27 Fevereiro 2006

Como se fossemos todos muito burros

A Dr.ª Isabel Almasqué publicou no caderno principal do Jornal Expresso (25.02.2006, página 21) um extenso texto a que chamou «Como se eu fosse muito burra», recheado de números e argumentos, destinado a convencer a população em geral da pretensa montagem pelo Ministro da Saúde de uma cabala contra o Serviço de Oftalmologia do Hospital dos Capuchos que chefia. A Dr.ª Isabel Almasqué está pelos vistos satisfeita com os níveis de produtividade que o seu Serviço apresenta: com um quadro médico de 23 médicos, e mais 6 internos em formação, terá desenvolvido, v.g., durante o ano de 2005, 2.165 cirurgias, e 25.432 consultas. O que é paradoxal, pois existem, em Portugal, unidades de saúde públicas com produção semelhante (em termos de cirurgia) com um terço dos médicos (e convém não esquecer que Oftalmologia é, por definição, uma especialidade cirúrgica). Se fossem 59 os médicos afectos ao Serviço, seria um escândalo; sendo «apenas» 29, a performance não deixa de ser particularmente fraca. Orgulha-se ainda de não ter lista de espera, mas não indica, v.g., qual o tempo incorrido entre a primeira consulta e a data da intervenção, nem quantas consultas são necessárias até que o doente seja efectivamente intervencionado. Em caixa, destaca ainda que «(...) Um serviço de oftalmologia de um hospital central é um serviço de fim de linha, onde se diagnosticam e tratam os casos mais complexos e difíceis (...)». Curiosamente, neste plano, não se apresentam, em concreto, os níveis de complexidade e gravidade dos seus doentes, números essenciais para que se pudesse fazer a confrontação com os dados dos hospitais comparáveis; só assim se poderia considerar este como um bom argumento para justificar os menores níveis de produtividade que resultam dos números apresentados na crónica do Expresso. Lamenta-se também pelo facto do seu serviço prestar não apenas cuidados de oftalmologia diferenciados mas também cuidados primários, «(...) já que as consultas de primeira vez são marcadas directamente pelos centros de saúde, sem nenhuma triagem prévia (...)». Talvez se o Hospital dos Capuchos, neste plano, tivesse seguido o exemplo de outras unidades hospitalares, que trabalham em conjunto com os centros de saúde, dando formação aos seus médicos e sensibilizando-os para esse problema, conseguisse uma menor afluência de doentes a necessitarem exclusivamente de cuidados primários, em seu próprio benefício. Não deixa de ser paradigmático que sempre que alguém procura mexer com o status quo, os visados se vitimizem, com afirmações do estilo «Porquê tanta animosidade em relação a este serviço?», arremessando à população números e dados que estes não estão preparados para analisar, fazendo pairar a ideia de que se está perante uma «caça às bruxas». Mais comentários poderiam fazer-se; que não se apresentam neste post por uma questão de economia de argumentos. Agora, o que os cidadãos já perceberam é que os recursos afectos à Saúde estão mal aplicados, e que crónicas como as do Expresso mais não são do que desculpas de mau ... prestador. Rodrigo Adão da Fonseca

Racismo no futebol

Ontem interrompi as minhas mini-férias e fui à Luz. O Porto perdeu com um golo muito consentido, um livre sem barreira onde Vítor Baia, um guarda-redes experiente, se precipitou para a bola deixando-se enganar pela sua trajectória. Fica para história um jogo de solteiros contra casados: fiquei com a sensação que mais uma vez este campeonato vai para as mãos do que conseguir ser menos mau: ora, neste campo a concorrência é forte, pelo que o desfecho é imprevisível. O jogo para mim ficou negativamente marcado pelos sistemáticos insultos racistas entoados pelos adeptos do Benfica sempre que Paulo Assunção tocava na bola. Certamente o plantel do SLB é formado por onze puros exemplares da raça ariana, pelo que Beto, Luisão, Manuel Fernandes ou Alcides não se sentirão ofendidos por semelhantes macacadas - sim, porque parecem macacos entoando alto e a bom som uns ruidosos e furiosos «uhs uhs uhs uhs» - dos seus adeptos. No ano em que o FCP foi campeão europeu, alguns adeptos do Porto mimaram Drogbla - à época no Marselha - com cânticos semelhantes: no dia seguinte, McCarthy perguntou nos jornais se para os lados do Dragão achavam que ele era branco, deixando bem claro que sempre que dirigiam insultos racistas a um adversário, o atingiam a ele também. Ganhar e perder é desporto. A única pessoa que pode ser apoupada no campo de futebol, sem que a sua dignidade fique ferida, e por tradição, é a mãe do árbitro, e apenas se o piropo for dirigido no seu sentido figurado. As pessoas que se refugiam nas massas para dirigir insultos racistas são cobardes - gostava de os ver aos saltos em frente ao Paulo Assunção, ou ao McCarthy, cara-a-cara. Pois: no meio da bancada, é só heróis. Rodrigo Adão da Fonseca

Parabéns ao Insurgente

De férias algures no país real, no Ribatejo profundo, só hoje descobri um sobreiro onde consegui ligar-me, via Kanguru, ao mundo virtual. Para felicitar a família Insurgente, pelo seu aniversário, e os seus novos membros. Rodrigo Adão da Fonseca

24 Fevereiro 2006

Os blogues são como os tamagochis...

... Se não os acarinhamos, morrem. «Blogs only live once». Nos últimos dias, de facto, não cuidei devidamente do Blue Lounge. Este blogue entra pois num período de reanimação. A primeira iniciativa passa por linkar a fundadora do conceito «über-woman», Miss Gemini, antes Cardinale, e o seu blogue Postais de BXL, a quem brindo (mais uma vez) com Cabernet Sauvignon, escolha do Mr. Dz (com «zeta»). Rodrigo Adão da Fonseca

23 Fevereiro 2006

Ia fazer um post ...

... mas detesto estes teclados sem acentuacao (com cedilha e til na letra a) nem cedilhas ... Rodrigo Adao (sem til) da Fonseca PS: Nunca mais deixo o computador em casa (esta mania que hoje ha - com acento na letra a - computadores por todo o lado traiu-me: nao - com til - consigo escrever assim).

20 Fevereiro 2006

Por uma gestão da Saúde que defina os incentivos correctos

I. Correia de Campos teve a coragem, na semana passada, de colocar mais uma vez o dedo na ferida: o SNS não pode continuar a consumir recursos à taxa de crescimento dos últimos anos, e o actual sistema de financiamento não serve. A oposição - do Bloco de Esquerda ao CDS - reagiu a esta evidência de uma forma lamentável. De uma irresponsabilidade a toda a prova. Teresa Caeiro do CDS-PP teve um patético flash interview à saida do Parlamento, resguardando-se no carácter «tendencialmente gratuito» que a Constituição prevê para a Saúde. O PSD, bem como a esquerda, alinharam pelo mesmo diapasão, pese embora com argumentos algo mais elaborados. Acima de tudo, ninguém na oposição está disposto a dividir com o governo as medidas que - julgam (erradamente) - serem impopulares. II. O grande problema do país - e, na Saúde, tal é por demais evidente -, a grande lacuna diz respeito a uma área específica: Gestão, capacidade instalada vocacionada para gerir e para impor um correcto alinhamento dos processos ao serviço da estratégia. Infelizmente, os incentivos são os errados, todos os processos estão desvirtuados, servindo os profissionais de saúde das mais distintas valências, as farmacêuticas, e só lateralmente os utentes (leia-se, os contribuintes, pois a Saúde não é, ao contrário do que se diz, gratuita: todos a pagamos, embora só marginalmente no acto de consumo). Correia de Campos tem uma estratégia; e parece ser o Ministro mais preparado para alinhar os processos. A oposição, essa, com a sua incapacidade, impreparação e falta de vontade para servir o país, decidiu dar mais uma vez os trunfos ao Governo. O grande desafio da Política de Saúde em Portugal passa por conseguir aumentar a qualidade, diminuindo a despesa. E isso é possível, porque o grau de desperdício ao nível do SNS é elevado. É preciso, entre outras medidas, alterar a gestão nas unidades de saúde (hospitais e centros de saúde), alinhando o interesse público com os interesses particulares, mediante uma correcta e adequada política de incentivos (definindo os incentivos correctos); é preciso introduzir regras de controlo e auditoria, centrais de compras, protocolos médicos rígidos. É ainda necessário alterar o financiamento dos hospitais, não na relação Hospital-Utente (como «embandeiraram em arco» os políticos preguiçosos da oposição nacional), mas na relação Hospital-Accionista (Estado): na verdade, o actual modelo de financiamento penaliza os hospitais mais eficientes, e não desincentiva os mais ineficientes, que conseguem ainda ver remunerada uma dose significativa da sua ineficiência (v.g., os GDH's tal como estão definidos remuneram ainda a ineficiência; certas quotas mínimas não ponderam elementos relevantes, como a recompensa da qualidade medida, v.g., pela taxa de readmissão ou pela mortalidade). III. Uma oposição construtiva (não socializante) - supostamente centrada no «eixo PSD-PP» - teria alertado para a evidência do alerta ministerial, apelando para a necessidade de uma maior privatização de certos cuidados de saúde, que no actual quadro seria certamente benéfica (mas obviamente com a correspectiva diminuição da carga fiscal: porque não faz sentido falar-se numa menor intervenção do Estado, ou num aumento das taxas, sem a correspondente diminuição dos impostos, vulgarmente designada por «opting out», neste caso gradual, e inicialmente restrito a um certo tipo de intervenções massificadas e mais simples, v.g., certas áreas médicas, ou cirugias simples). Tal contudo significaria uma radical mudança, que obrigaria, para ser bem sucedida, v.g., à previsão da exclusividade médica no sistema público, e a uma alteração da sua remuneração para incorporação de uma componente variável (este ponto III é especialmente dedicado ao AA, na sequência deste seu post no A Arte da Fuga). IV. Acima de tudo, seria importante que os partidos da oposição (sobretudo PSD e PP) se concentrassem naquilo que é essencial - v.g., combate à OTA e ao TGV - em vez de se perderem criando atrito e desgastando os políticos que têm tido a coragem de avançar no sentido correcto. Sobretudo o PSD, que deveria ter consciência que Correia de Campos segue uma linha que ele próprio definiu enquanto Ministro de Guterres, mas que foi adoptada e seguida por Luis Filipe Pereira. Rodrigo Adão da Fonseca PS: Caro PPM, continuo à espera da tua resposta a este post.

