22 junho 2006

D. Quixote e a saga da Educação

Júlio Pomar, "D. Quixote e os carneiros", 1963 (via Só no Mistério)

Muito se tem falado sobre a Ministra da Educação e sobre a sua coragem para enfrentar os interesses corporativos dos professores. Eu não sou um técnico em educação, pelo que não vou discutir as minudências associadas a cada medida tomada pela Dr.ª Maria de Lurdes Rodrigues. Também não vou pôr em causa o esforço e até a dedicação como tem procurado avançar rumo a lado nenhum, enfrentando imobilismos, moínhos de vento e reacções histéricas personificadas por quem desconfia de quaisquer medidas que representem, ainda que aparentemente, algo parecido com "mudança". Porque é esse o sentido do nosso caminho: rumo ao nada. Reformar, aqui, deveria significar mudar de paradigma. Enquanto se persistir no actual modelo – o mais absurdo do mundo civilizado – todos os esforços desenvolvidos no sentido de mudar dificilmente impedirão que fique tudo na mesma. Como se pretende ter qualidade no ensino quando os professores – centenas de milhares de professores – são "colocados" por recurso a um sistema informático, segundo critérios cegos de aferição das suas qualidades e da sua adequação à escola em concreto? Que responsabilidade pode uma dada comunidade assacar à direcção de uma escola, se esta não foi responsável pela contratação do corpo docente? E que capacidade de exigir tem um pai ou uma mãe que são forçados a colocar o seu filho na "escola da área de residência"? Como podem os pais penalizar – com que instrumentos – um corpo escolar se não têm a possibilidade de escolher um estabelecimento de ensino para as suas crianças? E como pode a comunidade responsabilizar os pais pela indisciplina e má formação dos seus, se estes não têm a capacidade – efectiva – de interferir naquilo que deve ser a escola dos seus filhos? Que aderência à realidade pode ter a "Escola", quando toda ela é concebida, centralmente, por quem muitas vezes desconhece as realidades mais básicas sobre a criança, a família, e os diversos ambientes onde estas vivem (ruralidade; periferia; massificação urbana; diversidade étnica; diferenças sociais; especificidades religiosas). E que avaliação é essa que se baseia em "exames nacionais", ao bom estilo do Fascismo? Uma sociedade que persiste neste paradigma da "Escola Única" está condenada ao embrutecimento e à desqualificação de grandes massas da sua população. Mesmo os países que seguem modelos de acesso universal por financiamento integralmente público "fogem a sete pés" destes modelos proto-estalinistas; v.g. na Noruega, quem recruta os professores é a própria escola, que tem total autonomia na gestão da sua unidade; em Itália, na Lombardia*, foi testada com sucesso uma solução de livre escolha. Por aqui, estamos preocupados em aperfeiçoar a solução tecnológica de colocação dos professores; a procurar criar um modelo nacional para a sua avaliação; em encontrar artifícios jurídicos para obrigar os professores, compulsivamente, a estarem na Escola; a melhorar o "modelo" para chamar os pais à Escola, comprometendo-os na avaliação. A negociar com "associações de malfeitores" (no sentido ideológico do termo) como a FENPROF e quejandos. Tudo isto reflecte a demência a que se chegou, à mais pura alienação; ao desfasamento total face à realidade. Maria de Lurdes Rodrigues será recordada como mais uma esforçada Ministra que, depois de dar várias voltas ao tabuleiro, fugindo às mais diversas armadilhas, acabou o jogo de regresso à "casa partida". Rodrigo Adão da Fonseca

* Corrigido

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