30 Outubro 2006

Eu leio o Eduardo Prado Coelho (sempre que posso)

"A História nem sempre recorda os que bebem champagne".

"Por isso me preocupo sempre em beber Vinho do Porto".

Alguém que eu conheço mas que não digo quem é, in "Tudo o que os homens sabem sobre as mulheres", edição doméstica, aqui desvendado sem autorização do autor, obra de elevado calibre mas que não está publicada, e que se encontra em constante renovação (uma espécie de blogue em papel); citado de cor.

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Quem diminui transversalmente a blogosfera ao mesmo tempo que afirma não a conhecer só pode ser um inimigo da liberdade. Ou então, escreve sobre o que não conhece.
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Um blogue não passa de uma ferramenta virtual; em nada difere de uma página em branco, que cada um preenche como entende.
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Um papel, em si, não tem valor, que depende daquilo que o escritor lá inscrever. Pode assim transfigurar-se, tornar-se numa obra prima da literatura; ou dar lugar ao balanço de uma empresa, à conta-corrente da mercearia de uma viúva, ao diário de uma adolescente, à vingança fria de um político derrotado, a uma história para contar às crianças, aos filhos e netos; ou, simplesmente, permanecer em branco, à espera que se lhe dê vida. Recordo uma edição que alguém um dia comprou, já lá vão duas décadas - "Tudo o que os homens sabem sobre as mulheres" - de conteúdo literalmente imaculado, recheado de páginas brancas; esse livro tem vindo a ser preenchido, com especial humor; dele constam citações sobre tudo e nada, frases feitas ou imaginadas que em muito extravassam o que o próprio título inicialmente parecia condicionar.
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Não faz sentido falar em "blogues", generalizando as críticas; estes são também uma extensão das pessoas que os dinamizam. Temos por isso blogues inteligentes, trauliteiros, polidos, sofisticados, populares, brejeiros, egocêntricos, generosos, de esquerda, de direita, assim-assim, de futilidades, literatura, pornografia, poesia, defensores de causas, do não, do sim, do nunca, do sempre, utópicos, realistas, conservadores, progressistas; blogues masculinos, femininos, hetero, homo, de futebol, de cozinha, onde se ama a arte, se odeia o próximo, se difama e insulta; há ainda os que cantam, dão música, rezam, exaltam a razão, as ciências ocultas, as religiões reveladas ou por revelar.
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Na blogosfera está o melhor e o pior ... da realidade. Aqui cada qual encontra o que quiser e vier procurar. Como poderia ser diferente? Os blogues são apenas um espelho do nosso tempo, que se desvendam a partir de um clique, numa dinâmica acelerada de construção, desconstrução e mudança. Quem não percebe - ou não quer perceber - o que aqui se passa, parou no tempo, algures num passado recente, mas que, curiosamente, está já bem distante. Não se pode compreender totalmente este novo século sem conhecer a internet e aquilo que ela representa.
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Aproveito ainda este post para vos contar um segredo: eu leio os textos do EPC. Sim. Quase sempre. Eu sei que ele diz que não lê blogues. Que se saiba, Derrida não teve um. Devia "penalizá-lo". Mas, meus amigos, me confesso: sempre que posso dou uma espreitadela naquela coluna, em busca de um momento de diversão. Como este, em que o nosso inefável literato, enquanto deambulava, algures nos Champs Elisees, digo, no Príncipe Real, encontra Manuel Pinho. EPC, estou certo, bebe champagne, français; a escrever assim, vê-se bem que o prefere ao bem luso Vinho do Porto. Enquanto não passa à história, meus caros, aproveitem, que os seus textos podem propiciar raros momentos de humor! Leiam-no! Vão ver que ficam mais bem dispostos. Rodrigo Adão da Fonseca

P.S. (corporativista): O texto de EPC no Público é particularmente injusto porquanto envolve na sua crítica, pelo menos, uma das pessoas mais correctas e civilizadas que conheci nestes meandos, o LA-C.

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Escreve o Pedro Arroja no Blasfémias:

Os primeiros liberais nasceram aqui mesmo à porta. Foram espanhóis e portugueses - os teólogos tomistas do séc. XVI (dominicanos, franciscanos e jesuítas) da escola de Salamanca (mais tarde cindida em duas correntes, uma sediada em Salamanca e a outra em Coimbra).

Francisco de Victoria foi o fundador e a escola incluíu outros teólogos católicos como Luís de Molina, Domingo de Soto, Lopes Rebelo, Martin de Azpilcueta, Tomás de Mercado, Juan de Molina, Pedro de Aragón, Martinho de Ledesma, Heitor Pinto, Bartolomé de Albornóz, Juan de Mariana e Francisco Suarez.

Estes homens trataram os temas do liberalismo moderno - como a liberdade individual, a limitação dos poderes do Estado, a propriedade privada e a propriedade pública, a teoria da moeda e a inflação, as finanças públicas, a tributação e o princípio do equilíbrio orçamental, o valor e os preços, o comércio e os lucros, o risco, a determinação dos salários, o juro e a banca, a justiça distributiva (justiça social) - numa perspectiva inteiramente inovadora e que viria a ser retomada pelos moralistas escoceses do séc. XVIII (Fergunson, Smith, Hume), pelos clássicos ingleses e, mais tarde, pela escola austríaca.

Na minha opinião, eles foram os fundadores do liberalismo moderno. Eram teólogos católicos, eram portugueses e espanhóis. Um motivo de orgulho? Eu julgo que sim.

Para quem se interessa por estes assuntos, recomenda-se vivamente o livro do André Azevedo Alves, Ordem, Liberdade e Estado (Parte 1, capítulo 2.1.). Seria interessante que o Rui a. desenvolvesse também estes tópicos, por ser um entendido na matéria. Rodrigo Adão da Fonseca

28 Outubro 2006

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O artigo de José Pacheco Pereira, no Abrupto, inicialmente divulgado no Público: «A degradação da privacidade e da intimidade». Excelente. Rodrigo Adão da Fonseca

27 Outubro 2006

Alice no País das Maravilhas

Era uma vez uma organização mutualista que, para financiar a sua actividade, decide recorrer ao mercado internacional, emitindo obrigações. No planeta, a probabilidade de haver alguém disposto a emprestar-lhe dinheiro, em condições competitivas, é maior do que se a fonte de recursos se limitasse às fronteiras da descapitalizada lusitânia. Para tal, abre uma Sucursal numas ilhas chamadas Caimão ou Cayman. O Fundo do Petróleo da Noruega (obrigacionista fictício), que normalmente apresenta excesso de liquidez, decide então ceder fundos para financiar a expansão da nossa simpática e organizada mútua. Só que como os nórdicos têm dinheiro e não são estúpidos (características que habitualmente andam de mão dada), por esse empréstimo exigem uma dada remuneração, que vamos fixar em 2%. Os juros cobrados pelo Fundo de Petróleo da Noruega são tributados algures na terra dos fiordes. A organização mutualista utiliza os fundos que obteve no exterior - por este processo que se designa na gíria financeira por funding - para conceder crédito aos portugueses. Este crédito concedido gera um proveito, o qual tem de servir para cobrir o juro pago ao Fundo de Petróleo da Noruega e ainda gerar uma margem (que é o lucro da organização mutualista, que vamos convencionar ser, em termos médios, igualmente de 2%). O juro cobrado pela organização mutualista permite ao Estado arrecadar impostos: IRC e Imposto do Selo. Um dia, porém, alguém "guloso" (não satisfeito com a sua parte no negócio: o IRC e o Imposto do Selo) teve a ideia pioneira de considerar que as sucursais exteriores de instituições financeiras nacionais, quando pagassem juros a "agiotas" como o Fundo de Petróleo da Noruega, deveriam também prestar tributo a um "agiota" ainda maior, o Estado Português. Assim, alguém por conta do Estado exige à organização mutualista que tenha a maçada de lhe entregar 20% de todos os juros que pagou ao Fundo de Petróleo da Noruega; dando-lhe nota, ainda, que no futuro tenha a fineza de liquidar esse imposto aos ricaços nórdicos e outros que tenham caído na asneira de lhe emprestar dinheiro. A consequência deste tipo de medidas - caso tivessem tido sequência - para lá do impacto negativo na situação líquida da organização mutualista, é simples de antever: o Fundo de Petróleo da Noruega e todas as entidades e pessoas que disponibilizam recursos nos mercados monetários não são organizações filantrópicas de ajuda ao Estado português, e têm estes riscos cobertos; a remuneração que passariam a exigir aos bancos com sede em Portugal seria, não de 2%, mas 2,4%, nos contratos "vivos", e 2,5%, nos contratos novos (pois a sua parte no negócio seria sempre a mesma: em termos líquidos, 2%). Este processo de actualização da remuneração chama-se "gross-up". Em termos práticos, os bancos, para manterem o mesmo nível de proveitos, teriam de cobrar aos seus clientes, em termos médios, mais 0,5%. Procurando impor-lhes taxas maiores. O que dificilmente conseguiriam. E porquê? Porque esta tributação distorce a concorrência entre as instituições financeiras residentes e não residentes. Na verdade, qualquer banco estrangeiro dispõe de mecanismos - legais, e economicamente justificados - para obter fundos sem ter de prestar esta "dupla vassalagem", sem sofrer esta retenção ao nível das suas sucursais ou veículos constituídos no exterior para o funding: pelo que poderiam, assim, emprestar dinheiro mais barato. Os juros pagos pelas empresas e cidadãos nacionais. tendencialmente, seriam canalizados para as instituições financeiras estangeiras, a actuar no nosso país com estruturas mais leves; depreciando parcialmente a empregabilidade em Portugal (e, também, a receita de IRS e Segurança Social). Os bancos portugueses teriam de diminuir as suas margens, o que reduziria a base para cobrança de IRC (a que se chama "lucro"). Tal só não acontece porque, obviamente, existem - e bem - outras soluções que permitem à banca repor a normalidade (e que são legais: ou promovidas pelo próprio Estado, como é o caso do mercado de dívida privada; ou por recurso a filiais no exterior, longe da alçada do agiota público). O pretenso "perdão fiscal" ao Montepio, e a indignação saloia às palavras de João Salgueiro mais não são do que histórias de embalar para vender jornais e ideologias manhosas. Rodrigo Adão da Fonseca

26 Outubro 2006

24 Outubro 2006

Taxas moderadoras ou co-pagamentos?