17 Fevereiro 2006

Manias do RAF

Não foi fácil responder a este desafio da aL., pois sou um jovem cheio de manias. Escrevi uma lista, e seleccionei cinco (das confessáveis): Tabaco: Detesto tabaco. Detesto os fumadores que não respeitam o meu espaço, em especial senhoras gordas de perna cruzada que insistem em canalizar o fumo para a minha atmosfera, enquanto movem os lábios convencidas que isso as torna sexys. O tabaco instiga o meu lado lunar, anti-liberal. Comprar quadros: Começo a ter as paredes cheias; conclusão: vou ter de trocar de casa. Cafés: Sou fiel aos cafés de sempre; ainda hoje sou cliente habitual do café ao pé de casa de meus pais. Fico desiludido quando um dos meus cafés de eleição é trespassado, ou muda a gerência. Raramente peço o talão no Multibanco: Para quê gastar papel para ver um saldo que já conheço, e que posso consultar na Internet? Monarquia; apelo aos ascendentes; o temor reverencial e a vénia lusa: Detesto o espírito monárquico; os «ares» dos que estão sempre a apelar à legitimidade intra-venosa; detesto o tratamento por «Doutor», «Sêtor», «Professor», «Engenheiro» e outras tretas da nossa cultura; sou um dos maiores dinamizadores nacionais do movimento do «Tu». Relativamente bem sucedido. Falta o resto (mas para isso é preciso uma quase ruptura cultural)... Desafio: Filipa Correia Pinto, do E Depois do Adeus ... António Almeida, do Iconographos ... Jorge Gustado, do No Fundo, no Fundo ... Rui de Albuquerque, do Portugal Contemporâneo ... Joana, no Simplesmente Joana. Rodrigo Adão da Fonseca Adenda: Caixas: tenho dezenas de caixas, de vários tamanhos e feitios, cada uma com a sua finalidade. O sótão de casa dos meus pais tem várias caixas com toda a minha infância, adolescência e juventude devidamente «encaixotada», à espera de serem redescobertas; ainda não passou tempo suficiente para que faça sentido esta viagem ao passado.

Blue Painting: Carlos Carreiro

[Via O Século Prodigioso]

Rodrigo Adão da Fonseca

16 Fevereiro 2006

Mulheres e Política

Se abstrairmos da (inexplicável e) habitual fixação «EUA» e da facilidade com que se enaltecem países com graus de democraticidade duvidosos (in casu a Libéria onde, v.g., não há luz na capital há vários anos em virtude da guerra civil), recomenda-se o post de JAD - «Americanas» - nos Bichos Carpinteiros, em especial o mega-mapa anexo. Rodrigo Adão da Fonseca Track sobre a participação das mulheres na vida pública, aqui no Blue Lounge: Choque de Civilizações e subalternização das mulheres Contraditório - sobre o papel das mulheres Rodrigo Adão da Fonseca

Não me desenhem mais ...

« (...) O povo adora expressar-se quando ninguém lhes pede uma opinião, mas quando esta é precisa, ele recolhe-se para a sua toca (...)» «(...) Um dia que comece com uma conversa facilmente se torna amargo. É preciso ir acordando, derreter lentamente enquanto o dia aquece (...)».

António Caetano DN Jovem Retratos Urbanos Revista 6.ª (DN de 10 de Fevereiro de 2006)

Vá lá, decidam-se ...

«Relativismo Moral» deve ser uma coisa parecida com esta mania de dar uma no «cravo» e outras na «ferradura». Entretanto, Freitas do Amaral, hoje de manhã, quando viu que saiu «coroa», decidiu convocar o Embaixador do Irão para lhe dizer que, afinal, não são assim tão amigos. Rodrigo Adão da Fonseca

15 Fevereiro 2006

Contraditório - sobre o papel das mulheres

No blogue Quote That responde-se no feminino ao post que publiquei aqui. A análise é muito interessante, e admito que o problema da imparidade passe também pelo «ónus social» (a expressão é muito feliz) que ainda impende sobre as mulheres, na educação dos filhos e na lide doméstica. O espaço privado persiste em ser tendencialmente matriarcal, e na prática as mulheres com filhos estão fortemente limitadas na sua afirmação social, não por restrição legal, mas por efectiva falta de tempo. A forma como se organizam, por exemplo, os partidos, com reuniões sistemáticas depois do jantar, até altas horas da madrugada, com a necessidade de marcar presença em acções geograficamente dispersas ou em programas televisivos em horário nobre são factores que conduzem a uma redução significativa da capacidade de participação das mães (particularmente sobre aquelas que acarretam o tal «ónus social» da educação dos filhos e da gestão doméstica), tornando a política num mundo de fraca presença maternal, onde as mulheres que «estão» muitas vezes surgem com o dilema da «escolha» alternativa, em alguns casos castradora. Rodrigo Adão da Fonseca

O Blue Lounge festeja

Rodrigo Adão da Fonseca

Blue Painting: João Figueiredo

Pearled mouth
técnica mista s/ ready-made em platex
100 cm x 67 cm (2005)
"Retrato de Jovem" de Ghuirlandaio
Bone-ace (jogo de cartas do séc.XVI C/ 4 cartas)
técnica mista s/ ready-made em platex
44 cm x 32 cm (2005)
"Retrato de jovem" de Ghuirlandaio
Rodrigo Adão da Fonseca

Blue Monday

Back to the 80's, de novo, New Order. Um grande teledisco. [via Simplesmente Joana] Rodrigo Adão da Fonseca

O Blue Lounge não esquece

Lembro-me bem do dia em que Gaspar Castelo-Branco foi brutalmente assassinado. O telefone tocou em minha casa com a infeliz notícia. Se a memória não me falha, teria descido à rua para comprar algo para o jantar. Um cidadão comum que foi fria e cobardemente assassinado. Na véspera de uma das eleições mas importantes da democracia portuguesa. O país não reagiu. Calou-se. Amedrontou-se a direita; a esquerda e paradoxalmente o «centrão» preferiram homenagear e canonizar os que comprovadamente faziam parte das FP-25, reabilitando-os para a sociedade civil (Otelo, o homem que se tivesse cursado Direito se julgava apto a ser o «Fidel Castro da Europa», condenado inicialmente a dezoito anos de cadeia, cumpriu apenas cinco anos de pena efectiva), e agraciando-os com medalhas e ordens de mérito (Otelo e Isabel do Carmo, por exemplo, tiveram direito à «chapinha» presidencial, embora o primeiro tenha recusado a comenda da «Ordem da Liberdade», por a considerar banalizada). Importa notar que o atentado foi reinvindicado pelas FP-25 de Abril. Hoje, em Portugal, são aos milhares os que defendem de forma arrebatada a liberdade de expressão contra um Islão que está longínquo, a propósito de uns cartoons publicados num jornal de pronúncia esquisita, da Europa do Norte. Aqui tão perto, porém, à nossa porta, morreu em nome da liberdade e da democracia alguém que tinha um rosto que nos era familiar, porque era nosso, servia em Portugal; que soube honrar as funções que lhe haviam sido confiadas; que deixou permaturamente a sua família. À época, não soubemos ser dignos merecedores da sua coragem. Que ao menos, vinte anos depois, saibamos respeitar a sua memória. Sem deixar cair a sua morte no silêncio e no esquecimento. Rodrigo Adão da Fonseca

