02 outubro 2006

Sobre a adesão da Turquia à União Europeia

A Turquia é, hoje, um "umbrella state", onde convivem distintas tendências nacionais e religiosas. Assim, a par da maioria muçulmana, encontramos cristão ortodoxos e, também, uma minoritária mas influente comunidade judaica (muitos deles descendentes de portugueses aí radicados no século XVI).
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É, apesar da influência islâmica, um Estado Secular; a manutenção deste estatuto resulta da acção concertada entre o poder militar e um poder político que recusa tornar-se refém dos líderes religiosos mais radicais.
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Não conheço em pormenor aquilo que é a Turquia hoje. Conheci este país e a sua realidade histórica e política faz este mês precisamente dez anos; nos anos seguintes, mantive uma forte e próxima relação de amizade com algumas das pessoas que conheci nessa deslocação, com quem convivi com alguma frequência. Por essa época, formei uma opinião que mantenho até hoje.
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Do que percebi, a Turquia vive há largas décadas sob tensão. São reconhecidas por todos as dificuldades internas de coesão, e a violência contra curdos e arménios. Subsiste o conflito com o Chipre e com a Grécia, países que fazem parte da UE (curiosamente, as relações entre gregos e turcos pareceram-se bem próximas e fáceis). Este panorama, de gestão difícil, está ainda ensombrado pelo ressurgir de um islamismo radical de inspiração teocrática.
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Ainda assim, na Turquia pode hoje "respirar-se"; vive-se num ambiente aberto, favorável ao investimento, com um grau de liberdade e tolerância razoáveis. É um país jovem; estes vêem a adesão à Europa como um upgrade civilizacional. Os jovens turcos têm uma enorme vontade de assumir um modo de vida europeu; e nota-se que é para eles importante ver reconhecido este seu esforço de qualificação.
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O risco de desilusão é grande. Caso a Turquia não venha a fazer parte da UE, pode parcialmente retrair-se enquanto civilização e ser terreno fértil, mesmo às nossas portas, para novos radicalismos (mais fortes e populares entre os jovens).
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A matriz cristã da Europa não se perde com a adesão da Turquia. Até porque hoje - com ou sem Turquia - no espaço europeu já existem milhões de muçulmanos, cuja orientação religiosa é, aliás, bastante mais ortodoxa do que aquela que assisti existir entre boa parte do povo turco.
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Nas próximas décadas, na Europa, a coexistência com o islamismo é incontornável. A dúvida está em saber como é que pretendemos lidar com esta realidade.
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Eu, da minha parte, prefiro que a Europa abra as suas portas, de uma forma tutelar; julgo que as nações europeias têm de trabalhar no terreno islâmico, colaborar activamente no seu desenvolvimento económico e cultural; criar canais de relação e cooperação; estabelecer compromissos e metas comuns; ajudar a criar instituições formais e regras legais que assegurem, a prazo, o fortalecimento nessas regiões de Estados de Direito.
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O progresso económico, o bem-estar, o fortalecimento das instituições políticas e do direito comunitário são armas poderosas que podem ajudar a combater os radicalismos.
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Não vejo outra solução que não seja apoiar os que nessas regiões aspiram, genuinamente, a um modo de vida europeu. Por isso continuo a pensar - algo que ficou aliás reforçado após o 11 de Setembro e perante a nova ordem internacional - que a adesão da Turquia, embora possa alterar o paradigma da Europa, se revela essencial para a salvaguarda, quer da nossa integridade cultural, quer, sobretudo, da Paz. Rodrigo Adão da Fonseca

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