Caro Paulo Gorjão, Pedro Santana Lopes lançou o debate sobre a introdução de co-pagamentos sem backround, não tendo efectuado previamente um estudo concreto sobre as taxas moderadoras em Portugal que lhe permitisse actuar sobre o real com eficácia. Admito que a intenção fosse boa, e que se pretendesse posteriormente dar sequência às ideias lançadas de forma sustentada, caso houvesse estabilidade governativa. Só que ela não existiu.
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O que define se estamos perante um co-pagamento ou uma taxa moderadora reside essencialmente nos valores que se cobram; ora, Santana chegou a aventar números na ordem dos cinquenta euros, pese embora nunca tenha desenhado mais do que algumas ideas vagas sobre a matéria, ao ponto do próprio Ministro da Saúde à época, Luis Filipe Pereira, ter subtilmente, esclarecido que o âmbito das alterações a efectuar estaria ainda em estudo. Aparentemente, Santana terá "acelerado" os timings do anúncio das medidas projectadas. Do que se percebeu, este modelo previa uma discriminação das taxas em função dos rendimentos, tentando garantir a progressividade no momento da cobrança, e não apenas por via fiscal.
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Correia de Campos está agora a relançar o debate, depois de ter constituído uma comissão independente (liderada por alguns dos maiores especialistas em Portugal sobre a matéria, de reputação insuspeita, como Pedro Pita Barros, Miguel Gouveia ou João Pereira) onde os aspectos relacionados com o financiamento estão a ser objecto de apreciação. O resultado deste estudo ainda não é público, mas deverá ser apresentado ainda este ano.
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A discussão pública está desde logo enviesada porque a população em geral não tem noção de quanto custa ao Estado os tratamentos de que beneficiam. Por exemplo, uma taxa que 1) isenta a maioria da população e que 2) representa um valor ínfimo do custo total do serviço prestado pode ser considerado um co-pagamento, ou tem uma natureza moderadora? Uma taxa de internamento de 5 euros por dia, que representa um valor inferior a 3% do custo de uma diária, tem como objectivo sensibilizar as pessoas para os encargos, assumindo uma natureza moderadora, ou, pelo contrário, traduz-se num "co-pagamento"? E faz sentido criar uma burocracia para que estas taxas sejam elas próprias progressivas? Ou a progressividade faz-se por via fiscal?
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No contexto do actual sistema, considero que seria útil proceder-se à facturação dos serviços prestados nos hospitais (embora suportada pelo Estado) e à criação de uma conta-corrente por utente do SNS. Desta forma, os cidadãos teriam uma maior consciência do benefício obtido e do preço exorbitante da saúde que lhes é prestada. Esta solução apresenta ainda outras vantagens, em termos de benchmarking hospitalar e de detecção de consumos abusivos.
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Convido-te a analisar os valores que constam da Portaria que regula os preços das taxas moderadoras e respectivas isenções; tenta projectar o custo real do serviço que lhe está associado; avalia se é possível atingir-se uma função moderadora com valores inferiores. E depois diz-me se toda esta discussão faz sentido. E se achares que faz, explica-me em que preços consideras que o valor cobrado é excessivo, perdendo a sua natureza moderadora. Os novos valores poderão ser mais onerosos, mas os aumentos propostos permanecem marginais face ao custo real. Rodrigo Adão da Fonseca PS: Como poderás imaginar, eu estou longe de ser um adepto do SNS. Agora, no actual contexto constitucional e face ao que é o consenso alargado que existe sobre o nosso modelo, discutir outras soluções é "pregar aos peixes". PS: Enquanto governante, Santana falou antes do tempo; sem elementos; atirou para o ar números sem nexo, que distorciam a natureza moderadora das taxas; e defendeu algo que apenas burocratiza (progressividade na cobrança); colocando em maus lençois e no perímetro da crítica um dos seus melhores ministros, Luis Filipe Pereira. Tentou ontem na SIC Notícias nivelar uma discussão que é substancialmente, nos seus termos, diferente. A "revisão da história" protagonizada ontem por Santana Lopes apenas é possível porque somos um país sem memória, com preguiça em analisar a fundo as medidas e o seu contexto político, para lá do mero sound byte mediático.

Blue Photo: Gregory Crewdson

De novo aqui no Blue Lounge, mais uma foto de uma série que me apaixona: "Production still - Clover street #1", 2003. Rodrigo Adão da Fonseca

23 Outubro 2006

Sobre a noção de "privatização" na Saúde

Diz o Paulo Gorjão, no Bloguítica:
(...) E há aqui um debate que - será uma questão de tempo - terá de ser travado. De um lado, o PSD defendendo a privatização do sector da saúde. Manuela Ferreira Leite é, para já, uma voz relativamente isolada (RR, 21.10.2006). Mas não tardará muito tempo até que tenha muita companhia. Do outro lado estará o PS, muito possivelmente lutando contra a privatização do sector da saúde. Acontece que, mesmo o PS, terá de reconhecer que o cobertor é curto. E reconhecendo que o cobertor é curto, o passo seguinte consiste em decidir, em função de critérios a definir, o que é que ficará destapado (...).
Quando se fala aqui em privatização, o que se descreve, em concreto? A privatização da prestação? Do financiamento?
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Se o que se pretende é privatizar a prestação e a gestão, então o PS não se vai opor; aliás, a privatização da gestão e da prestação, funcionando o Estado como mero regulador, e que é aqui defendida por Manuela Ferreira Leite, subjaz já ao modelo do concurso dos novos hospitais de Loures e Braga.
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Se a privatização abrange, também, o financiamento dos cuidados de saúde, então tenho dúvidas que esta solução seja - pelo menos nos próximos tempos - subscrita pelo PSD.
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O lençol é cada vez mais curto, é certo; agora, justiça lhe seja feita, o actual Ministro da Saúde tem sido bem claro alertando para este facto, convidando os agentes a aumentarem a eficiência e a racionalizarem os gastos. Correia de Campos, aliás, para quem esteja disposto a ouvi-lo, tem repetido incansavelmente não ser possível continuar a atender da mesma forma a tudo o que aparece; o que implica que, no futuro, seja necessário fazer escolhas. O PSD, pelo contrário, não teve enquanto governo esta clareza em apresentar as dificuldades. E, na oposição, tem assumido nestas matérias uma atitude fortemente demagógica e irresponsável.
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A estratégica do Ministério da Saúde, desde 2001, apresenta uma dada consistência e linha de continuidade, que tem vindo a ser executada, no mesmo rumo, quer pelo PS quer pelo PSD (enquanto partido de governo). Para lá do circo mediático, não há, em relação à política da saúde, divergências de fundo entre os dois grandes partidos.
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As taxas moderadoras recentemente introduzidas têm pouca expressão. Nove milhões de euros. Representam uma gota no oceano do orçamento da saúde. Correia de Campos é, talvez, o melhor Ministro deste governo. A racionalização do sector da saúde tem, contudo, um impacto significativo no rendimento de duas poderosas corporações: médicos e indústria farmaceutica. Com grande ascendente junto do circo partidário e da imprensa. O que talvez explique a mediatização e a forma como certas medidas são apresentadas aos cidadãos. Rodrigo Adão da Fonseca

Blue Lounge recomenda

O novo número da Revista Atlântico. Rodrigo Adão da Fonseca

Blue Lounge recomenda

O blogue do não. Porque sim. Rodrigo Adão da Fonseca

That's the point

Franciso José Viegas, n'A Origem das Espécies:
Liberal à moda antiga, 2 Basicamente, segundo percebo, há uma disputa entre o Estado e as Empresas; ou seja: há quem queira mais intervenção do Estado (ou melhor intervenção do Estado) e quem queira mais serviços nas Empresas (ou mais espaço para as Empresas). Estado e iniciativa privada. O liberal à moda antiga fala em proteger os direitos dos cidadãos. Protegê-los do Estado e das corporações.
[Ler também este post] Rodrigo Adão da Fonseca