14 Fevereiro 2006

Porque são as ideias os pilares das Civilizações - II

Antecedentes: Porque são as ideias os pilares das Civilizações - I Em boa medida, foi nos anos 90 que começámos a assistir à subalternização da discussão ideológica ao nível da opinião pública. O fim da Guerra-Fria criou uma sensação de alívio no mundo ocidental; o progresso económico e o bem-estar social passaram a ser as únicas prioridades dos Governos Europeus, em detrimento da Segurança, da Geopolítica e da Diplomacia. A própria classe política aburguesou-se de uma forma vertiginosa, passando a atrair sobretudo burocratas e líderes sem chama, reféns do jogo partidário e do (i)mediatismo (na sua dupla significação, mediática e imediata). Certos autores, à epoca em curva ascendente, contribuíram também para um certo adormecimento das ideologias e para um downgrade da política; Francis Fukuyama (cfr. «O Fim da História e o Último Homem», Gradiva, 1992) vangloriou-se com o triunfo do modelo democrático típico das sociedades ocidentais (sobre a curva descendente de Fukuyama, ler o que escrevi aqui):
Nos últimos anos ocorreu «(...) por todo o mundo um consenso notável quanto à legitimidade da democracia liberal como sistema de governo, à medida que esta triunfava sobre ideologias rivais, como a monarquia hereditária, o fascismo e, mais recentemente, o comunismo. Mais do que isso, porém, eu defendi que a democracia liberal poderia constituir o “ponto terminal da evolução ideológica da humanidade” e a “forma final de governo humano” e, como tal, constituiria “o fim da história”. Isto é, enquanto anteriores formas de governo eram caracterizadas por graves imperfeições e irracionalidades, que conduziram ao seu eventual colapso, a democracia liberal estava comprovadamente livre dessas contradições internas fundamentais (…)»; tal não significava que para Fukuyama estas mesmas democracias «(...) estivessem livres de injustiças ou graves problemas sociais (…)», as quais seriam, no entanto, «(…) mais o produto de uma incompleta aplicação dos princípios gémeos da liberdade e da igualdade, em que a democracia moderna se fundamenta, do que defeitos intrínsecos dos próprios princípios (…)» o que certamente não acontecia relativamente a outro tipo de regimes.
Com o fim da Guerra-Fria, Marx teria sido derrotado por Hegel, e a locomotiva da história estaria, deste modo, no aconchego da estação terminal. Fukuyama rejubilava, recomendando que o mundo ocidental se concentrasse apenas no aperfeiçoamento do modelo capitalista vencedor. Fukuyama dava o mote. Todo o Ocidente se concentrou no seu próprio progresso. Em 2000, no advento do novo milénio, Salman Rushdie descrevia, de uma forma deliciosamente feliz, o ambiente reinante numa Nova-Iorque efervescente e despreocupada:
«(...) A cidade fervilhava de dinheiro. Rendas e bens imóveis nunca tinham sido tão elevados e, na indústria do vestuário, havia a convicção generalizada de que a moda nunca estivera tão na moda. A todas as horas abriam novos restaurantes. Lojas, empresas concessionárias e galerias suavam com o esforço de satisfazer a procura em flecha de produtos cada vez mais exóticos: azeites de edição limitada, saca–rolhas de trezentos dólares, Humvee de fabrico personalizado, o mais recente software antivírus, serviços de acompanhamento que incluíam contorcionistas e gémeas, instalações de vídeo, arte marginal, écharpes levíssimas feitas de penugem da queixada de cabras monteses. Eram tantas as pessoas a remodelar apartamentos que as provisões de aplicações e de mobiliário de alta qualidade eram disputadíssimas. Havia listas de espera para banheiras, puxadores, madeiras de lei de importação, lareiras a imitar o antigo, bidés, lajes de mármore. Apesar das recentes quedas do valor do índice de Nasdaq e do valor das acções da Amazon, a nova tecnologia tinha a cidade na mão: continuavam a debater–se os arranques (aqui dever-se-ia ter mantido a expressão original, “start–ups” que, sendo um estrangeirismo, é utilizado com frequência na gíria da gestão), as OPA’s, a interactividade, o futuro inimaginável que tinha agora mesmo começado a começar. O futuro era um casino, e toda a gente jogava, e toda a gente esperava ganhar (...)». [Descrição do modus vivendi nova–iorquino no início do Outono de 2000; «Fúria», de Salman Rushdie,Publicações D. Quixote, 2001]
Jean-Marie Domenach (citado por Guilherme d’Oliveira Martins in «Educação ou Barbárie», 1998, Gradiva), dizia: «(…) uma sociedade que se entrega ao frenesim do consumo torna–se escrava de uma fatalidade mais perturbante e mais terrível do que a outra que pesava sobre as épocas de penúria (…)». Vaticinava–se já, trinta anos antes, avant la letre, o que seria o início do séc. XXI: um período de recessão económica e de medo.

Rodrigo Adão da Fonseca (continua)

Porque são as ideias os pilares das Civilizações - I

No mundo ocidental, o discurso político está mediatizado, vive dominado pela busca do «máximo denominador comum» e reduz-se na utilização de expressões simples e abrangentes. O pensamento exprime-se por sound bytes de ressonância instantânea; a congruência mede-se momentaneamente, num ápice, a partir de uma híbrida tábua estética e indutiva. As ideias políticas pairam na dimensão light: o que importa é ser capaz de impor em larga escala uma imagem, um perfil: os agentes políticos vivem sob o «síndrome de Popper», amedrontados por sondagens, indicadores de «popularidade» e «afectividade», que sobem e descem com uma rapidez vertiginosa. Após dois séculos onde a estética influenciou de uma forma decisiva o modo como estruturamos o nosso pensamento (cfr. de Marx a Nietzsche, até às abordagens psicanalíticas de Freud), depois de algumas décadas a desconstruir, o novo milénio apresenta-nos uma Europa letárgica, pouco estruturada no plano das ideias, relativista, que se satisfaz com a verosimilhança e não se interessa pela verdade (cfr. Freakonomics); vivemos em sociedades em que os lugares comuns e meras regras de convivência passaram a ter a dignidade de valor, enquanto as ideias estruturantes da sociedade não são apreendidas, ou simplesmente se perdem na retórica e nos labirintos do politicamente correcto. (continua) Rodrigo Adão da Fonseca

Austria at Arco 2006

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Rodrigo Adão da Fonseca

Desafio «O Essencial»

JPP chama a atenção, no seu Abrupto, para o quase desaparecimento da colecção «O Essencial», da responsabilidade da INCM. A colecção, à época, foi o maior sucesso. Por isso seria interessante - já que os jornais todos eles optaram por agregar livros, CD's, colecções da mais diversa índole - vê-la republicada em grande escala. Fica aqui a sugestão. Rodrigo Adão da Fonseca

Blue Lounge Recomenda

Opa e Contra Opa, um blogue temático, sem dúvida, a seguir com atenção. Rodrigo Adão da Fonseca

13 Fevereiro 2006

Sobre o Eixo Lisboa-Cascais

Caro Paulo, Não me interpretes mal, acho que ficaste excessivamente focado num parágrafo muito particular do meu post: olha que eu não reduzi a minha análise a uma guerra Norte-Sul, (que aliás eu próprio não subscrevo), tendo aliás procurado fazer uma abordagem objectiva do fenómeno OPA. Agora, o que se nota, à margem da OPA - e é bem perceptível em vários meios - é um pavor brutal da entrada da SONAE na PT, porque isso representa o fim de um status quo que tem sido bastante benéfico para um conjunto bem amplo de pessoas, em regime de «in» e «outsourcing». E sei bem do que falo, porque são vários os que nos últimos dias me têm manifestado o seu receio: Belmiro de Azevedo não é famoso por se rodear de assessorias e consultorias fortemente recompensadas, e por isso há quem não se sinta confortável com um futuro alinhamento accionista ... Há quem em Lisboa não veja com bons olhos esta descida do que chamam «Barão do Norte» e queira recuperar a ideia da Guerra Norte-Sul. Um assunto obviamente da menor importância. Apenas isso. E estamos a falar de um pormenor no meu post. Rodrigo Adão da Fonseca

