27 novembro 2005

Antonio Negri: o camaleão do marxismo à italiana - III

O Henrique Raposo diz que Negri não é marxista; esta frase teria talvez alguma razão de ser se proferida nas discussões mantidas entre as várias esquerdas algures nos anos 60. Ler, hoje, que Negri não é marxista, quando o próprio aliás faz questão em afirmá-lo, penso que não fará especial sentido. Até porque claramente a raíz do pensamento actual de Negri permanece marcadamente marxista: ao defender que o capitalismo se encarregou de substituir o trabalho intensivo e os valores tangíveis pela desmaterialização e pela revolução tecnológica, retirando valor ao trabalho intelectual; quando substitui a expressão «proletariado» - que perdeu a sua carga significativa e o seu peso específico, face ao surgimento de outras formas de organização da economia - pelo conceito de «multidão», aliás bem mais difuso e por isso tendencialmente mais abrangente. O pensamento de Negri tem ainda uma estrutura determinista e historicista, facilmente perceptível quando apresenta a ideia de Império, essa nova configuração da humanidade, a forma globalizada do capitalismo, a síntese prévia à sua desagregação. Fico com a sensação, contudo, que o post do Henrique Raposo não é propriamente sobre Negri, servindo apenas a intenção escondida de crucificar definitivamente Carl Schmitt, apresentando-o como inspirador do «novo radicalismo esquerdista». Não que não considere pertinente a análise do HR; acho-a até bastante interessante em alguns aspectos, sobretudo naquilo que é a constatação de que as novas esquerdas do século XXI encontram na rua, nas demonstrações de poder, uma fonte de legitimidade, na procura da desagregação e enfraquecimento do Estado e da lei constitucional em favor da tal nova identidade superior. Curiosa ainda a comparação entre o sufrágio e a noção de opinião pública. Agora, Negri reinventa o marxismo, dá-lhe uma nova roupagem, escreve certamente sob o efeito de outras influências. E se a sua linguagem se afasta em muitos aspectos dos chavões da velha esquerda (aliás, toda a sua vida procurou dar esta sensação de que estava num processo constante de reinvenção do marxismo) - os quais foram substituídos por outros com uma carga semântica mais adequada aos novos tempos («multidão», «globalização», «mestiçagem das culturas») - não devem subsistir dúvidas em classificá-lo como marxista - ou, talvez, neo-marxista. Negri tem um passado subversivo significativo que importa não desprezar, e uma forte capacidade de impor as suas ideias sobretudo entre os grupos insatisfeitos dos meios estudantis e da juventude; pode dizer-se, como o faz HR, que «Negri (...) tem muito pouco de Esquerda». Eu, com franqueza, discordo. Mas o mais grave é que a própria Esquerda discorda, também, e absorve - sobretudo os mais jovens - os seus neo-chavões marxistas, nesta sua nova versão para plataformas «MP3», com enorme apetite. Rodrigo Adão da Fonseca

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