22 Outubro 2006

Sobre as alterações climatéricas

As questões climatéricas não são o meu forte; aliás, percebo até muito pouco do assunto. Não sei, sequer, se o planeta está ou não num processo irreversível de aquecimento global. Deixo a discussão técnica para os connoisseurs. Limito-me a constatar que, no nosso quotidiano, desrespeitamos com frequência o ambiente, de uma forma grosseira. Seja na construção civil, na organização urbana ou nos transportes, na forma como utilizamos as energias; no planeamento florestal e rural. Com prejuízos óbvios e desnecessários. Na qualidade de vida. E na economia. Pense-se na desvalorização ocorrida na Costa da Caparica, pela forma desregrada como se construiu aí nos anos 70 e 80. O que poderia ser a Praia da Rocha, se tivesse havido um adequado planeamento urbanístico? Veja-se no que se tornou o Rio Leça, e o custo que implica a sua despoluição. A preservação do ambiente é uma responsabilidade de todos; impõe-se aos cidadãos; e ao Estado. Todos poderíamos fazer mais, na nossa vida quotidiana; o Estado, também, não está isento de responsabilidades: basta lembrar o que é a política portuguesa nos transportes e na fiscalidade; nas mercadorias, privilegiam-se as vias rodoviárias; o mesmo ocorre com as pessoas. Portugal tem um caminho-de-ferro subaproveitado; e explora pouco o mar. Nas cidades, o transporte público não é competitivo, arrastando os habitantes para a viatura particular. As cidades não foram construídas para os peões. Andar a pé em Lisboa e Porto, as duas maiores cidades do país, é por vezes uma aventura. O centro das cidades está vazio, mas nos seus arredores vivem milhões de pessoas que aí se deslocam diariamente. Ocorre que os governos e autarquias dependem das receitas de impostos como o IA, o Imposto sobre Produtos Petrolíferos, ou o IMT e IMI, como de pão para a boca. Em Espanha, o IA v.g., representa menos de 0,1% do PIB; em Portugal, representa 1% do PIB. Os municípios continuam a ter um forte incentivo para autorizarem a construção nova, face à reabilitação, dado o modo como são feitas as avaliações para fins fiscais. Este post está certamente recheado de lugares-comuns; só que, infelizmente, estas evidências são ignoradas à saciedade: se há défice em Portugal é, desde logo, de consciência ambiental; preservar o ambiente mais não é do que respeitar a lei natural. O planeta não existe apenas em função dos homens, nem daqueles que circunstancialmente, num dado tempo, o habitam. Rodrigo Adão da Fonseca

Blue Video: R.E.M. - Nightswimming

Aproxima-se mais uma noite triste. Ou, como diria Neruda, "galopa a noite na sua égua sombria". Chuva. Vento. Tempestade. Regressam as tardes de domingo no conforto doméstico: a ver o "Gladiador" e a ouvir músicas calmas. Rodrigo Adão da Fonseca

Blogue da Atlântico

Gosto do novo lay-out do blogue da Atlântico. Seguindo as pisadas do Insurgente, que está, de facto, mais arrumado e com o acesso facilitado para quem pretenda consultar antigos em função dos temas. O Blue Lounge está também a repensar-se. Espero, se o tempo o permitir, pelo aniversário aqui da casa, apresentar um blogue renovado. Rodrigo Adão da Fonseca

Em destaque: doclisboa 2006

Esta semana, em destaque no Blue Lounge o site do 4.º Festival Internacional de Cinema Documental de Lisboa. Até 29 de Outubro na Culturgest. Rodrigo Adão da Fonseca

21 Outubro 2006

Blue Photo:Leni Riefenstahl

Der Turmspringer, 1936
Adolf Hitler inflamava corações.
Leni Riefenstahl dava largas ao seu génio artístico de mãos dadas com a propaganda nazi.
Olhando para estas fotos, vendo a força que tiveram, colocadas ao serviço da ideologia, percebe-se porque busca tanto o poder político o apoio das artes.

Die Siegerin, 1936

Rodrigo Adão da Fonseca

20 Outubro 2006

Blue Lounge: Edmund Kesting

Dore Hoyer, 1944
A Europa sofria os tormentos do fim de uma guerra que deixava feridas profundas e arrastava a Alemanha para o abismo. Dore Hoyer, contudo, trabalhava a sua arte; Edmund Kesting fotografava-a, com formas distorcidas, em que a figura se transcende, quem sabe, fugindo de si. Rodrigo Adão da Fonseca

Blue Photo: Henri Cartier-Bresson

"Gestapo informer recognized by a woman she had denounced, Dessau, Germany", 1945
Rodrigo Adão da Fonseca

Algumas verdades sobre o Rivoli

Seria bom que se soubesse que a Câmara do Porto gastou, no meu anterior mandato, 13,5 milhões de euros com os dois teatros municipais, o Rivoli e o Campo Alegre. Seria bom que as pessoas tivessem acesso a esta informação complementar : que, no mesmo período de tempo, gastou 5,5 milhões a reabilitar escolas, 6,9 milhões com a acção social, 6,5 milhões com a manutenção de todos os equipamentos desportivos e a promoção da pratica desportiva. Números do meu anterior mandato, porque se recuasse mais no tempo o cenário seria bem mais desagradável. Rui Rio, Rivoli: Incoerências de «Esquerda»
O texto integral pode ser lido aqui.

Queriam o quê, batatinhas?

Mas há um agradecimento a fazer ao Teatro Plástico: deram o pior golpe à "cultura" subsidiada de que me recordo nos últimos tempos. A "opinião pública" felizmente percebeu-os. JPP, no Abrupto

É isso mesmo. Ninguém ligou nenhuma ao protesto, que não para a sua faceta mais folclórica.
O timing escolhido pelos agentes da "rivolução" foi, diga-se, desastroso, e denota um total alheamento do que se passa no país. Depois de várias "jornadas de luta", com violentos protestos contra o governo, na semana em que é apresentado um orçamento de estado restritivo, esperavam estes agentes culturais, que vivem de subsídios, mas que não apresentam resultados, que alguém no país aderisse à sua "causa"? Que as pessoas fossem cúmplices do seu facilitismo? Obviamente, o protesto, nesta altura, não tem qualquer margem de tolerância junto da população.

Rodrigo Adão da Fonseca

Adenda: Recomenda-se, ainda, o excelente texto publicado ontem por JPP no Público (agora no Abrupt0), "A «Rivolução» dos nossos dias".

19 Outubro 2006

Fim da okupação (com links actualizados)

O meu protesto no Blasfémias acabou. O Rivoli já está livre novamente, e o objectivo da "okupação virtual" cumpriu-se.
Os blasfemos já se encarregaram de me vedar o acesso e de barrar a entrada, deixando apenas um gorila à porta. O que, aliás, é perfeitamente legítimo.
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Esta acção, toda ela interpretada por retratos de Andy Warhol, visou pôr a nu a ridícula "rivolização", bem descrita hoje por JPP, quando na sua coluna do Público a classifica como um protesto em que uns "[defendem] o seu, exigindo continuar a gastar o nosso".
É, esse, sem dúvida, o fito "[d]a «rivolução» dos nossos dias".
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Como é sabido, Wahrol, com a sua pop-art, vulgarizou a noção de cultura; retirou-a de um universo das elites, e aproximou-a dos objectos simples. A pop-art desmultiplicou-se, quer pelas suas formas, quer pela acessibilidade dos objectos criados. Warhol foi assim o percursor da cultura de massas.
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Nem tudo o que é bem sucedido tem valor cultural; mas o mesmo raciocínio se aplica a algumas expressões culturais que não têm o acolhimento do público, porque pura e simplesmente não valem nada: muitas produções culturais não têm público, apenas e só porque são más.
Repugna-me a ideia oportunista em que se insinua que o reconhecimento do público e a rentabilidade de um processo cultural significam, desde logo, que estas produções não têm valia. Porquê?
*
Não se compreende o protesto do Rivoli, protagonizado por uma minoria que não tem expressão na cidade, que desdenha dela, que desconfia da gestão privada, que foge das massas, que trata como ignorantes, mas cujo apoio regateia nestas alturas, de uma forma claramente interesseira.
*
Este meu protesto teria, necessariamente, que ser protagonizado por imagens pop.
*
Peço desculpa aos blasfemos por esta usurpação abusiva de um espaço que já não me pertence, mas a mensagem, para poder ter impacto, precisava mesmo de uma "okupação" ilegal daquele que é um dos grandes bastiões da defesa da propriedade. Um agradecimento especial ao João Miranda, que de uma forma diligente na caixa de comentários liderou as negociações para a desocupação.
Rodrigo Adão da Fonseca

Okupação!

Caros leitores e amigos,

Decidi barricar-me no Blasfémias, em protesto contra a ausência de palco e de meios de sustento.

*

Se o "Teatro Plástico", com uma média de 30 espectadores por dia, pode actuar no Rivoli apoiada com dinheiros públicos, então eu, com uma média de visitantes cinco vezes superior mereço o meu quinhão! Camarada RAF

*

(na foto, o João Miranda no teatro de operações, escrevendo no Blasfémias; cortesia de Andy Warhol).

O Insurgente foi okupado?

Ao consultar O Insurgente constato que o nosso palco foi tomado por uma corja de ditadores de esquerda. Que se passa, meus amigos? Não bastava o Rivoli? E vejo que fui alvo de uma chicotada psicológica! Porque razão fui excluído do Grande Colectivo? Eu sei que o meu futebol já não é o que era: sinto-me um verdadeiro Jorge Costa...

(fotos do novo Colectivo Insurgente: Miguel, AAA, Helder; cortesia do nosso amigo Andy).