Sobre a OPA da SONAE e a avaliação do management da PT feita pelo mercado

Uma OPA como a que foi lançada pela SONAE sobre o capital da PT tem, na perspectiva do oferente, uma série de riscos acrescidos face a uma OPA de menor dimensão, os quais têm de ser bem medidos antes do anúncio da operação. Assim, e ainda durante o processo da OPA colocam-se, v.g., potenciais dificuldades pelas Autoridades da Concorrência e até riscos de imagem pela não concretização da operação. Numa fase pós-OPA subsistem riscos de perda de valor, v.g., pela não concretização de sinergias, por dificuldades de alinhamento cultural entre os colaboradores das diversas empresas, pela dificuldade de as redimensionar, pela verificação de riscos não previstos, pela incerteza que paira sobre a rendibilidade da rede fixa no médio prazo. Estes riscos são - ou devem ser (nem sempre são) - objecto de mensuração antes do lançamento da OPA, e acrescidos ao valor da cotação, para comparação com o valor real (e potencial) da empresa visada. Por isso, dizer que a actual administração da PT tornou a empresa apetecível, em tom de elogio, não faz qualquer sentido (faço referência ao post do PPM, mas ao longo destes dias várias pessoas têm escrito neste mesmo sentido, inclusive, para minha surpresa, tem sido essa a linha dominante no DE). A Administração da PT, com maior ou menor responsabilidade, com maior ou menor margem de manobra, conduziu a que, na véspera do lançamento da OPA, houvesse um gap significativo entre a capitalização bolsista e o valor real e potencial da empresa, permitindo que a sua concorrência, descontados os riscos (brutais) da operação, ainda encontrasse entusiasmo e fundamento para lançar a Oferta. Estamos a falar, além do mais, de uma empresa que está numa posição de monopólio, pelo que parte, por essa razão, de uma posição francamente favorável. Não se pretende aqui crucificar a actual administração da PT, que em muitos planos terá (ou não) feito aquilo que as condições lhe permitiam (não é esse o ponto). Agora, o que é um dado de facto é que o mercado tem penalizado o título PT, em boa medida, entre outros aspectos, i) pela instabilidade institucional do seu corpo accionista; ii) pela bizarria de ter como pólo de equilíbrio um minoritário ambivalente como é o Estado; iii) pela atitude monopolista anti-cliente que por vezes cultiva e que prejudica a sua apetência junto do pequeno aforrador (ele próprio consumidor dos seus serviços); iv) pela dificuldade que o seu management sempre teve em promover efectivas reorganizações internas (dado o seu carácter substantivamente «para-público»), preferindo ser um dos maiores centros de distribuição de favores em forma de «jobs» (seja em «in» ou «outsourcing») que o país conheceu desde os anos 90. O falado interesse de Pereira Coutinho surge na sequência da iniciativa da SONAE, e dificilmente se traduzirá numa OPA concorrente. Pereira Coutinho lidera o Grupo SGC, que não terá sozinho facilidade em encontrar uma muleta financeira que suporte eventuais pretensões desta natureza; ser-lhe-á assim mais vantajoso reforçar as suas ligações ao Grupo SONAE, alinhando os seus interesses, participando na divisão do esforço da operação (e que se poderá traduzir na entrada de Pereira Coutinho no cabo e nos conteúdos); não será aliás difícil fazê-lo, pois Pereira Coutinho mantém uma excelente relação pessoal com alguns dos principais protagonistas do lado SONAE (v.g., Lobo Xavier exerceu durantes muitos anos funções no Grupo SGC, sendo ainda advogado das empresas). Nas próximas semanas poderão surgir outros interessados em dividir com a SONAE o esforço da OPA, tomando posição nos negócios que Belmiro e Cia tenham definido como não «core», ou que levantem obstáculos em sede de direito da concorrência. Mas desenganem-se os que no eixo Lisboa-Cascais ainda não digeriram a OPA (embora sempre tenham sido a favor do «funcionamento do mercado») e que aspiram a uma OPA concorrente que permita manter o status quo. Nada vai voltar a ser como dantes. Rodrigo Adão da Fonseca [Em stereo com O Insurgente]

Mário Soares, o monarca da dinastia MUD

José Medeiros Ferreira decidiu ensombrar o excelente desempenho da Joana Amaral Dias nas Presidenciais alegando que em certa medida a sua escolha para mandatária de Mário Soares radicou numa espécie de socialismo proto-monárquico. E eu a pensar que apelar aos ascendentes e aos tempos idos da ditadura eram hábitos da velha direita nostálgica. De facto, cada vez menos faz sentido a dicotomia esquerda-direita. Até os tiques são os mesmos! Rodrigo Adão da Fonseca

Sorry?

Ontem, ao assistir ao telejornal, pareceu-me ouvir na boca de S. Exa. o Professor Doutor MNE uma comparação entre a maldade do Ocidente e do Islão. Hoje, porém, constato que não fui o único a não perceber o que disse Diogo Freitas do Amaral. O Rui de Albuquerque escreve, no seu Portugal Contemporâneo:
Freitas do Amaral: «As agressões do Ocidente ao Oriente têm sido maiores que as agressões deles contra nós».
Caro Rui, deves ter ouvido mal. Achas que Freitas do Amaral algum dia faria semelhantes afirmações? Só se tivesse perdido o juízo. Um frase destas, a ser verdade, já teria dado lugar a uma demissão liminar. Ambos estamos a ouvir muito mal, meu amigo. Rodrigo Adão da Fonseca Nota: JPP também acha que ouviu. O João Miranda idem (e até faz link para a RTP). Será que afinal ouvimos bem e ninguém foi ainda demitido?

11 Fevereiro 2006

Choque de Civilizações e subalternização das mulheres

Ao longo de milénios, as mulheres têm tido grandes dificuldades em se afirmarem no espaço público. A cultura ocidental tem permitido algo que é inédito na história da Humanidade: uma paridade em larga escala entre homens e mulheres. O Islão reserva-lhes um papel subalterno; as restrições à liberdade são particularmente violentas no que diz respeito às mulheres. Por isso me parece que as mulheres têm, na afirmação cultural dos valores do Ocidente, que assumir uma maior liderança e protagonismo, pois são elas quem mais sofre no mundo islâmico os rigores da mão de ferro desta civilização teocrática e - diga-se - machista. Rodrigo Adão da Fonseca

Back to the 80's

Via Simplesmente Joana, regressei hoje aos anos oitenta, ao início da minha adolescência. Rever o teledisco Forever Young, dos Alphaville, com as suas cabeleiras, levou-me de volta a um tempo onde a televisão tinha apenas dois canais, onde não havia internet, telemóveis, AMC Arrábida 20, playstations, mp3, cd's, dvd's, viagens low cost, férias no Brasil, hipermercados, FNAC's ou McDonalds. Aos 32 anos, olho para a minha adolescência e vejo-a tão diferente daquela que é agora vivida pelos mais novos. Tive uma adolescência feliz (duvido que hoje os adolescentes tenham acesso à liberdade e à segurança de que dispunhamos nos anos oitenta e início dos anos noventa). Mas olhando para o progresso, sinto-me com uma enorme vontade de viver, já trintão, muitos dos benefícios que estão ao dispor de quem tenha um espírito jovem: sem dúvida, forever young! Rodrigo Adão da Fonseca

10 Fevereiro 2006

A triste agonia do Semiramis

O Semiramis era um dos meus blogues preferidos; não percebi se a sua autora morreu «física» ou apenas «virtualmente»: o que é certo é que o blogue está num total abandono. Gostava que fosse um mero boato. E que tudo o que se tem lido por aí não passasse de uma brincadeira de mau gosto. Ainda assim, e por várias razões, ficam aqui os registos do Blue Lounge.
Rodrigo Adão da Fonseca

Até onde for preciso, com proporcionalidade e adequação

Enquanto tivermos quem se surpreenda e indigne, em Portugal e na Europa, com decisões necessárias para garantir a segurança dos cidadãos, dificilmente seremos capazes de nos preparar para gerir a ameaça islâmica. Rodrigo Adão da Fonseca

Mediatização do medo

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Rodrigo Adão da Fonseca

Duplo mortal encarpado

Entusiasmado, Daniel Oliveira, no Aspirina B, decidiu fazer um raciocínio. Deu nisto:
E agora ao contrário Um muçulmano aceitar a publicação dos cartoons de Maomé, quando tal é impensável na sua civilização, só porque isso é perfeitamente normal na nossa, não seria uma demonstração de «um inaceitável relativismo moral»?
Não. O conceito de «Relativismo Moral» andará próximo da defesa simultânea de um valor e de contradições que o anulam, tentando encontrar coerência - impossível pelas suas premissas - a partir de «especificidades culturais» e «conceitos de normalidade». Rodrigo Adão da Fonseca

ARCO 2006: Ana Cristina Leite

A Cristina Leite volta a marcar presença na ARCO (e no Blue Lounge), representada pelo galerista brancarense Mário Sequeira e pela galega Adhoc.

Técnica mixta sobre mdf

150 x 100 cm

2005

Pintura acrílica, dibujo al carboncillo y resina sobre DM

150 x 150 cm

2005

Rodrigo Adão da Fonseca

ARCO 2006: Rita Magalhães

Da delegação portuguesa, o meu primeiro destaque vai para a Rita Magalhães (da Galeria Pedro Oliveira).

