06 novembro 2006

Literacia e Liberalismo

No momento em que a Wikipedia se torna cada vez mais uma fonte para os trabalhos escolares, e para a citação em linha de curto fôlego, ela revela de forma muito interessante todos os problemas das novas literacias que são necessárias para trabalhar na Rede. Literacias ligadas à pesquisa e recolha de informação deveriam fazer parte de qualquer aprendizagem escolar desde o básico. Ler, escrever, contar, ver televisão e pesquisar em linha, são as literacias básicas do dia a dia de hoje. Todas, e todas ao mesmo tempo.

JPP, Abrupto, "LER, ESCREVER, CONTAR, VER TELEVISÃO E PESQUISAR EM LINHA - VOLTANDO À WIKIPEDIA".

Dispor de cidadãos com capacidade crítica - aquela que é necessária para "trabalhar" a informação, aferir o que ela representa, avaliar se é ou não verdadeira, para a enquadrar naquilo que são os valores próprios de cada um - é um dos maiores desafios das democracias que se querem avançadas. O que JPP diz - e bem - em relação à Wikipedia, aplica-se às mais distintas realidades sociais, em constante e rápida mutação; hoje, o ritmo de produção de informação é impressionante, cada indivíduo-cidadão é chamado diariamente a decidir, no seu consumo, na celebração de empréstimos, na educação dos filhos, na tomada de posições cívicas, no exercício do direito de voto. Ora, o grau de literacia representa, também, o nível de autonomia pessoal, a capacidade que cada indivíduo tem de se gerir a si próprio. A iliteracia congénita que se constata existir na sociedade portuguesa é visível no consumo desregrado e sem critério, muito mais reactivo e impulsivo do que desejado e planeado, nos fracos índices de leitura, na dificuldade de expressão escrita e oral, nos entusiasmos vãos seguidos de longas agonias e depressões sociais, na desconfiança e inveja, na falta de iniciativa, na incapacidade de exercer direitos cívicos e tutelar os poderes públicos. E conduz ao "trading" existente entre Estado e cidadãos, onde estes prescindem das suas liberdades, em troca do assistencialismo e paternalismo estatais. A maior parte dos socialismos desenvolve(ra)m-se em ambientes onde se impõe (impunha) a iliteracia, o medo e a restrição no acesso à informação. Quando as classes médias se aproximam das superiores, às quais aspiram ascender, privilegiam-se as soluções liberais, meritocráticas, e a promoção da sociedade civil; quando as classes médias e baixas se diluem, afirmam-se os socialismos, os estatismos, e as redes de captura e redistribuição dos rendimentos. A (efectiva) afirmação da liberdade individual exige níveis de literacia muito superiores aos que existem hoje em Portugal, onde boa parte dos indivíduos não têm as capacidades necessárias para se governarem a si próprios (plenamente). Sem um grau distinto de autonomia pessoal, dificilmente a generalidade dos cidadãos optará por soluções políticas que rompem o elo de dependência estatal e o assistencialismo em que vivem mergulhados, causa de pobreza mas também da sua precária sobrevivência. Rodrigo Adão da Fonseca

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