16 outubro 2006

Jesus Cristo e a eutanásia

Há uma grande diferença entre aceitar a morte, induzida por circunstâncias externas, a eutanásia ou o suicídio assistido. Jesus Cristo limitou-se a aceitar a morte, imposta pela maldade humana; do relato bíblico, aliás, penso que dificilmente a poderia evitar (o que, diga-se, é irrelevante para o caso); pode ou não acreditar-se no que consta nas Escrituras; e até discutir se Jesus não deveria antes ter dado "de frosques". Agora, a sua morte nunca levantou qualquer questão ética como a que vem referida aqui. O que tem sido discutido à saciedade nas últimas décadas não é a aceitação da morte mas a sua precipitação pela intervenção humana. Assim, é hoje pacífico que alguém que sofre de uma doença grave, possa recusar um tratamento, doloroso, mas que lhe permitiria prolongar a vida por uns meses; considera-se que se pode decidir, nestas circunstâncias, morrer em paz. O mesmo se passa se uma pessoa, ameaçada de morte, podendo defender-se, v.g., matando o seu agressor, prefere, ainda assim, não reagir; podemos censurar que se opte por morrer, a matar? A eutanásia não se enquadra em nenhum dos casos acima descritos; não sendo, pelas suas circunstâncias, pacífica no plano ético: ela existe quando, a pedido do doente, um terceiro o encaminha para a morte, pondo fim a um estado de sofrimento físico e anímico; equivale a um suicídio praticado por interposta pessoa; levanta inúmeros problemas, como v.g., a avaliação do consentimento consciente e pleno, os limites e as circunstâncias da autorização, ou até onde pode o homem dispor da sua vida e da vida de terceiros. A Fernanda Câncio descobriu um paralelismo que até hoje no debate ético nunca ninguém havia ensaiado. Porque será? Talvez seja porque - independentemente da opinião que possamos ter sobre a eutanásia - ele não existe. Pois, como se disse, é pacífico que uma coisa é aceitar a morte, mesmo quando, eventualmente, a poderiamos evitar; outra é precipitá-la, solicitando para isso a ajuda humana. Rodrigo Adão da Fonseca

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