Drust lambda (edition of 5) 100 x 70 cm 2005

Rodrigo Adão da Fonseca

09 Fevereiro 2006

Exmo. Sr. Professor Doutor MNE

Exa, Muitos cidadãos portugueses ficaram surpreendidos com o comunicado proferido pelo Ministério que V. Exa. dirige, onde por seu intermédio a República manifesta a sua opinião - leia-se, a posição de Portugal - face aos tristes acontecimentos que invadiram as nossas casas por esse poderoso meio de difusão da realidade que é a TV. Muitos se perguntam porque razão o governo de Portugal decidiu assumir uma posição oficial em relação a algo que, aparentemente, diz respeito ao Reino da Dinamarca e a alguns Estados teocráticos de inspiração islâmica. Quero dizer-lhe que considero tais reservas resquícios do provincianismo e do isolacionismo cultural tão típicos da nossa lusitaniedade. Nos nossos dias, vivemos numa aldeia global, e o que se passa num país inóspito do mundo, deve ser objecto de atenção por parte dos responsáveis governativos. Quem não percebe isto é porque desconhece, além do mais, um dos princípios basilares do Direito Internacional, o da extensão da territorialidade por facto mediático: se apareceu na nossa TV, então é porque merece a jurisdição e a douta opinião dos nossos governantes. Além do mais, se a Condoleeza Rice deu opinião, porque razão não havíamos nós de a dar? Julgo, aliás, que a sua iniciativa está perfeitamente em linha com a necessidade de aproximar a política e os políticos da generalidade dos cidadãos, interagindo o governo, activa e oficialmente, em redor daqueles que são os assuntos do momento, nos cafés, nos empregos e nas famílias. Dicordo profundamente também daqueles que dizem que V. Exa. utilizou o Estado e o nome da República para proferir uma posição eminentemente pessoal, e repugnam-me os que o comparam ao deplorável Luis XIV. V. Exa. interpretou bem o sentimento nacional, que aqui ninguém quer ter problemas com os islamitas, não queremos bombas e somos todos a favor da continência verbal e do máximo respeito pelos valores religiosos. Aproveito a ocasião para lhe perguntar que lhe parece a Soraia Chaves, e que posição assumiria se «O Crime do Padre Amaro», na sua mais recente paródia cinematográfica (o filme português mais visto de sempre), tivesse sido replicada numa versão islamita (filmado certamente por Manuel de Oliveira, o único capaz de alongar a película até à extensão necessária para que o Imã cumprimentasse as setenta e duas virgens - pense bem antes de responder, Sr. Ministro, setenta e duas Soraias, em aparições sucessivas ao longo de doze horas de filme). Aos que o acusam de «narcisismo» e ânsia de protagonismo, respondo-lhes - embora não com muito sucesso - que estou certo que V. Exa. está sobretudo preocupado com o país e com os portugueses. Por isso aproveito a oportunidade para lhe enviar uma vergonhosa notícia publicada por um jornal britânico - o Sunday Times - onde uma viscoso jornalista, à pala desta miserável prerrogativa que é a liberdade de expressão, desata a destruir os símbolos da nossa Portugalidade, desde o «bacalao» aos nossos heróicos navegantes que penhoraram a vida em busca de Novos Mundos para o Mundo. E ainda nos menoriza face aos espanhóis. Penso que esta abusiva e vergonhosa utilização da liberdade de expressão merece a atenção e a censura do governo português e, quiçá, finlandês. Estou certo que o governo líbio e lituano estarão também dispostos a prestar a devida solidariedade. Caso pretenda, estou disponível para iniciar uma manobra de destruição de embaixadas e consulados britânicos, e a promover a devida «queima das bandeiras». Peço-lhe apenas que dê instruções aos polícias que as guardam para que não apareçam nesse dia, para que, a bem do défice, não tenha o seu homólogo Costa de accionar o seguro de risco dos agentes nem pagar horas extraordinárias. Bem-haja pelo seu sentido de oportunidade, e que a inveja nacional não o arraste na próxima remodelação governamental. Um seu admirador, Rodrigo Adão da Fonseca PS: A notícia do Sunday Times recolhi-a a partir daqui (Quote That).

Não é rico quem tem um milhão de euros, se não tiver onde os gastar

Caro Gabriel, Antes de tudo, tenho de felicitar-te pela foto. Dificilmente poderias ter encontrado uma melhor! Sobre o assunto dos cartoons, já escrevi quase tudo o que queria escrever. Mas tenho de fazer um reparo: quem te leia, fica com a ideia que eu sou a favor de restrições à liberdade por decreto, ou que estou disposto a viver de «cócaras». Quando se leres com atenção o que escrevo verás que não é isso que está em questão. O realismo, nas relações internacionais, não se assemelha ao pragmatismo, como tu o apresentas, mas baseia-se numa concepção de poder que não é utópica em relação a valores como, por exemplo, a liberdade. Podes recusar-te a aceitar - e escrever de uma forma panfletária - que a liberdade é um valor que só faz sentido quando exercido, e que para tal são necessárias condições extrínsecas. A liberdade é um valor intrínseco, não é algo que se concede; já a capacidade de exercício de direitos é sempre concedida e dependente das circunstâncias exteriores - conquista-se: é isso que significa a fórmula que tenho vindo a enunciar («não é livre quem quer, mas quem pode»). Todos os dias sofres restrições à tua liberdade bem mais violentas do que aquelas que resultam do «cocorar» dos nossos responsáveis políticos, e vives bem com isso, nem sequer te apercebes (há um efeito de «anestesia» na forma como a tua liberdade é limitada e condicionada). Podes dizer que não estás disposto a pagar o «preço» de andar de «cócoras»; só que já andas, e pagas esse preço todos os dias. Mesmo que estejas convencido do contrário e desfraldes nos teus escritos de uma forma apaixonada a defesa da liberdade . Os meus postes não eram sobre os cartoons; a partir deste fait divers escrevi sobre a dificuldade que os Europeus têm hoje em viver os seus valores (protegendo os pilares da sua civilização), em respirar um ar livre sem poluições provocadas por agentes exteriores, dada a sua falta de força, dadas as lacunas que fragilizam a sua esfera de Poder. Podes, como eu dizia a brincar, vestir a pele do «soldadinho de chumbo» em defesa do Reino da Dinamarca, que não vais ter mais liberdade por isso: expressas-te livremente, mas a tua esfera de liberdade vai sofrer danos colaterais elevados. Quando acabar este berreiro em redor dos cartoons e dos pobres dos dinamarqueses, vamos ficar todos mais vulneráveis, menos livres, porque não temos força para protegermos a nossa esfera civilizacional, prevalecendo a vontade dos nossos inimigos, dos que são inimigos da liberdade. Que saem de toda esta confusão mais fortes e unidos; enquanto nós ficamos mais divididos e mais fracos, reféns das nossas incongruências, inconstâncias e fragilidades. Eu quero poder viver em liberdade, tanto como tu; só que eu não me contento em dizer que a tenho; quero poder exercê-la na maior extensão possível (esta mania «economic liberal» de estar sempre a olhar para o «saldo»). Eventualmente, a minha noção de liberdade não se esgota na liberdade de expressão, prestando também atenção ao que são as liberdades básicas do dia-a-dia. Hoje, todas elas estão postas em causa. Porque estamos mais fracos. Com amizade, Rodrigo Adão da Fonseca Backround deste post: Choque de Civilizações Liberdade de Expressão, Tolerância e Segurança Liberdade Negativa V Poder

Potências nucleares com intenções «medicinais»

Rui a., no seu melhor:

09 Fevereiro 2006 fins pacíficos Neste agradável cenário, são obviamente de manter as gentilezas com que a Europa tem lidado com o programa nuclear do Irão e insistir na via do diálogo. Chirac, Solana e Freitas do Amaral hão-de certamente dar conta do recado. Até porque, como já garantiram as credíveis autoridades daquele país, o programa destina-se a fins pacíficos, humanitários até. Quem sabe, medicinais? Provavelmente, para «tratar da saúde» ao maior número possível de pessoal.

08 Fevereiro 2006

A força das ideias e da iniciativa

Ainda não tinha escrito sobre a OPA da Sonae lançada sobre a PT porque queria ter alguns elementos que me permitissem compreender um pouco melhor a operação. O que se conclui, desde já, é que uma empresa com menos de dez anos, que ao longo da sua curta vida sempre lutou pelas regras do mercado, em todas as instâncias, de uma forma transparente e exemplar, pretende engolir um dos maiores símbolos do estatismo e da inércia, da empresa de tutela e muleta estatal, um dos maiores inimigos da concorrência. Esta OPA vem provar que vale a pena as empresas - e sobretudo quem as lidera - terem estratégia e lutarem por ela, em vez de se perderem em alianças pessoais e pequenos jogos de poder conjuntural. Prova, também, que estão errados os chamados «práticos» e «pragmáticos», que acham que em Portugal não são possíveis rupturas; e que estão certos os que partem para o terreno a partir de uma ideia correcta, e a trabalham com persistência e tenacidade. Belmiro e Paulo de Azevedo, e todos os que com eles colaboram, estão de parabéns. Poucas pessoas podem orgulhar-se de terem feito - no mercado, nas empresas e no fomento do emprego e da economia - tanto por Portugal. Rodrigo Adão da Fonseca

07 Fevereiro 2006

Choque de Civilizações (fim da saga)