Rodrigo Adão da Fonseca

Assim vale a pena ler o Causa Nossa

Hoje sim, professor VM. Uma série de posts bem escritos e fundamentados, que subscrevo na íntegra: Surpreendente surpresa, CCC - Com custos para os contribuintes, Com custos para os contribuintes (2). Parece-me, aliás, bastante duvidoso o argumento apresentado, que as zonas agora taxadas nos dois últimos anos evoluiram para um volume de riqueza que justifica o fim da isenção. Seria bom que o governo apresentasse os cálculos de tal crescimento, juntando a isso o rendimento per capita, o volume da sua distribuição e a taxa de desemprego. Os habitantes das regiões periféricas em redor do Porto (sobretudo em certas zonas do Minho e em Gaia) passam por momentos de grande dificuldades. Não sei que números tem o governo... Rodrigo Adão da Fonseca

18 Outubro 2006

Blue Painting: Sobral Centeno

(Acervo da Galeria Sete de Coimbra)
Esta semana começaram as hostilidades em redor da Lei do Orçamento. Diferentes opiniões, portagens nas SCUT's, a polémica dos deficientes. Um documento previsível, sem grandes surpresas. A discussão está em aberto.
Rodrigo Adão da Fonseca
PS: O Blue Lounge apoia a cultura. Pede-se o favor de não o okuparem.

Os "eunucos da política" - a saga continua

Os "eunucos da política" portuguesa voltam ao ataque; Vital Moreira arroga-se novamente do monopólio da seriedade, para esconder uma evidência económica, distorcendo o discurso para tentar provar uma tese que é, no mínimo, altamente contestável:
O PSD condenou ontem o orçamento 2007, por ele aumentar a despesa pública! Para isso, limitou-se a comparar a despesa estimada com a do orçamento anterior, em termos absolutos, quando tais comparações se fazem sempre em termos de relação com o PIB. Ora, segundo esse critério, a despesa desce, e até desce muito no caso das despesas de pessoal. Pouco sério, portanto, para dizer o menos. O pior cego é o que se recusa a ver. A fazer oposição assim, o PSD só pode esperar descrédito.
A Proposta de Lei para o OGE de 2007 prevê um aumento da despesa pública. Este é um dado de facto. Um outro aspecto distinto é que, caso se verifiquem os pressupostos macroeconómicos que subjazem ao Orçamento (v.g. taxa de crescimento da economia; diminuição da taxa de desemprego; volume de exportações; preço do petróleo; execução orçamental, nomeadamente ao nível da receita fiscal), e que podemos aceitar como bons (o governo acertou em 2006; deve ter o benefício da dúvida para 2007), a percentagem da despesa pública face ao PIB diminuirá.
*
Agora, caro Professor Vital Moreira, a despesa pública não desce; o que diminui é o peso da despesa na economia. O Estado, para o ano que vem, espera gastar mais. Podia gastar o mesmo. Ou gastar menos. Mas não. Por isso, e falando português, não vale a pena jogar com as palavras, para concluir que há uma diminuição da despesa: porque ela não existe.
*
Este Orçamento, num quadro socialista, pode ser tido como menos mau. Agora, o problema estrutural subsiste: o OGE para 2007 não trava - e isso é um dado objectivo - o crescimento da despesa pública - embora ela evolua em níveis controlados e com uma racionalidade interessante naquilo que é o equilíbrio entre cortes (moderação dos gastos com o pessoal, para aproximar os salários da produtividade) e investimento (nomeadamente na investigação) - em boa parte porque não se pretende alterar aquilo que mais nos condena: a persistência na tentativa de "salvar" um modelo social e económico ultrapassado, que coloca nas mãos do Estado a gestão de metade dos recursos gerados pela economia. Os países desenvolvidos há alguns anos que atiraram este socialismo ortodoxo para a gaveta. Aqui, em Portugal, fomos tirar o pó aos livros, e continuamos a orientar o país por cartilhas que já caducaram.
*
Cada qual tem o que merece. O país votou de uma forma massiva neste governo. Agora, caro Professor Vital Moreira, vamos lá deixar esta conversa da seriedade para outras discussões, que lhe fica mal estar sempre a desqualificar moralmente os seus adversários políticos. A escrever assim, arrisca-se a ser o expoente máximo do neo-cavaquismo socrático. Rodrigo Adão da Fonseca

O Rivoli também é meu e dos restantes portuenses

É fantástico que um grupo de cidadãos, com motivações políticas, ocupe um edifício público, impedindo o normal funcionamento das instituições, e ninguém faça nada. Tenhamos que os aturar a toda a hora nos jornais e na televisão. E nem sequer possamos frequentar as instalações. Dá-me vontade de perguntar; os senhores que estão fechados, armados em mártires, no Teatro Rivoli:

  • Pertencem a alguma organização política ou partidária? É que na TV, a comandar as operações, aparece aquele rapaz que se candidatou ao parlamento pelo Bloco de Esquerda e não conseguiu ser eleito. Fico com a sensação que estamos perante uma iniciativa partidária travestida de "protesto popular" espontâneo. A bem da transparência, seria importante percebermos de que tipo de manifestação estamos a falar.
  • Recebem subsídios para o exercício da sua actividade? Quanto recebem?
  • Quantas pessoas assistiram / pagaram bilhete para assistir aos teatrinhos?
  • Porque razão temos de os aturar? Porque é que não se imolam rápido? Prometo que se lhes arranja uma estátua ao pé do D. João I e do cavalo.
  • Porque é que um grupo sem expressão parlamentar na região tem tanto tempo de antena nos media e goza de impunidade perante a lei?

Eu gosto de ir à cafetaria do Rivoli - cujos consumos pago com dinheiro do meu bolso - e aqueles cromos estão a barricar-me a entrada. Infelizmente, não tenho hipótese de andar a brincar às manif's - alguém em Portugal tem de trabalhar para criar riqueza, pagar impostos, para que estes senhores depois os possam desperdiçar e arrogarem-se de terem mais direitos do que eu - mas a minha vontade era forçar a entrada para poder aceder a um espaço que também é meu. A "rua" é de todos, não é só de alguns. Assim como os dinheiros públicos, que têm de servir distintas finalidades. Rodrigo Adão da Fonseca

Blue Lounge recomenda

"Caminhos perigosos: cenário 2015", por Medina Carreira. Rodrigo Adão da Fonseca

17 Outubro 2006

Se queres roubar e não ser preso, inscreve-te num partido da esquerda latino-americana

A corrupção no Brasil é conhecida. Sucessivos governos são arrastados para a lama por aparelhos partidários que vivem nos meandros de uma economia paralela e ilegal. Lula e o seu impoluto "PT" não fugiram à regra; aliás, parece até que foram ainda com muito mais "sede ao pote" do que os seus antecessores. O que é risível é que, no caso do actual Presidente do Brasil, se tenha criado uma "corrente" para desculpabilizar um político que fala "em nome do povo" enquanto os que o rodeiam o roubam; vê-se aqui o que é a força de um mito, que impede que os brasileiros concluam o óbvio: Lula, ou é corrupto, o que não se provou, ou é incompetente, o que já salta à vista, pois permitiu que à sua volta se acomodasse a maior das "cleptocracias". Curiosa a reacção, no Brasil e em Portugal, dos que endeusaram os oportunistas do PT, ao ponto de fazerem de um ignorante como Lula, que nem falar sabe, um mito vivo, um intelectual e governante de umas da maiores economias do mundo. Lula teve os seus "méritos": um deles foi reconhecer as suas limitações, entregando a governação a economistas avençados; mas errou brutalmente, ao permitir que em seu redor os políticos do PT, alheados da governação, se dedicassem a gerir um verdadeiro saque. Vale a pena ler esta peça aqui, que em muitos aspectos explica o que é a áurea de superioridade moral de que se arrogam os socialistas face aos restantes "mortais" (que não bebem do copo da esquerda). Moral da história: Se queres roubar e não ser preso; se queres ser recebido com honras de Estado; candidatar-te a eleições; a receita é simples: inscreve-te num partido da esquerda latino-americana. Na Venezuela, em Cuba, na Bolívia e no Brasil, rouba-se em proveito próprio, mas sempre em nome e para o "bem" do povo. E ainda com direito à "santificação" popular. Rodrigo Adão da Fonseca (via A Origem das Espécies)

Em destaque: RISD (Rhode Island School of Design)

Mark Rothko, Sem título, 1954 (da colecção da RISD)
Uma das principais escolas de artes do mundo, cujo museu - com um impressionante acervo - visitei em 1995. Esta semana em destaque no Blue Lounge, a Rhode Island School of Design. Rodrigo Adão da Fonseca

Agora é que fiquei confuso... os Municípios não pertencem ao Estado? Farão parte da "iniciativa privada"?

