03 janeiro 2009

Blue Films: "Vicky Cristina Barcelona"

Vi hoje "Vicky Cristina Barcelona", de Woody Allen. Penélope Cruz e Scarlett Johansson desiludem: a primeira veste supostamente a pele de uma artista neurótica, mas o que fica na retina - e sobretudo no ouvido - é a sua queda para a peixeirada (ainda que se possa, sejamos justos, reconhecer que Penélope é mesmo, no filme, a típica espanhola neurótica aos berros, se me sentar a imaginar uma espanhola neurótica, então não deve andar muito longe da figura que Penélope faz no filme). Já Scarlett ("Cristina") assume o papel da eterna insatisfeita, da mulher que tem uma pretensa "queda" para as artes, que sente ter algo para dar, algo de transcendente mas indefinido que guarda dentro de si por falta de um "dom" que lhe permita expressar de forma sublime esse sentimento difuso; no fim, porém, sobra apenas uma personagem algo patética, marcada por aquele arzinho de "doll", só que desta vez muito forçado. Pelo meio, é-nos oferecida uma suposta relação a três com o "macho man" do enredo - Javier Bardem - que até patrocina a estabilidade necessária para que "Cristina" consiga comunicar, pela fotografia, o que lhe vai na alma, só que o resultado, em filme, é mau, ridiculo, uma verdadeira chachada; mesmo as "trocas de afecto" entre Penélope e Scarlett - que, só de pensar, deveriam incendiar qualquer ecrã - são um flop, um anti-climax, vê-se a milhas que ambas estão desconfortáveis no seus papéis. Em Penelope, safam-se as fotos que aparecem em segundo plano onde ela é o objecto, e em Scarlett, a própria, que mesmo a representar mal, e a fazer de "barbie" pós-moderna, nos prende ao ecrã. Duas boas actuações, de Scarlett e Penélope, enquanto objectos, más, enquanto actrizes, "sujeitos" da acção. Ainda assim, o filme é divertido, subtilmente divertido, com cenários bonitos, e com ritmo, aos sons das guitarras de Juan Serrano, Paco de Lucia e Juan Quesada, entre outros; nestes filmes de Allen gosto do papel do narrador, que marca a cadência da história, e lhe dá uma certa ironia. Adorei a representação de Rebecca Hall, a Vicky, uma mulher real, que assume na perfeição o papel que lhe foi atribuído, o da mulher pragmática e normativa que se dá mal quando tenta oferecer paixão e salero à sua vida.
Aviso final: quando forem ver o filme, arrefeçam as hormonas várias horas antes, não as desperdiçem, pois o filme não merece esse tipo de ansiedades: é que a promessa implícita de Allen ao juntar a Javier Bardem um trio de luxo - Scarlett Johansson, Penélope Cruz e Rebecca Hall - é grande, mas a esmola, essa, é pequena, muito pequena.
Rodrigo Adão da Fonseca
PS: Uma recomendação especial aos "jogadores" de golfe: vejam com atenção o que as mulheres mais "certinhas" do filme andam a fazer enquanto os dois entusiasmados maridinhos exercitam as perninhas e os braços nos greens. Realmente, golfe é desporto que cada vez me entusiasma menos...

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