I. No dia 11 de Setembro de 2001, os EUA foram alvo de um atentado terrorista de grandes proporções. Seguiram-se Madrid e Londres. Apesar das ameaças – concretizadas – e dos diversos sinais que diariamente recebemos de todas as partes do mundo, com toda esta polémica dos cartoons constato, quatro anos após os ataques aos EUA, que a generalidade dos Europeus não está preparada para encarar a ameaça islâmica. À semelhança do que ocorreu quando as Torres Gémeas desabaram, ou quando daqui tão perto recebemos imagens do horror, as reacções foram emocionais: oscilaram entre as mais diversas exibições de compreensível medo, e as manifestações proto-heróicas a favor da liberdade. Em ambos os casos, dá para perceber que todos os europeus querem manter a sua liberdade e o seu modo de vida; constata-se, porém, que ninguém sabe como é que isso se faz e qual o seu custo: os povos da Europa não parecem preparados para os tempos que estão a viver. Por um lado, não temos sido capazes de compreender que a forma como nos relacionamos com civilizações distintas da nossa não pode fazer-se pelos padrões que decorrem do nosso estádio de desenvolvimento civilizacional. Seria interessante poder nivelar-se o mundo, como se costuma dizer, «por cima». Infelizmente, temos que nos habituar a nivelá-lo «por baixo». Tal incompreensão resulta, em boa medida, de uma deslocada concepção da relação que existe entre Liberdade e Poder. Por um lado, ao contrário da convicção de alguns, a liberdade é um valor a preservar, mas não é absoluta; por outro lado, não é livre quem quer, mas quem pode. Isso não significa que eu defenda uma menorização da liberdade: antes pelo contrário; o que se pretende é que as estruturas que permitem que as sociedades tenham um maior grau de liberdade sejam cada vez mais sólidas; agora, para podermos viver em sociedades livres, temos de ser capazes de as afirmar, mesmo contra a resistência de que não as aceita. O que não parece ser o caso; ora, no nosso frágil contexto, quanto maior for a resistência e a força dos inimigos da liberdade, mais inteligente terá de ser o seu exercício, se a queremos salvaguardar de uma forma duradoura. Enquanto não reforçamos as nossas estruturas ... II. Nos últimos dias assistimos a reacções indignadas e emocionadas em redor de alguns cartoons, seja de islamitas radicais e estados teocráticos que não se revêem nas nossas concepções de liberdade negativa e tolerância, seja de ocidentais que não estão dispostos a ver limitadas as suas liberdades básicas. Desagrada-me profundamente a forma como o meu modo de vida está a ser objecto de ameaça e condicionamento. Só que este problema não nasceu em 2006. O mundo mudou após o 11 de Setembro de 2001: desde essa data que, com frequência, temos assistido no mundo ocidental às mais distintas restrições da liberdade. Nos mais pequenos actos diários somos sujeitos a restrições: hoje, por exemplo, numa curta viagem, abrem-nos a bagagem em frente a terceiros, obrigam-nos a retirar o conteúdo dos bolsos, colocam-nos na posição de «Cristo Crucificado» de cinto desapertado enquanto um personagem do mesmo sexo, de luvas na mão, nos revista de cima a baixo; quando aterramos em turismo ou em trabalho num país estrangeiro, ainda no avião somos forçados a explicar a finalidade da nossa viagem, a apresentar o local onde pensamos ficar instalados, em que data contamos sair. Quando entramos numa qualquer estação de metro, num avião, num comboio, ou em qualquer local público, corremos um risco de vida adicional. Em quase tudo o que consumimos incorremos num custo acrescido, diluído no preço, que remunera a especulação que se criou em redor do petróleo, fruto – não só mas também – da instabilidade política nos países islâmicos. Desde o atentado às Torres Gémeas que algumas das nossas liberdades negativas têm vindo a ser comprimidas; outras se seguirão, se entretanto não formos capazes de inverter o jogo de forças existente. III. A Europa está fragilizada pelas suas próprias contradições ideológicas, pela sua dependência energética, pelo envelhecimento da sua população, pelo seu confortável modo de vida, pela sua vulnerabilidade geográfica, pela sua descoordenação militar. Cada um exerce, não a liberdade que quer, mas a liberdade que tem. Porque, para ser livre, não basta querer; é preciso Poder. Rodrigo Adão da Fonseca Backround deste post: Liberdade de Expressão, Tolerância e Segurança Liberdade Negativa V Poder

06 Fevereiro 2006

Com sorte, o Jorge Sampaio ainda te orienta uma medalhazinha...

Caro Gabriel, Podes fazer uma apologia demagógica da liberdade, colocar entre aspas aquilo que são os pressupostos essenciais para que ela seja efectiva, podes ainda postar uma foto do Chamberlain. Agora, descendo à terra pergunto-te: defendes que «a liberdade é um valor absoluto» (o que é duvidoso, até numa perspectiva liberal; Berlin e Hayek, entre outros, aceitam algumas restrições à liberdade - mas não a sua supressão - para salvaguarda da segurança e da própria liberdade). Por isso gostava de saber: até onde vais em defesa da liberdade? Estás disposto a morrer em prol da liberdade de expressão de uns jornalistas extremistas nórdicos, de inspiração duvidosa? Achas que com essa defesa «intransigente» vamos conseguir defender o nosso modo de vida e a liberdade que atingimos no mundo ocidental? «Desbaratando-a» e «esfregando-a» na cara de sociedades que não compreendem a nossa civilização e os nossos valores? E estamos preparados para arcar com os custos de uma escalada de terrorismo e quiçá outro tipo de represálias? Será que estamos bem estruturados para acompanhar todo este desfraldar da bandeira da Dinamarca? Desculpa, mas vocês parecem todos os soldadinhos de chumbo de Andersen, em defesa do Reino da Dinamarca ... Porque, como defendi aqui, não é livre quem quer, mas quem pode... Rodrigo Adão da Fonseca

Liberdade Negativa V Poder

Nota prévia: Este texto causou as mais variadas reacções; penso que faz sentido desenvolvê-lo, aprofundando alguns conceitos que estavam apenas implícitos no post Liberdade de Expressão, Tolerância e Segurança. Assim, e desde já, esclareço que censuro em toda a linha a atitude assumida por muitos islamitas, porque sou liminarmente contra a violência e a intolerância; para que não haja dúvidas, não me confundo com os que se misturam no melting pot do multiculturalismo. Agora, pergunto: fora do mundo virtual ou mediático, todos os heróis da blogosfera e da imprensa, que têm subscrito textos emocionados, defensores da liberdade de expressão, do «sim ou sopas», estão disponíveis para enfrentar pessoalmente as consequências de um confronto directo com o Islão? Ao contrário dos EUA, que sabem bem que a liberdade tem um preço, e estão dispostos – como já demonstraram – a defendê-la (apesar de todos os erros que são sobejamente conhecidos), está a Europa preparada para acarretar com os custos associados a toda esta onda de afirmação da superioridade dos nossos valores? O post que se segue explica as noções de Poder e Liberdade implícitas no meu texto anterior e que suportam a minha posição.
Desde os anos sessenta que na Europa se concebe o Poder como algo institucionalizado, cuja fonte radica no consentimento ou no reconhecimento daqueles que o exercem (na linha de Hannah Arendt). Na nossa cultura recente, habituámo-nos a ver os valores como sendo conciliáveis entre si, pelas grelhas da tolerância e da liberdade negativa: o Ocidente - sobretudo a Europa - afastou-se das concepções tradicionais de Hobbes, Weber ou Dahl, fortemente criticadas nos últimos cinquenta anos por apenas apresentarem um mundo de preferências opostas, em tensão, onde os antagonismos se dirimem mediante predomínio de «uma» sobre a «outra». O Ocidente, nos limites da sua Civilização, tem conseguido compatibilizar os valores essenciais da liberdade e da tolerância, retirando uma boa parte do atrito que necessariamente se gera quando procuramos conciliá-los. Só que a forma como hoje encaramos as relações de Poder – como carecendo de consentimento e reconhecimento institucional, maxime império da lei, e consensual na salvaguarda de certos valores, os «nossos» (na linha de Hannah Arendt) – não é replicável no modo como interagimos com sociedades cujo estádio civilizacional é assumidamente próximo do estado-natureza hobbesiano (tendo sido isso que procurei explicar, com os meus exemplos, aqui). Ora, uma boa parte da blogosfera tem analisado toda esta questão seguindo o prisma de Giddens, partindo da ideia que nesta questão as visões e as concepções sobre a noção de «Poder» - e os valores que estão subjacentes a cada Civilização - são conciliáveis (só que não são, pois a teocracia em que vivem hoje diversos países de religião islâmica não subscrevem os valores estruturais do pensamento ocidental); outra parte, parece ignorar que a afirmação liminar da liberdade de expressão neste contexto pode ter um custo elevado (e digo isto porque tenho dúvidas que a maioria queira pessoalmente assumir esse encargo). Num mundo em que as relações de Poder com o mundo islâmico são, face ao gap civilizacional, regidas pelos conceitos de Hobbes, não basta querer ser livre, consentir nessa liberdade: é preciso Poder (no sentido tradicional) para o ser. Aqui fazem sentido as palavras de Weber, claramente inspirado em Hobbes: power «(...) is the probability that one actor within a (...) relationship will be in a position to carry out his own will despite resistance». A afirmação da nossa liberdade, neste quadro, tem um preço adicional. Que passa, também – e esperemos que não muito mais do que isso – por restringir conjunturalmente a nossa esfera de liberdade negativa (na linha do que afirma I. Berlin). Para salvaguarda da nossa Segurança e da Paz. Pois sem estes dois pilares, não há liberdade que possa ser efectivamente vivida. Rodrigo Adão da Fonseca