Ressalvado o fundo social, não vejo por que é que municípios como Lisboa e o Porto, etc. hão-de receber dinheiro do Estado... Vital Moreira, Causa Nossa
O dinheiro arrecadado pelos impostos não pertence à Administração Central, destinando-se a socorrer aos fins do Estado: que inclui, que se saiba, a Aministração Local. O que existe é uma forma de cobrar e alocar as receitas que pode - e deve - ser revista. Eu, da minha parte, sou a favor de uma maior consignação de receitas e responsabilidades à Administração Local, em clara substituição da Administração Central. A tendência, contudo, é a inversa: cortar no Poder Local, ao mesmo tempo que a Administração Central continua a ver aumentadas as suas receitas (basta olhar para o Orçamento de Estado). Rodrigo Adão da Fonseca

16 Outubro 2006

Blue Lounge recomenda

"Liberal à moda antiga", pelo FJV, n'A Origem das Espécies.
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O verdadeiro sentido do liberalismo está, de facto, na salvaguarda da esfera de direitos dos cidadãos. O capitalismo é bom, quando seja um espaço de afirmação do indivíduo; é recomendável, pois o seu fortalecimento permite uma maior autonomia da pessoa, conduzindo à liberdade; agora, no cerne do liberalismo estão os direitos individuais e o sentido pessoal de responsabilidade, e não uma excessiva focalização e exploração quase-clubística da destrinça entre as virtudes do "privado" e as falácias do "público".
*
Veja-se o seguinte caso. Ontem Francisco Louçã na SIC-N argumentava que os Fundos de Pensões entregues à gestão privada sofreriam um risco adicional de depreciação e falência, dando como exemplo a desvalorização ocorrida nas acções do BCP. Descontando que Francisco Louçã ignora - ou faz por ignorar - que o título BCP já sofreu aumentos de capital, stock splits, pagamentos de dividendos e cotações distintas (ou seja, não é forçoso que todos os accionistas tenham adquirido títulos a seis euros), e que a rentabilidade de uma carteira se quer diversificada (um bom portfolio de títulos que incluísse, v.g., acções do BPI e do Banco Pastor teria uma rentabilidade para o mesmo período a que Louçã se refere bem interessante), nota-se que os pontos a favor de uma distinta Previdência não têm uma justificação quantitativa. Fundam-se, sobretudo, em diferentes concepções de liberdade: porque não posso, eu próprio, organizar a minha vida futura e respectiva reforma, definir o rumo dos activos que são fruto do meu trabalho? Porque me é vedada a escolha da idade a que me pretendo aposentar? Porque não posso legar aos meus o património que acumulei, ou utilizá-lo se necessitar para salvaguarda da minha saúde? As nossas vidas são tão iguais que as tenhamos de acomodar por decreto?
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Claro que há um debate a fazer, que tem o seu lugar, e que passa por saber se o Estado é ou não melhor gestor que os privados. Mas não é esse o ponto central do liberalismo. No limite, a gestão dos activos tanto poderia ser privada como pública, desde que fosse o cidadão a escolher a quem entrega activos, que são seus.
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Vale sempre a pena re-ler a "Bill of Rights". Rodrigo Adão da Fonseca

Jesus Cristo e a eutanásia

Há uma grande diferença entre aceitar a morte, induzida por circunstâncias externas, a eutanásia ou o suicídio assistido. Jesus Cristo limitou-se a aceitar a morte, imposta pela maldade humana; do relato bíblico, aliás, penso que dificilmente a poderia evitar (o que, diga-se, é irrelevante para o caso); pode ou não acreditar-se no que consta nas Escrituras; e até discutir se Jesus não deveria antes ter dado "de frosques". Agora, a sua morte nunca levantou qualquer questão ética como a que vem referida aqui. O que tem sido discutido à saciedade nas últimas décadas não é a aceitação da morte mas a sua precipitação pela intervenção humana. Assim, é hoje pacífico que alguém que sofre de uma doença grave, possa recusar um tratamento, doloroso, mas que lhe permitiria prolongar a vida por uns meses; considera-se que se pode decidir, nestas circunstâncias, morrer em paz. O mesmo se passa se uma pessoa, ameaçada de morte, podendo defender-se, v.g., matando o seu agressor, prefere, ainda assim, não reagir; podemos censurar que se opte por morrer, a matar? A eutanásia não se enquadra em nenhum dos casos acima descritos; não sendo, pelas suas circunstâncias, pacífica no plano ético: ela existe quando, a pedido do doente, um terceiro o encaminha para a morte, pondo fim a um estado de sofrimento físico e anímico; equivale a um suicídio praticado por interposta pessoa; levanta inúmeros problemas, como v.g., a avaliação do consentimento consciente e pleno, os limites e as circunstâncias da autorização, ou até onde pode o homem dispor da sua vida e da vida de terceiros. A Fernanda Câncio descobriu um paralelismo que até hoje no debate ético nunca ninguém havia ensaiado. Porque será? Talvez seja porque - independentemente da opinião que possamos ter sobre a eutanásia - ele não existe. Pois, como se disse, é pacífico que uma coisa é aceitar a morte, mesmo quando, eventualmente, a poderiamos evitar; outra é precipitá-la, solicitando para isso a ajuda humana. Rodrigo Adão da Fonseca

Blue Painting: Mark Kostabi

Rodrigo Adão da Fonseca

No cantinho da blogosfera

Andy Warhol, 1985
Descobri - tarde e a más horas, como sempre - que a Miss Pearls agora também escreve por aqui, no Corta-Fitas. Excelente novidade. Boa sorte, Isabel! Rodrigo Adão da Fonseca

15 Outubro 2006

Buchanan on Daily Show

Há muito tempo que não via ninguém fazer uma figura tão triste como a de Pat Buchanan no Daily Show. "State of Emergency" é a obra que dá corpo à delirante ideia de fazer um muro na fronteira com o México. Mais vale rir do que chorar... Rodrigo Adão da Fonseca

Refreshing Francisco Louçã's memory

Exmo. Senhor Francisco Louçã, Hoje, na SICNotícias, ouvi-o recusar ter algum dia chamado "mafioso" a Belmiro de Azevedo. Gostaria de o relembrar das suas próprias frases:
«Temos o Carrapatoso/Corleone, o Belmiro/Corleone e o Paulo Teixeira/Corleone».
Você anda bastante esquecido. Mas os "blogues de direita" estão por cá para lhe avivar a memória. Com estima, Rodrigo Adão da Fonseca (ver ainda o post "Gansters", de Setembro deste ano).

Blue Movie: Volver

A crítica não foi muito simpática para a mais recente obra de Almodovar: Volver. Eu gostei. Uma história bem armada e superiormente representada. Penelope Cruz ganha nova alma quando interpreta papéis na sua lingua materna. Pelo meio, bom humor, algumas críticas mordazes ao telelixo, a mitos bem ibéricos, à recusa em ver o que se nos apresenta como evidente. A interpretação do tango de Carlos Gardel que dá o nome ao filme (uma espécie de "retroflashback" de uma cena idêntica encarnada por Sara Montiel, em tempos idos) é, também, bastante feliz (embora se pudesse ter disfarçado um pouco melhor o playback). Pena que a tradução se perca numa linguagem politicamente correcta, retirando uma boa parte da força e da informalidade - e por isso, do conteúdo - do filme; dei por mim a ignorar as legendas. O castelhano falado num registo popular é agreste, mas de uma enorme riqueza, que não merece ser traduzido nos estritos limites do nosso diccionário e das suaves maneiras da nossa língua. Rodrigo Adão da Fonseca

Sobre o direito à privacidade

Concordo - para variar - com o Daniel Oliveira e com o que diz no Expresso de hoje. Os políticos - como qualquer cidadão - têm direito à reserva da intimidade da sua esfera privada. No caso de Itália, a questão é escaldante, pois a polémica gira em redor do consumo de substâncias ilegais. E a lei em Itália é das mais restritivas da Europa. Não vejo, porém, que a denúncia pública, sacrificando-se o direito à privacidade, seja aceitável nestes casos. Os media não se substituem à justiça. Sou contra uma hipocrisia ainda pior: a dos julgamentos na praça pública de hábitos privados. Rodrigo Adão da Fonseca

14 Outubro 2006

A guerra do Peloponeso

Nota adicional: o texto sobre a guerra do Peloponeso é leccionado em Portugal; não é preciso ir para os EUA, para Chicago ou Yale. E há quem não goste de neocons e tenha achado interessante o relato de Tucídides. Rodrigo Adão da Fonseca

Só fumaça

As manifs fazem parte do folclore da democracia porque o imaginário da resistência tem um perfume irresistível. Eduardo Pitta, Da Literatura
Recomenda-se vivamente o post "Só Fumaça", do Eduardo Pitta, no Da Literatura. As medidas que este governo anunciou são bem ligeiras; as reformas, a doer, ainda não foram tomadas. O governo vai ter, no prazo de dois anos, que reduzir 3 pontos percentuais ao défice; na Segurança Social, apenas se adia a morte anunciada do sistema; na Saúde, "berra-se" porque se promovem taxas moderadoras de valor marginal; na Educação, a Ministra limita-se a introduzir uma certa racionalidade e bom-senso na gestão dos estabelecimentos e das carreiras; se formos rigorosos na análise, só podemos concluir que Sócrates apenas está a promover uma ou outra medida mais austera. E sempre num quadro de políticas bem socialistas, importa que fique claro (há muito pouco conteúdo liberal no rumo assumido por este governo). Ainda assim, é melhor que nada; agora estamos bem longe daquilo que ainda é preciso fazer. Alguns portugueses, porém, convenceram-se que uma combinação de democracia e socialismo lhes resolveria problemas que são seus, ao mesmo tempo que se esqueceram que sempre fomos ao longo da História um povo pobre, que só a custo conseguiu ter pão na mesa; hoje existem condições para que Portugal dê um grande salto; só que, paradoxalmente, vive-se em alguns sectores um estado de uma estranha letargia; boa parte dos portugueses estão como que paralisados na luta contra as adversidades; este estado é motivado, em boa medida, por fortes doses de preguiça. Uma boa parte do país conjuga esta nova noção de "solidariedade": o que é que os outros têm de fazer por nós? Os próximos anos em que o país vai ter de se submeter a ajustamentos estruturais vão ser assim bem dolorosos e de forte contestação. Mas importa deixar bem claro: quem estagnar, quem parar, vai morrer. Rodrigo Adão da Fonseca

13 Outubro 2006

"Grande Entrevista"

É preciso cortar na gordura para que o corpo ganhe músculo (CC, na RTP 1)

Pode ou não concordar-se com o quadro constitucional consagrado para a Saúde. Agora, Correia de Campos tem um forte espírito reformista e ideias bem claras sobre qualidade e eficiência; e uma estratégia para executar (ao contrário, parece-me, de outros sectores do arco da governação). Quem duvida que no sector da Saúde há uma enorme margem de desperdício e má alocação dos recursos? Rodrigo Adão da Fonseca

Blue Painting: Peter Max

"A man on the Hill", 1969
Seguido do estilo "cosmic-pop". Rodrigo Adão da Fonseca

Blue Print: Andy Warhol

"Mammy", 1981

Hoje, temos "Pop Art".

