10 outubro 2006

O meu voto vai para o D. Sebastião!

"D. Sebastião da Guitarra", Luis Leitão, 2004, in www.olhares.com Do justo e duro Pedro nasce o brando (Vede da natureza o desconcerto!), Remisso e sem cuidado algum, Fernando, Que todo o Reino pôs em muito aperto; Que, vindo o Castelhano devastando As terras sem defesa, esteve perto De destruir-se o Reino totalmente, Que um fraco Rei faz fraca a forte gente
Luis de Camões, os Lusíadas, Canto III, a propósito de D. Fernando (mas que bem poderia destinar-se a D. Sebastião, seria?).
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O PPM protestou; o AAA juntou-se na indignação: o programa da RTP1, "Grandes Portugueses", apresenta uma "lista de sugestões", de onde constam figuras ímpares da nossa História, seres únicos e irrepetíveis, como Afonso Costa, Otelo Saraiva de Carvalho e até o camarada Vasco. Ao mesmo tempo que são ignoradas personalidades como Salazar, Marcello Caetano, Isabel do Carmo, ou Pedrito de Portugal, só para falar de cor. Pessoalmente, não me surpreende esta selecção. Aliás, o contrário é que recolheria o meu espanto. Agora, a lista tem, digamos, outros quês. Esses sim, deveriam mobilizar-nos. Acho incrível que se promova o S. António, e não se destaquem os Três Pastorinhos. E que dizer do D. Sebastião? O que faz dele um "grande português", ao ponto de se sobrepor a distintos monarcas, como D. Afonso III, D. José I ou o Rei D. Carlos? Vejamos o que nos diz a RTP (os itálicos são meus) sobre "O Desejado":

Tão religioso quanto belicista, D. Sebastião é um mito nacional. É sobretudo evocado pelo seu desaire na batalha de Alcácer-Quibir. Nessa localidade de Marrocos, onde procurava recuperar as terras um dia portuguesas, não só perdeu a vida como a maioria dos seus 18 mil homens, deixando o País totalmente desprotegido. Estava certo de encarnar um capitão às ordens do Deus dos cristãos, um novo Alexandre, confirmando as teses de que se tratava de "um louco destemido". Ninguém o viu tombar, apenas desaparecer intrépido através das tropas mouras. Mas, até hoje, também ninguém assistiu ao seu regresso, como previam os "Sebastianistas" - certos de que continuaria vivo - para devolver a glória a Portugal.

Importa perceber que D. Sebastião, se sobrevivo, abandonou o Reino, certamente prisioneiro em sinistros calabouços ou eventualmente recolhido no conforto do harém de um árabe qualquer, disfarçado de Mona Lisa. O país mergulhou entretanto numa profunda crise, que o conduziu ao domínio dos Filipes. Por imperícia ou excessivo arrojo, a sua "visão política" submeteu Portugal à Coroa Espanhola por sessenta anos. Sem dúvida, um grande feito, que deve servir de exemplo para nós, os mais jovens; em particular quando nos é apresentado, como a RTP o faz, como um "louco destemido (...) sobretudo evocado pelo seu desaire", que "não só perdeu a vida", como deixou "o País desprotegido". Seja: o D. Sebastião tem o meu voto! Rodrigo Adão da Fonseca Disclaimer: Não se procura, aqui, discutir - envolto que está em polémica - o lugar que D. Sebastião e o seu reinado ocupam na nossa História, tarefa para a qual não me sinto habilitado. Na verdade, a par dos críticos, há quem defenda que o génio político e militar deste Rei não se pode sintetizar no desaire de Álcacer-Quibir; v.g., o Professor Borges de Macedo sustenta que a campanha africana foi apenas um episódio no reinado de D. Sebastião, mas não a sua essência ou finalidade; e que o brio de um Povo não deveria ser avaliado na medida das derrotas militares: "povos vencidos não são os que travam batalhas e as perdem, mas os que fogem ao combate, sem deixarem de se entregar ao inimigo" (in "A herança de Jorge Borges de Macedo: uma escolha familiar", por Jorge Braga de Macedo). Pretende-se apenas neste post, não denegrir (mais) o pobre do D. Sebastião, mas chamar a atenção para o ridículo da sua indicação (e do próprio programa, ao bom estilo das propagandas nacionalistas), atendendo ao fundamento apresentado no site da RTP.

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