05 Fevereiro 2006

Liberdade de Expressão, Tolerância e Segurança

Hoje, quando circulava na marginal da Foz, dois «transeuntes» que se passeavam acompanhados por cães de «elevado calibre» - um rottweiler e um boxer - cruzaram-se. Em vez de seguir em frente, fazendo uso da minha liberdade de circulação, optei pela solução mais segura: atravessei a rua. Certamente que os cidadãos que se fazem acompanhar de cães perigosos não deveriam circular ao domingo numa zona de grande afluência; e, óbvio, teria todo o direito de seguir em frente. Só que fiz um juízo de valor e, dadas as circunstâncias, pareceu-me que o momento não seria o mais oportuno para fazer uma dissertação sobre «liberdades básicas». Em 2002, na Tanzânia, eu e uns amigos fomos «convidados a sair» de uma mesquita, porque supostamente a nossa mera presença foi considerada desrespeitosa. Pareceu-nos, também, que o melhor seria sair discretamente. Ao longo dos mil quilómetros de estrada que fizemos no Quénia e na Tanzânia, desde Nairobi, passando pela planície do Serengeti, até ao Kilimanjaro, houve momentos em que por questões de segurança a nossa opção passou por limitar a «liberdade de expressão». Em duas situações, a nossa expressão de liberdade limitou-se à rápida colocação da Toyota Hiace em movimento ... O Ocidente tem conseguido compatibililizar os valores essenciais da liberdade e da tolerância, retirando uma boa parte do atrito que necessariamente se gera quando procurámos conciliá-los. Só que o mundo mudou, e hoje assistimos a um choque de civilizações complexo, que nos deve fazer pensar no modo como agimos, na forma como exercemos as nossas liberdades. De nada nos vale afirmar a liberdade de expressão, como liberdade negativa, se isso põe em causa a nossa segurança. Sobretudo quando na balança a restrição da nossa liberdade, aqui, apenas se limita a utilizá-la com prudência, e o valor que se atinge com esta limitação é a salvaguarda da paz (na linha de I. Berlin). Existem momentos em que temos de saber se seguimos em frente, ou se atravessamos a rua. Eu, da minha parte, prefiro evoluir para uma sociedade que usa as suas liberdades com prudência e inteligência, procurando com persistência ganhar a batalha cultural com o Islão, do que afirmar de uma forma quixotesca a supremacia dos valores ocidentais, que nos está a encaminhar para ódios inultrapassáveis e para uma potencial guerra. Rodrigo Adão da Fonseca

03 Fevereiro 2006

O neo-liberalismo e a ideia de cooperação

O Liberalismo dito clássico tem da natureza humana uma visão realista, subtilmente pessimista, que o aproxima do pensamento conservador. Nesta linha, vale a pena recuperar alguns escritos do Rui de Albuquerque:
Sendo certo que o liberalismo reconhece a finitude e a precariedade da existência humana e a dimensão trágica que isso comporta na vida de cada indivíduo, daí retira um primeiro postulado: que os seres humanos devem conduzir as suas precárias existências dentro do princípio da máxima liberdade possível, isto é, que não tenham entraves ao desenvolvimento das suas vidas senão os ditados pela própria liberdade alheia. Mas, sabendo que a alma humana não tende naturalmente para a filantropia, sabe que o princípio no relacionamento humano é o da cooperação em vista a fins benéficos comuns. Por isso, quanto menos intermediários existirem, sendo que o Estado mais não é do que um intermediário com interesses próprios a agir em causa alheia, melhor poderão compor os seus interesses e obter resultados de soma mais positiva para as partes. Isto é, ninguém melhor do que os próprios interessados, para comporem os seus devidos interesses, La Palice puro.
Esta visão, na minha perspectiva, é redutora, porque limita a ideia de cooperação à mera prossecução da segurança e à consciência que por esta via se promove a composição de interesses que melhor serve o indivíduo concretamente considerado. Esta abordagem, claramente hobbesiana, parte de premissas que são correctas: a) a cooperação entre os indivíduos sem intermediações artificiais i) promove a segurança e ii) uma adequada composição dos interesses ao serviço dos indivíduos; b) sendo fonte de redução de conflitos. Algumas das novas correntes liberais vão um pouco mais além; sem cair no optimismo que ignora as limitações que encerra a natureza humana, promove o seu lado mais positivo. É o que ocorre, v.g., naquilo que é central no pensamento de Israel Kizner: o «seu» empreendedorismo é a transposição para a doutrina económica, pode dizer-se uma síntese, das ideias de iniciativa, cooperação e não intermediação; procura-se libertar os indivíduos e a sua criatividade em busca da sua realização. A essência da economia de mercado na América – e isso dá-lhe uma faceta neo-liberal – assenta na confiança que existe entre os cidadãos e os agentes económicos, fonte de redução dos chamados custos de transacção, de inovação nas diversas formas de cooperação, inviáveis em sociedades, digamos, mais «desconfiadas» (de que a Google é o expoente máximo, mas não único). Daí que hoje, nas economias modernas, a cooperação, a iniciativa, a confiança entre os agentes, a desintermediação e a desburocratização sejam pilares essenciais do funcionamento dos mercados eficientes, dos mercados que estão ao serviço dos indivíduos concretamente considerados. Rodrigo Adão da Fonseca

Alteração da «linha editorial» do Blue Lounge

A minha «entidade paternal», depois de ter visto o editorial de JMF no Público, andou a ler com mais atenção o que por aqui tenho escrito recentemente. O seu comentário foi demolidor: «Está engraçado, mas não desenvolves». Ainda argumentei que isto aqui não passa de um blogue, mas tenho de concordar que com as eleições presidenciais o Blue Lounge assumiu uma versão «light». Estive a pensar, e decidi reabilitar o Blue Lounge, recolocando-o num registo híbrido: recuperando a linha inicial, mas mantendo em alguns postes a abordagem «light» que torna este blogue menos denso e mais «visitável». Para começar, vou reciclar alguns dos textos que fui publicando no Blasfémias e que à época se perderam na sobreposição rápida de outros postes (a dinâmica do Blasfémias neste plano é implacável); vou assim desenvolver alguns tópicos que fazem parte daquilo que considero ser a atitude liberal no contexto, quer da Escola Austríaca (no caso Mises e Hayek), quer de alguns dos seus seguidores, sobretudo do liberalismo progressista de base económica de Kirzner. Textos que têm renovado interesse pelo facto da questão sobre a essência dos Liberalismos, passados os períodos eleitorais, estar novamente na ordem do dia. Irei ainda, dentro das limitações «temporais» que no actual contexto atravesso, publicar alguns postes novos («não reciclados»). Irei defender, sobretudo, um liberalismo para lá da esquerda e da direita (não confundir com as terceiras vias de Anthony Giddens), algo afastado dos liberalismos de base conservadora (que se acomodam nos conceitos clássicos do Estado e de uma certa ideia de Justiça Social, embora com respeito pela liberdade económica e pelo mercado). As palavras-chave serão Justiça e Lei, Ordem Espontânea, Risco, Mudança, Limitação da Razão Humana. Espero que esta iniciativa não prejudique as boas cotações que nos últimos quinze dias o Blue Lounge teve no sitemeter... Rodrigo Adão da Fonseca

O mito das Origens?

O problema de Marques Mendes não são as suas origens, nem o facto de viver numa vivenda geminada, nem sequer a sua imagem. O PSD é um partido eclético, que teve líderes das mais diversas raízes, e com as mais distintas imagens. O que falta a Marques Mendes? Carisma, capacidade de liderança, energia para mobilizar o país, vontade de promover verdadeiras rupturas. Quem ouça com atenção António Borges percebe que tem carisma de liderança e vontade de promover rupturas com o aparelhismo. Que não é refém do jogo político rasteiro. E, sobretudo, que tem ideias novas para Portugal. Espero que o PSD perceba que precisa de lideranças fortes, carismáticas, com ideias e não de líderes a prazo que sirvam apenas para gerir a circunstância. A bem do país. Rodrigo Adão da Fonseca [post na sequência do que foi escrito por CCS n'O Espectro]

Coisas que se dizem e escrevem e que me levam a não me rever na Direita (act.)

Escreve o Henrique Raposo, n'O Acidental (faço um post aqui no Blue Lounge porque o HR não autoriza comentários):
«Se a minha bandeira fosse pisada ou queimada por fundamentalistas, sentir-me-ia orgulhoso. Se não despertarmos ódio num fanático, estaremos a fazer qualquer coisa de errado. O ódio pode ser um bom sinal. Sinal da nossa força. Sinal da fraqueza alheia

Também via O Acidental, leio ainda que o deputado Nuno Melo, do CDS-PP, não percebe que algumas piadas que circulam por correio electrónico e SMS não são argumentos políticos:

“Se formos rigorosos, o Código Civil permite que os homossexuais se casem, desde que seja com uma pessoa de sexo diferente.”

Pergunto-me que rumo quer a nova direita em Portugal... Rodrigo Adão da Fonseca

02 Fevereiro 2006

Entidade Reguladora para a Comunicação Social - II

Diz o Gabriel Silva, a propósito deste meu post:

Caro Rodrigo,

Não vejo a coisa como «fait divers». Uma entidade que deveria ser independente e ter total autonomia para escolher o seu 5.º elemento, e que em violação da lei, por prescrição central não o faz, deixa de ser e nasce sem ser independente. O que entendo como grave, dadas as funções para que foi estabelecida.