Rodrigo Adão da Fonseca

Destaques do jornal Público

Hoje, na revista Dia D, recomendo vivamente os textos do André Azevedo Alves, "Alterações climáticas e cepticismo económico", e do João Caetano Dias, "Quem quer ser empresário em Portugal?". Via blogue da Atlântico, destaca-se o artigo de Rui Ramos no Público de quarta-feira, "Funcionalismo, eis o inimigo!". Junta-se, finalmente, um excelente texto de JPP ontem no Público, na versão 2.0 (revista e ampliada), disponibilizada no Abrupto: "Porque razão a democracia tem medo de Salazar?":
Enquanto na transição espanhola foram os excessos passados na Guerra Civil que voltaram para assombrar o PCE, em Portugal, o PCP e os esquerdistas que acompanharam o seu projecto revelaram que uma parte da luta contra o regime de Salazar não era uma luta pela liberdade e a democracia, mas sim pelo totalitarismo comunista.
Este é que é o ponto da indignação pela inclusão selectiva de Otelo ou Vasco Gonçalves - apresentados como "salvadores da pátria" - (ou até de Afonso Costa), acompanhada de uma "politicamente correcta" exclusão de Salazar e Marcelo. O meu voto, esse, está destinado ao D. Sebastião. Rodrigo Adão da Fonseca

11 Outubro 2006

Happy Hour Post: Sobre o pensamento de Leo Strauss

Pedro Arroja iniciou as suas lides blogosféricas com um texto intitulado "Leo Strauss". Onde o filósofo norte-americano de origem alemã é apresentado como o principal inspirador da corrente neocon que domina hoje uma parte significativa do pensamento político norte-americano (e que gravita, não apenas em redor da Administração Bush, como por vezes surge referenciado, mas que se posiciona em vários campos). Entretanto, e a propósito deste post do André Azevedo Alves, instalou-se uma interessante discussão na caixa de comentários do Insurgente que me levou a escrever estas "breves" notas de fim-de-tarde, a partir obviamente dos meus vários "rascunhos".
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O pensamento de Leo Strauss aborda, na verdade, temas que são caros ao establishment neoconservador: o judaísmo, o papel da religião no fenómeno político, o campo de actuação e a vocação do filósofo, o lugar do indivíduo, os tópicos da cultura, da contracultura e da moral.
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Temas que são, também, recorrentes no Blue Lounge. Por isso não podia deixar de apresentar, também por aqui, os meus comentários, algumas ideias soltas (o tempo não abunda) mas que julgo serem úteis para compreender o contexto e o pensamento de Leo Strauss, bem como a sua influência no pensamento neoconservador.
***
Como ponto de partida, chamo a atenção para algo que julgo ser fundamental (que se aplica a qualquer autor, mas que neste caso se coloca com maior pertinência): não é possível compreender a obra de Leo Strauss sem conhecer e ter presente o seu trajecto pessoal, no tempo e no espaço. O percurso intelectual de Strauss atravessa todo o século XX – como gosto de dizer, o século mais longo da História da Humanidade – e estará marcado; pelas suas origens judaicas; pelo facto de ter nascido alemão; por ter vivido, estudado e ensinado na Alemanha, em França, na Inglaterra e nos Estados Unidos da América, em períodos bem distintos; por ter morrido americano. Strauss foi, sobretudo, um estudioso, que repassou a "pente fino" o pensamento de alguns dos filósofos mais marcantes da sua época, e outros de tempos idos, o que acrescenta valor à sua obra, mas também a envolve em diferentes polémicas e numa dificuldade acrescida de compreensão daquele que poderá ser o seu legado para o campo das ideias.
*
O judaísmo de Strauss está implícito em todo o seu pensamento; faz parte do seu núcleo central; o que explica, em boa medida, a curiosidade e aderência de alguns dos seus seguidores, os mais proeminentes pensadores neoconservadores, para quem a defesa do povo judaico se posiciona no topo das prioridades. Strauss, nos anos 20 e 30 do século passado, esteve directamente evolvido no debate sobre o judaísmo; nesta contenda, fortemente radicalizada, colocavam-se, de um lado, os sionistas, que reivindicavam um Estado Secular para o povo judeu; e do outro, os que defendiam que os judeus deveriam antes integrar-se nos ambientes cristãos. Strauss posicionou-se mais no terreno sionista, em clara dissonância com os que, fundados em correntes sobretudo liberais, remetiam a religião para a esfera individual e privada; a corrente, digamos, mais "integrista", não reservava um lugar particular, no plano político, para a religião. Já os sionistas defendiam um Estado Secular, mas fundado numa cultura de inspiração religiosa (leia-se, judaica). A "Cidade" de Strauss está intimamente ligada a esta concepção sionista, em que a religião é revelada, não como expressão da Fé, mas sob a forma de Lei, destinada a prescrever e regular até os detalhes mais ínfimos da vida comunitária. Traços bem presentes no pensamento neoconservador.
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Strauss demonstra um especial desprezo pela política – e até pelo quotidiano – das "pessoas comuns", pelos seus aspectos mais concretos e correntes; não o fascina a liberdade individual – embora não a negue – dedicando-se antes ao culto da excelência e das virtudes. Cultiva o saber e a busca da verdade, actividades que, na linha da Antiguidade Clássica, são tarefas reservadas apenas a alguns; recupera, assim, o papel primordial do Filósofo, como inspirador – quase um "Profeta" – do fenómeno político, no qual, contudo, nunca se deve envolver ao nível do "concreto". Strauss, aliás, considera que o saber e o conhecimento devem ser categorias de "acesso reservado". Portador de um pensamento linear-dicotómico, e defensor de uma sociedade fortemente hierarquizada, dedica uma função para os políticos – o exercício do poder – e outra para os filósofos – que se devem debruçar sobre o núcleo reservado do saber. O político deve ouvir o filósofo; mas nunca o filósofo deve entrar no campo do político, para não cair no "erro socrático" (ver adiante); veja-se o modus operandi, v.g., de Fukuyama para compreender como esta forma de actuar está bem presente na hierarquia neoconservadora. A "reserva do saber" não se impõe apenas entre o filósofo e o político. Coloca-se ainda com mais acuidade em relação à comunidade. A "sociedade de sábios" deve evitar os conflitos que se estabelecem entre a actividade filosófica e os cidadãos, que vivem num universo conformado pelo "religioso" e se orientam pelos ditames da lei. Sócrates teria errado ao patrocinar um clima de discussão permanente com a generalidade dos Atenienses, sem distinção. O saber entrou em conflito com as convicções e conveniências, tornando-o um perigo para a "ordem pública"; acabou, por isso, condenado à morte. Strauss revê-se no modo de estar de Platão, que terá descoberto a verdadeira dimensão política da filosofia, afastando-se dos problemas correntes e quotidianos. Platão teria uma conduta pautada pela conformidade exterior, mas acompanhada por um inconformismo interno, que seria cultivado de uma forma prudente e reservada: a filosofia – ao contrário da religião – destina-se a uma minoria, e deve ser expressar-se, como defesa, numa linguagem pouco acessível. Importa evitar que as "pessoas comuns" tomem contacto com a "dureza" da verdade, justificando-se, até, em algumas circunstâncias, a "nobre mentira": aquela onde se ocultam ou ficcionam certos detalhes, para "amaciar" a verdade (sem nunca se distorcer, contudo, o seu núcleo fundamental); já que o contacto com o conhecimento por quem não domine os ditames do saber deve ser delimitado: a Filosofia põe por vezes em causa as bases morais da comunidade, pelo que o seu acesso irrestrito pode conduzir as "pessoas comuns" ao niilismo e a sociedade à desordem. A "reserva do saber" e a "nobre mentira"; a hierarquia rígida existente entre o filósofo e o político; a separação entre governantes – que buscam a excelência e a virtude – e governados, que seguem uma Lei devidamente conformada na Moral; são ideias profundamente enraizadas no pensamento neoconservador.
***
Da minha parte, penso contudo ser útil resistir à tentação de reduzir a obra de Strauss, demonizando-a e reconduzindo-a aos limites estritos do pensamento neoconservador. Strauss desenvolveu uma obra complexa, que merece ser revisitada de uma forma crítica; conhece-la significa dominar as principais premissas de alguns do principais problemas que persistem desde a modernidade (e que estão, até, novamente na ordem do dia a nível mundial): as tensões existentes entre religião e política, entre a técnica, a racionalidade científica e a moral. Sem solucionar estas tensões, dificilmente se poderão afirmar – num mundo em mutação, onde (re) surgem centros de poder polarizados, alguns localizados em zonas geográficas que desprezam a concepção ocidental de Estado de Direito – os pressupostos essenciais de um pensamento liberal e individualista, assente num efectivo pluralismo, o único capaz de assegurar um clima propício para que haja crescimento económico e Paz. Rodrigo Adão da Fonseca

Blue Lounge recomenda

"5 anos depois, mais uma reforma para os próximos 50 anos", pelo André Azevedo Alves, n'O Insurgente. Rodrigo Adão da Fonseca

Blue Painting: Eduardo Batarda

Midas (Vê se lês), 2001, acrílico sobre tela, 160 x 120 cm (via Galeria 111)
Rodrigo Adão da Fonseca

10 Outubro 2006

As Farpas (I)

Deve ser certamente a passagem d'As Farpas mais citada; talvez pela sua pertinência e actualidade; o que for; agora, não podia deixar de ser aqui reproduzida:

«(...)

