03 novembro 2006

Portugal sob o signo da austeridade?

Insultem-me, convoquem uma manifestação para a porta da minha casa, agora, não vou deixar de fazer a pergunta: porque se protesta tanto em Portugal?
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Protesta-se contra o governo? Não me parece: ao fim de quase dois anos de governação, o défice persiste acima dos 3% (4,6%); a dívida pública continua a crescer a um ritmo galopante (embora, curiosamente, ninguém nos media se importe com isso); e as medidas tomadas não são estruturais; este governo quer convencer os cidadãos que meros acertos conjunturais são medidas de fundo. O que não deixa de ser intrigante, pois olhando para as sondagens, fica-se com a ideia que os portugueses acreditam mesmo que Sócrates está a "pôr o país no eixos".
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Julgo que se protesta, porque sim. Pedimos empréstimos que não conseguimos pagar, vivemos hábitos que não são os nossos, perdemos a lusa humildade para a subsituir rapidamente por um pseudo-cosmopolitismo balofo, veio a factura, protesta-se: todos para a rua! Tivemos durante anos um emprego sem trabalhar, e fomos pensando que nunca ninguém iria notar, em que era promovido por princípio, o ócio pago começa a ser posto em causa, protesta-se: todos para a rua! Estou deprimido(a), julgava que ia ser sempre assim, o meu colega vai para a rua protestar, o Pavlov passou por Portugal: todos para a rua!
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Aqui o governo é o princípio, o meio e o fim de todas as coisas. Há crescimento económico, porque as exportações aumentaram: o governo surge na primeira linha a receber os "louros" (como se fossem eles os responsáveis pela produção); há uma crise no petróleo, sobem os preços, o governo explica às massas o que se passa. Todos os dias "gramamos" horas e horas de discursos de políticos em acção, a explicar que o país é assim, assado, cozido, grelhado; pergunto-me sempre: estes senhores não têm um país para governar? A resposta, infelizmente, é só uma: não. O que mais me assusta é a dificuldade que um cantinho tão pequeno tem em se organizar. Fazemos um esforço titânico para não termos de viver segundo regras claras e simples. Não: preferimos resistir estoicamente na confusão (e movemos mundos e fundos para evitar a mais simples reforma).
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Para que o défice se situe nos 3% do PIB, sem receitas extraordinárias ou desorçamentação, o governo vai ter de tomar medidas drásticas, ou de corte da despesa, ou de aumento da receita (ou em ambos os sentidos).
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Se agora os sindicatos e seus apoiantes berram, o que vão fazer nos próximos dois anos? Simular síncopes cardíacas em plena Avenida da Liberdade?
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Portugal: talvez tenha chegado a altura de nos levantarmos do sofá, e começarmos ... a trabalhar. Que tal? Não? Rodrigo Adão da Fonseca

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