05 fevereiro 2007

Autismo e desrespeito pelos eleitores

José Sócrates vive no mundo das certezas. O seu "Sim" é afirmativo e claro. Parabéns. Só que a campanha do referendo já permitiu esclarecer que há muitos portugueses que não querem a penalização das mulheres, mas para quem o aborto livre, a pedido, sem reservas nem restrições, lhes faz uma enorme confusão. Estas pessoas o que esperam do poder político é que este ouça as suas pretensões e as acolha. O governo nada disse sobre o que quer fazer com o "Sim", para além da mera alteração ao Código Penal. Vai incluir na rede do SNS clinicas privadas? Vai permitir que o dinheiro que seria alocado à realização da interrupção da gravidez possa ser canalizado para a natalidade, se for essa a opção da mulher? Em que condições poderá a mulher abortar? Em que consistirá a prática abortiva em Portugal? Os políticos vivem obcecados com as leis; esquecem-se, porém, que os cidadãos comuns se preocupam mais com os problemas, e votam em função da soluções que lhes são apresentadas para os ultrapassar. Ora, o governo não fez o seu "trabalho de casa", e por isso muitos portugueses terão reservas em votar "Sim", sem mais. Porque não lhes são dadas quaisquer garantias, para além da embirração com uma norma do Código Penal que nunca serviu para prender ninguém. José Sócrates, alheado do país (certamente com um enorme jet-lag, e frustado por uma viagem onde as coisas não lhe correram bem, por culpa própria) em vez de tentar perceber aquilo que resulta já evidente - que uma parte significativa do "Não" diz respeito, não à despenalização, mas ao aborto livre e sem restrições - radicaliza o discurso, faz tábua rasa sobre tudo o que se tem dito e escrito, para ameaçar com a manutenção do estado de coisas. José Sócrates vive num mundo a preto e branco, onde para qualquer problema só há duas soluções. E ambas dizem respeito a um problema legislativo que diz pouco aos portugueses. Rodrigo Adão da Fonseca PS: O José Sócrates que eu ouvi hoje na rádio estava irado, fazendo ironia sobre as dúvidas de muitos portugueses, afirmando de uma forma muito rasteira que caso não vença o "Sim" não dará sequência a nenhuma iniciativa parlamentar que vise a despenalização. Para o jornalista do DN, pelo contrário, talvez impressionado pela ausência de gravata e pela postura yuppie/negligé/com marcas de jet-lag do nosso engenheiro, a presença de José Sócrates num debate organizado por simpatizantes socialistas, pautou-se por um grau elevado de civilidade, elevação e correcção: esta notícia é digna do melhor jornalismo de propaganda; já viajei pelos cinco continentes, e igual a isto só encontrei na Birmânia. É por estas e por outras que os jornais cada vez vendem menos: poucos estão dispostos a pagar por este tipo de lixo.

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