Fomos outrora o povo do caldo da portaria, das procissões, da navalha e da taberna. Compreendeu-se que esta situação era um aviltamento da dignidade humana: fizemos muitas revoluções para sair dela. Ficámos exactamente em condições idênticas. O caldo da portaria não acabou. Não é já como outrora, uma multidão pitoresca de mendigos, beatos, ciganos, ladrões, caceteiros, carrascos, que o vai buscar alegremente, ao meio dia, cantando o Bendito; é uma classe inteira que vive dele, de chapéu alto e paletó. Este caldo é o Estado.

(...)

Todos vivem na dependência: nunca temos por isso a atitude da nossa consciência, temos a atitude do nosso interesse. Lentamente, o homem perde também a individualidade de pensamento.

(...)

Não tendo de formar carácter, porque ele lhe é inútil e teria a todo o momento de o vergar; não tendo de formar opinião, porque lhe seria incómoda e teria a todo o momento de a calar - costuma-se viver sem carácter e sem opinião.

(...)»

Rodrigo Adão da Fonseca

O meu voto vai para o D. Sebastião!

"D. Sebastião da Guitarra", Luis Leitão, 2004, in www.olhares.com Do justo e duro Pedro nasce o brando (Vede da natureza o desconcerto!), Remisso e sem cuidado algum, Fernando, Que todo o Reino pôs em muito aperto; Que, vindo o Castelhano devastando As terras sem defesa, esteve perto De destruir-se o Reino totalmente, Que um fraco Rei faz fraca a forte gente
Luis de Camões, os Lusíadas, Canto III, a propósito de D. Fernando (mas que bem poderia destinar-se a D. Sebastião, seria?).
***
O PPM protestou; o AAA juntou-se na indignação: o programa da RTP1, "Grandes Portugueses", apresenta uma "lista de sugestões", de onde constam figuras ímpares da nossa História, seres únicos e irrepetíveis, como Afonso Costa, Otelo Saraiva de Carvalho e até o camarada Vasco. Ao mesmo tempo que são ignoradas personalidades como Salazar, Marcello Caetano, Isabel do Carmo, ou Pedrito de Portugal, só para falar de cor. Pessoalmente, não me surpreende esta selecção. Aliás, o contrário é que recolheria o meu espanto. Agora, a lista tem, digamos, outros quês. Esses sim, deveriam mobilizar-nos. Acho incrível que se promova o S. António, e não se destaquem os Três Pastorinhos. E que dizer do D. Sebastião? O que faz dele um "grande português", ao ponto de se sobrepor a distintos monarcas, como D. Afonso III, D. José I ou o Rei D. Carlos? Vejamos o que nos diz a RTP (os itálicos são meus) sobre "O Desejado":

Tão religioso quanto belicista, D. Sebastião é um mito nacional. É sobretudo evocado pelo seu desaire na batalha de Alcácer-Quibir. Nessa localidade de Marrocos, onde procurava recuperar as terras um dia portuguesas, não só perdeu a vida como a maioria dos seus 18 mil homens, deixando o País totalmente desprotegido. Estava certo de encarnar um capitão às ordens do Deus dos cristãos, um novo Alexandre, confirmando as teses de que se tratava de "um louco destemido". Ninguém o viu tombar, apenas desaparecer intrépido através das tropas mouras. Mas, até hoje, também ninguém assistiu ao seu regresso, como previam os "Sebastianistas" - certos de que continuaria vivo - para devolver a glória a Portugal.

Importa perceber que D. Sebastião, se sobrevivo, abandonou o Reino, certamente prisioneiro em sinistros calabouços ou eventualmente recolhido no conforto do harém de um árabe qualquer, disfarçado de Mona Lisa. O país mergulhou entretanto numa profunda crise, que o conduziu ao domínio dos Filipes. Por imperícia ou excessivo arrojo, a sua "visão política" submeteu Portugal à Coroa Espanhola por sessenta anos. Sem dúvida, um grande feito, que deve servir de exemplo para nós, os mais jovens; em particular quando nos é apresentado, como a RTP o faz, como um "louco destemido (...) sobretudo evocado pelo seu desaire", que "não só perdeu a vida", como deixou "o País desprotegido". Seja: o D. Sebastião tem o meu voto! Rodrigo Adão da Fonseca Disclaimer: Não se procura, aqui, discutir - envolto que está em polémica - o lugar que D. Sebastião e o seu reinado ocupam na nossa História, tarefa para a qual não me sinto habilitado. Na verdade, a par dos críticos, há quem defenda que o génio político e militar deste Rei não se pode sintetizar no desaire de Álcacer-Quibir; v.g., o Professor Borges de Macedo sustenta que a campanha africana foi apenas um episódio no reinado de D. Sebastião, mas não a sua essência ou finalidade; e que o brio de um Povo não deveria ser avaliado na medida das derrotas militares: "povos vencidos não são os que travam batalhas e as perdem, mas os que fogem ao combate, sem deixarem de se entregar ao inimigo" (in "A herança de Jorge Borges de Macedo: uma escolha familiar", por Jorge Braga de Macedo). Pretende-se apenas neste post, não denegrir (mais) o pobre do D. Sebastião, mas chamar a atenção para o ridículo da sua indicação (e do próprio programa, ao bom estilo das propagandas nacionalistas), atendendo ao fundamento apresentado no site da RTP.

09 Outubro 2006

Blue Lounge nos Tachos

Em destaque, esta semana, temos um blogue culinário, das nossas amigas eL. e aL. a que chamaram Something’s Burning [or a fancy name for Esturrico]. Apesar de nunca na vida ter lidado com "tachos" - seja no sentido literal ou apenas metafórico - acho que este blogue vai ser um grande sucesso (não fosse a comida o desporto preferido dos portugueses)! Cara Elise, tens uma responsabilidade adicional: n'O Insurgente, esperamos grandes textos, ou de contrário toda a esquerda vai dizer que os liberais empurram as mulheres para a cozinha, até na blogosfera! Por isso, às armas! Boa sorte às duas, e bons petiscos. Rodrigo Adão da Fonseca

Blue Painting: Xaime Quesada Blanco

Ontem a TV Galicia exibiu um documentário excelente sobre o jovem pintor, Xaime Quesada Blanco, tragicamente falecido, aos trinta anos, no passado mês de Junho. Aqui fica o devido destaque. Rodrigo Adão da Fonseca

Blue Lounge recomenda

O primeiro texto de Pedro Arroja no Blasfémias, sobre Leo Strauss. Uma crítica ao movimento neoconservador, na linha do que te sido escrito, aqui no Blue Lounge, e no Insurgente (pelo AAA). Rodrigo Adão da Fonseca

Benefício da dúvida

O Daniel Oliveira diz-me que no seu blogue os comentários não estão a ser moderados, mas que está com problemas técnicos. Retiro, então, o que escrevi no post scriptum, aguardando que o Arrastão consiga superar as dificuldades. Rodrigo Adão da Fonseca

08 Outubro 2006

"As Farpas", de Ramalho e Eça (Princípia, 2004)

"As Farpas" de Ramalho Ortigão e Eça de Queiroz foram republicadas pela Principia em 2004 numa compilação da responsabilidade de Maria Filomena Mónica; a entrevista que lhe foi feita por Rui Ramos a semana passada levou-me a recuperar o exemplar que me foi oferecido o ano passado, e que por várias razões ainda não tinha lido. Recomendo-as vivamente; porque nada há nada como o humor bem estruturado ao serviço da crítica; porque sempre se percebe que há disfunções no país que são culturais, que estão enraizadas no modo de ser do nosso povo. Porque se passa um bom bocado a lê-las. Rodrigo Adão da Fonseca

Daniel Oliveira: opinion maker, livre, ou um "submarino" infiltrado na Comunicação Social?

