faço!
Sintam-se convidados nesta minha nova casa, que é também vossa.
Rodrigo Adão da Fonseca
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