Como referi, tenho também boa impressão da pessoa em causa, que foi além disso um, dos poucos, bons professores que tive. Não é isso que está em causa. Mas a aceitar presidir, nestas circunstâncias, a tal orgão, não só prejudicará a função do mesmo, como, será «conivente» com uma forma de actuar que julgo, etica e politicamente reprovável.

Gabriel, A independência radica nas pessoas, e não na forma como são nomeados. Sendo indigitados pelo Parlamento, obviamente teria de haver um «cozinhado». Ou parece que não conheces o tipo de deputados que temos? Vão para o WC e enquanto infestam aquilo para deixar o VPV cheio de náuseas combinam tudo. No fim, e antes de as lavarem, dão um aperto de mão. Depois, com o sabão, esfregam-nas bem. É o que se chama um acordo limpinho! Mas isso não retira que Azeredo Lopes seja uma belíssima solução. Do que conheço dele - e nisso devias ficar satisfeito - a sua independência só fica abalada quando se fala do Boavista, aquele clube de jogadores tecnicistas! Um abraço, Rodrigo Adão da Fonseca

Sobre os limites da tolerância

O casamento dos homossexuais está novamente na ordem do dia. Como já havia antecipado aqui, o Bloco de Esquerda e seus satélites têm agora, passadas as eleições presidenciais, um ambiente favorável para «atormentar o país com as suas causas, no Parlamento e nos media». Tal não significa que os temas em questão - que o politicamente correcto classifica de «causas fracturantes» - não devam ser discutidos abertamente. Há, infelizmente, quem aproveite a abertura que a discussão merece para mostrar o seu lado mais negro, mais intolerante; este assunto - e todos os outros - podem ser debatidos salvaguardando a dignidade a que todos têm direito. Sem homofobia. Sem anticlericalismo. E, sobretudo, sem recurso ao humor e aos trocadilhos fáceis, que em geral descambam sempre no insulto. Em democracia, as causas só são fracturantes quando se ultrapassam os limites da tolerância. Rodrigo Adão da Fonseca

Big Brother V Eficiência Fiscal

«Porque não (...) instituir a comunicação obrigatória, automática, instantânea e informatizada das transacções comerciais mais importantes?»

AA, em A Arte da Fuga

Não é preciso instituir. Já está instituída. Não imaginas a quantidade de informação que já hoje é reportada à Administração Fiscal. Dá uma olhadela aqui. Do contribuinte e de terceiros. Um abraço, Rodrigo Adão da Fonseca

Entidade Reguladora para a Comunicação Social

A indigitação de Azeredo Lopes para a ERC é uma garantia de independência, seja em que contexto for. Tudo o resto, caro Gabriel, são fait divers criados à pressa pela habitual falta de habilidade dos nossos políticos. Dificilmente o governo poderia ter encontrado uma pessoa melhor preparada e com o seu perfil de independência; num momento particularmente sensível ao nível da Comunicação Social, a escolha é mais do que oportuna. Rodrigo Adão da Fonseca

Sobre o reconhecimento civil (estatal) das uniões homossexuais

O casamento é uma convenção que radica, primariamente, no direito natural, e que mais não é do que a decisão de duas ou mais pessoas viverem em conjunto, constituindo um corpo familiar e assumindo tudo o que ele acarreta, no plano afectivo e material. A evolução das sociedades e das culturas fez com que esta noção fosse, ao longo dos tempos, e nas mais diversas comunidades, assumindo asserções diversas, ganhando corpos e significações distintas. Assim, em Portugal, como na generalidade dos países ocidentais, casamento é a convenção celebrada por duas pessoas; já em algumas culturas (v.g. muçulmanas), o homem pode casar com mais do que uma mulher ao mesmo tempo. Aquilo que na sua génese é uma convenção natural, passou com o tempo a ser um acto jurídico (já desde os primórdios o era também religioso): os esposos assumem, na celebração de um "acto", um dado "estado": esse "estado" acarreta um conjunto de direitos e deveres: quer pessoais (entre os cônjuges) quer, eventualmente, perante a comunidade e uma qualquer divindade. Assim, aceito sem dificuldade que a convenção natural - hoje chamada de "União de Facto" - desde que celebrada em liberdade, não deve ser impedida. Assim, nada deve obstar a que pessoas do mesmo sexo assumam por convenção natural a construção de um lar. O que, também, deve aceitar-se sem dificuldade é a liberdade religiosa. Logo, e se alguém quiser casar segundo a sua religião, deve poder fazê-lo sem qualquer impedimento. A "institucionalização" civil do casamento - seja ele hetero ou homo - é que pode ser considerado um "non sense"; sobretudo quando a argumentação tem uma ratio patrimonial, quando apenas se procura obter da parte do Estado o reconhecimento de um "estado" (status) em relação ao qual estão consagrados "benefícios". A bizarria é tal que, recentemente, assistimos ao "alargamento" destes benefícios aos não casados que preencham, dentro da convenção natural ("união de facto"), um conjunto de "requisitos" definidos por via legal. Mas mesmo neste contexto de "institucionalização do casamento civil" o que se discute é mais a consagração de certos "direitos", e não propriamente a convenção em si. Admite-se que, culturalmente, o reconhecimento social da união pode ser importante, e poderá em muitas comunidades ser razoável que este seja assumido pelos poderes públicos. A palavra "casamento" pode ter diferentes cargas semânticas, em função do tempo, do espaço e da cultura; tem um "mínimo denominador comum", sendo a sua forma e sentido, mais amplo, obviamente, conformado pela evolução das sociedades. Importa compreender que o que se está a discutir, apenas, é a «estatização» do casamento gay e a sua regulação pelos poderes públicos; por questões patrimoniais ou de mera afirmação social. A força das relações, porém, depende, sobretudo, das virtudes da união pessoal, da força da instituição «casamento», a qual não depende - não fica prejudicada nem beneficiada, que não na esfera patrimonial - pela existência de um vínculo civil. Rodrigo Adão da Fonseca [Corpo principal deste post inicialmente publicado, em Abril de 2005, no Blasfémias, aqui e aqui, e que decidi recuperar após ter ouvido o debate na «Quadratura do Círculo» e a opinião expressa por JPP (eu próprio partilho tenho aversão a esta paranóia de querer regular tantas questões que são pessoais e pertencem à esfera privada)].

01 Fevereiro 2006

«That number is a part of me»

A redução da pessoa a um número teve no nazismo um dos seus expoentes máximos. Admito que no nosso subconsciente esta associação esteja ainda marcada pela atrocidade. Nunca fez mal ouvir as lições da História. Nesse sentido são pertinentes as reservas apresentadas por VPV, no Espectro. Após uma reunião de trabalho, e numa conversa informal, foi abordada precisamente esta questão da redução da pessoa ao número ocorrida no tempo do nazismo. Por curiosidade, andei a ver algumas coisas sobre o assunto. Junto um depoimento - «The number is a part of me» - que nos deve fazer pensar. Vale a pena ver o documentário, apesar da extensão (aprox. oito minutos):

«The number is a part of me» (ver o depoimento de Helena Jockel)

Helena Jockel loved the bright, friendly students she taught at a Jewish elementary school in occupied Hungary. But her world ended when the Nazis evacuated the town's Jewish ghetto in 1944. In this CBC Television clip, the Halifax resident says that, a half-century later, she remembers the names of all 28 students who rode with her in a cattle car to an uncertain fate. "I hoped that I would be able to help them," she says, pausing, "And I never, ever was." Arriving at Auschwitz in Poland, Jockel and others were herded on to a ramp. There, Dr. Josef Mengele, "the chief selector," decided with a wave of his finger who lived and who died. It was humiliating to be reduced by a tattoo to number 16505 in the Nazi death machine, she says. "It never, ever came into my mind to get rid of that number. That number is a part of me, a part of my experience." Jockel also describes an encounter with a female SS soldier, the "beautiful music" of the Allies bombing the camp, her eventual liberation and why she will never return to Auschwitz.

Rodrigo Adão da Fonseca

Caro ENP, grande ideia!

Eu também quero subir no famoso blogómetro, caro ENP!
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Rodrigo Adão da Fonseca

Rua da Judiaria

O Nuno Guerreiro tem feito muita falta. Esperamos pelo seu regresso. Rodrigo Adão da Fonseca

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Mais um post do VPV contra o liberalismo! Ele anda aí! Os bastiões do liberalismo blogosférico estão a ser atacados: Blue Lounge, O Insurgente, Portugal Contemporâneo, Blasfémias, Arte da Fuga, ninguém está livre! Alguém nos acode! [Via O Insurgente] Rodrigo Adão da Fonseca PS: Uma pequena brincadeira para celebrar as primeiras quarenta e oito horas de VPV na blogosfera; o blogómetro não mente (ver também aqui, no Geração Rasca): O Espectro é já um caso de sucesso, tendo animado - e muito - o debate por estes lados. Seja por isso bem chegado, VPV.