A propósito deste post do Daniel Oliveira, e do seu post scriptum, onde a crítica ao João Miranda se alarga a todos os neo-liberais que gratuitamente escrevem em blogues, declaro:
*
Ser quadro directivo de uma instituição financeira cotada, ao abrigo de um contrato sem termo e com isenção de horário. Ser advogado inscrito na Ordem. Participar em publicações técnicas na área da Fiscalidade e da Gestão. E poder assim ganhar o suficiente para ter, aos 33 anos, uma vida digna. Não ter qualquer filiação partidária.
*
Dedicar-me ao estudo da Ciência Política, nos ramos da Filosofia e da Economia Políticas, por mero divertimento, e só quando me apetece.
*
Escrever gratuitamente e em part-time, em blogues, jornais e revistas, por puro prazer e gozo intelectual, manifestação de cidadania e, sobretudo, na esperança de tornar a opinião uma commoditie que conduza a uma maior proletarização de certos profissionais da desinformação, colunistas neo-marxistas, castristas, trotskistas, ou simplesmente preguiçosos; e só, reafirmo, porque me apetece: o meu objectivo é mesmo depreciar o valor económico da produção de opinião. Com estima, Rodrigo Adão da Fonseca
***
P.S.: Neste tipo de situações, em geral, limito-me a deixar um apontamento na caixa de comentários; o que, no Arrastão, não vale a pena; escrevi um post porque, infelizmente, todos os que por lá faço, nos últimos meses, são religiosamente censurados e não publicados. É outra das vantagens de escrever em blogues, jornais e revistas, num certo registo independente: consigo evitar que os meus textos sejam, digamos, "moderados" por "jornalistas-submarinos" como o Daniel Oliveira.
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P.S.: O Daniel Oliveira, provavelmente sem notar, acaba por parodiar quase toda a blogosfera (política ou outra: que se saiba, ninguém é remunerado por escrever nos blogues).

Por um regresso ao individualismo

Zhang Xiaogang, Amnesia and Memory: Man, 2003
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[Artigo publicado inicialmente na Revista Dia D, do Jornal Público, do dia 6 de Outubro de 2006].
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A propósito das mais distintas reacções do status quo à 2.ª Convenção do Compromisso Portugal, cujos promotores se reuniram no passado dia 21 de Setembro no Convento do Beato.
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"Social gains", "social aims", "social objectives" have become the daily bromides of our language. The necessity of a social justification for all activities and all existence is now taken for granted. There is no proposal outrageous enough but what its author can get a respectful hearing and approbation if he claims that in some undefined way it is for "the common good". Ayn Rand, "Anthem".

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A defesa da esfera intangível do indivíduo e das suas liberdades surgem, no nosso discurso político, calibrado por mais de cem anos de experiências de pendor socialista e colectivista, com uma conotação negativa, associadas, de uma forma simplista, ao egoísmo.
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Durante décadas, a palavra "liberdade" desvirtuou-se, ganhando novas significações. Preservá-la nos limites do indivíduo deixou de ser um fim em si mesmo; os vários socialismos deram-lhe um carácter instrumental; como bem assinala Hayek, "o advento do socialismo", para os seus defensores, chegará com o "salto do reino da necessidade para o reino da liberdade"; "o homem" só será "verdadeiramente livre" quando vencer "o despotismo da necessidade material" e atenuar "as restrições decorrentes do sistema económico"; como é bom de ver, estes são desígnios que apenas podem atingir-se colectivamente; importa, assim, que os indivíduos prescindam das suas preferências, se superem, pois só para lá de si verão ultrapassadas as suas necessidades; daí que, para justificar qualquer conduta, e como bem refere Ayn Rand, seja necessário catalogá-la de "social", reconduzi-la a uma vaga ideia de "Bem Comum", e retirá-la do arbítrio dos cidadãos. Inversamente, desde que diluídas na retórica do "Todo", todas as directires políticas beneficiam de uma auto-justificação.
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Ignorando o peso da História, a noção de "liberdade" veiculada pelo nosso poder político ainda hoje carrega dois significados não escritos – "riqueza" e "redistribuição" – com que seduzem os cidadãos no mercado dos votos; com maior ou menor pendor, todos insistem na ideia que os poderes públicos são capazes de acelerar o processo económico e sacrificam as aspirações individuais em troca de direitos constitucionais e promessas de "liberdade" – leia-se, mais riqueza e sua redistribuição – que permitirão ultrapassar os mais distintos estados de necessidade.
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Por isso não espanta que a palavra "redistribuição" surja num certo politiquês semanticamente associada a "desprendimento" e "generosidade", ao mesmo tempo que "arbítrio" e "liberdade individual" são qualificados de "egoísmos".
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Não se procura aqui recuperar, como é sistematicamente aventado, um individualismo atomista e exacerbado, apenas focado no "Eu". Na verdade, uma sociedade em que as pessoas se demitem de participar; que não consegue constituir-se a partir da sua base, na família, na escola, na comunidade, nas diferentes instituições intermédias de carácter voluntário; no fundo, que não é capaz de se organizar à dimensão do cidadão (no sentido que lhe foi dado por Tocqueville); está a "escancarar as portas" para que se instalem os mais distintos "colectivismos": esta é, aliás, uma das maiores lições da História dos dois últimos séculos.
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Defende-se, sim, uma sociedade construída de "de baixo para cima", com menores escalas e maior interdependência, que consiga atenuar o impacto da burocracia e da alienação associadas aos processos colectivos de decisão, que resista à tentação de procurar conformar boa parte da acção dos indivíduos nos limites cegos da "Lei" e nas "Grandes Opções do Plano". Que devolva o poder aos cidadãos. Trata-se de dar mais ênfase à generosidade, à iniciativa, ao princípio da subsidiariedade, do que à solidariedade, à coação, aos direitos e às ficções legais que nos conduziram até à sociedade amorfa e acomodada em que vivemos. Quer-se um Portugal que liberte a criatividade, a vontade, a iniciativa, o gosto pelo risco, que recompense o esforço, que promova o mérito e a responsabilidade; que não deturpe o valor da riqueza, obcecado que está pela ânsia de redistribuição. Rodrigo Adão da Fonseca

07 Outubro 2006

Blue Lounge recomenda

Li este texto magnífico no Público de quarta-feira; agora, aproveito o facto de estar em linha - no Blogue da Atlântico - para o recomendar: Rui Ramos e "Um Colóquio Inquientante". Recomendo, ainda, o texto de JPP no Público de quinta-feira, "O futebol como repositório de bons costumes". É sabido que sou um amante fervoroso do futebol como espetáculo, e que durante anos frequentei estádios (sobretudo o das Antas e do Dragão, mas não só) com regularidade quase semanal. Talvez pela podridão a que o fenómeno desportivo chegou, deixei de ser sócio do FCP, e desinteressei-me pelo fenómeno da bola. Rodrigo Adão da Fonseca

06 Outubro 2006

Blue Lounge recomenda

O gato maltês, de JC, e o Blogue de Gestão e Marketing, de Bruno Silva. Rodrigo Adão da Fonseca

Concordo

Volta de novo o tema: com a substituição do GNT-Globo pela Record (da rede evangélica) todos ficaram a perder, sobretudo os brasileiros que vivem em Portugal e os portugueses que se interessam pelo Brasil e que tinham no GNT uma programação de qualidade. Ontem, quando a Datafolha já previa o segundo turno, a Record dividia a emissão entre conselhos financeiros aos sócios da IURD e uma trapalhada de dados confusos sobre as eleições, insatisfeita com a derrota de alguns apaniguados. A TV Cabo conseguiu acabar com a transmissão de um bom canal e a sua substituição por uma programação de merda. Essa falta de qualidade deve ser totalmente assacada à Portugal Telecom e aos seus critérios. Uma pena. Uma miséria.
Francisco José Viegas in A Origem das Espécies. Rodrigo Adão da Fonseca

No "El País" de hoje

Dois destaques: - Na fotogaleria, divulga-se a série completa (já aqui apresentada no Blue Lounge), uma exposição fotográfica do norteamericano Steven Klein protagonizada por Brad Pitt e Angelina Jolie, pelos vistos patente em Salamanca. - A grande notícia do dia, porém, são as movimentações na Bolsa de Madrid, em redor do Banesto, e que, segundo os jornalistas espanhóis, poderão ter como objectivo a capitalização de uma futura ofensiva do Santander ao BBVA. Será que na banca ibérica vamos ter um elefante gigante como que a passear-se num bazar chinês? Rodrigo Adão da Fonseca

Blue Photo: Susan Derges (II)

The Streens - Larch, 2002
Rodrigo Adão da Fonseca

Blue Photo: Susan Derges (I)

The observed and the observer, 1991
Rodrigo Adão da Fonseca

04 Outubro 2006

Sobre o referendo

Diz Paulo Pedroso no Canhoto:
José Policarpo disse uma coisa muito simples mais cheia de repercussões. O sentido do voto no referendo e a fé católica são coisas distintas embora se interpenetrem e o resultado das múltiplas determinações na formação da opinião das pessoas pode variar. Ao fazê-lo deu uma lição de cosmopolitismo e, na minha opinião, num tema particular mas simbólico,um sinal positivo da Igreja portuguesa sobre a Europa e o valor que a Igreja do séc. XXI dá às múltiplas pertenças e ao pluralismo de convicções políticas e morais dos seus crentes.
Concordo plenamente com esta forma de ler as palavras do Cardeal Policarpo e que, aliás, não estão muito longe das que eu havia já escrito, aqui, a propósito do referendo que aí vem:

É pacífico, hoje, existir uma clara separação entre a Igreja e o Estado; assim, não faz sentido exigir-se da Igreja, neste plano, o que quer que seja. A Igreja, enquanto instituição secular, poderá participar - e certamente o fará - no referendo. Pois numa sociedade aberta, o debate é plural e livre; agora, não se compadece com exigências. Quem não quiser estar, não está.

Convém ainda não esquecer que o referendo convida os cidadãos a pronunciarem-se sobre a despenalização do aborto, no plano civil. Este é um debate da Nação. Não estamos a referendar a moral da Igreja: essa diz respeito à comunidade de crentes.

Rodrigo Adão da Fonseca