27 junho 2006

Sobre o arrastar da produção da Opel para Espanha

Caro Daniel, Parece-me justo partir-se do princípio que a GM e os seus gestores não têm uma enorme tendência para o abismo, pelo que existirão, na sua convicção, razões economicamente válidas a suportar a decisão de concentrar em Espanha as suas operações, apesar de (supostamente) para os lados de “nuestros hermanos” os custos (incluindo salários) serem (aparentemente) superiores. Explico-me: ao contrário do painel consultado pelo Público, eu não conheço o caso concreto da GM; agora numa decisão de concentração existem outros factores (que não apenas a avaliação dos custos de ambas as operações em separado) que poderão determinar a opção por concentrar toda a actividade num sítio ou noutro. Diz-se, assim, que a operação em Portugal e em Espanha, antes da concentração, é mais custosa no país vizinho*; tal não significa que o custo marginal resultante da integração de ambas as unidades o seja. Aliás, muitas vezes os ganhos de produtividade e de maximização dos custos só se atingem em volumes de produção elevados, quando a combinação dos factores permite um eficiente alinhamento entre custos fixos e variáveis.
* Vamos, como se diz na gíria, "dar de barato" que os custos do lado de lá da fronteira são superiores (o que não é certo, pois a produtividade pode não estar a ser bem medida pelo painel, que tem alguma facilidade em avaliar, de uma forma estanque, os custos, mas terá mais dificuldade em apurar adequadamente a produtividade).
Um outro aspecto que é amplamente valorizado pelas empresas multinacionais na avaliação da viabilidade dos seus investimentos (aspecto já fora do paradigma neoclássico) diz respeito à gestão do risco; para lá dos custos actuais, os gestores vivem literalmente obcecados - vá lá compreender-se a razão - com a identificação dos custos futuros (leia-se: com a sobrevivência da empresa a prazo); as maiores empresas canalizam grandes esforços para conseguir antecipar e avaliar todos estes riscos futuros; assim, um investimento que apresente, hoje, custos moderados, pode ser prejudicado, v.g., se na apreciação dos riscos futuros se antecipar um ambiente de instabilidade** que acarrete, a prazo, uma espiral de custos ou perdas significativas de produtividade; tais riscos potenciais dizem respeito não só à evolução da economia mas sobretudo ao funcionamento dos tribunais, à estabilidade das leis fiscais, ao bom funcionamento do sistema financeiro, ao peso da burocracia, à capacidade do mercado de trabalho se adaptar à mudança e às exigências crescentes de produtividade.
** Neste plano, o fim do Bloco de Esquerda ajudaria certamente a criar um ambiente favorável à manutenção em Portugal de muitos investimentos estrangeiros (e alguns nacionais).
Como se vê, uma decisão de investimento (como a que está subjacente à concentração em Espanha da operação da Opel) é demasiado complexa para que possa ser arbitrada em definitivo por um painel externo (ainda que tal possa revestir algum interesse jornalístico); só os decisores da GM (management e accionistas) – e, mesmo assim, correndo o risco de falhar – estarão na posse dos elementos necessários para definirem o rumo da sua organização. Quem deliberou na GM tem, além do mais, um risco adicional: o do seu próprio emprego (sanção que não impende, nem sobre os jornalistas, nem sobre nenhum blogger). Assim, e por mais que isso nos custe, temos de aceitar que a avaliação da GM terá sido "razoavelmente" ponderada; a nossa principal preocupação deveria, neste momento, ser apenas uma: perceber o que levou a GM a abandonar Portugal. Rodrigo Adão da Fonseca

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