18 dezembro 2005

Blue Shots: Kirzner, ou como actuar num contexto de incerteza

Israel Kirzner, na linha de Mises, vê o mercado como um processo. Um processo acelerado pela acção dos empreendedores. Num mundo onde a informação é assimétrica, o empreendedor é aquele que consegue antecipar a procura, é o agente que busca as melhores oportunidades, que inova, que consegue tornear os malefícios do imprevisto. Kirzner sabe, como Hayek, que numa sociedade complexa – e dinâmica – em constante mutação, a divisão do conhecimento é inevitável. Cada um de nós dispõe apenas de uma fracção do conhecimento, tendo de ponderar as suas decisões num contexto de incerteza permanente. A divisão do conhecimento deve conduzir, por um lado, à especialização; e, por outro, à cooperação. Num mundo incerto, de conhecimento fragmentado, vence quem coopera, quem consegue movimentar-se na incerteza – quem, como defende Kirzner, sabe “estar em alerta”, e melhor alinha três atitudes fundamentais: especialização, cooperação, interdependência. Kirzner, na linha aliás de Hayek e Mises, sempre se questionou como podem os agentes estatais conjecturar e planificar a régua e papel a economia, esperando que a realidade venha a corresponder no futuro àquilo que hoje julgam ver com uma clareza cristalina, como se o futuro fosse água de uma nascente. Os cidadãos, esses, já se aperceberam que nunca o executado corresponde ao planeado; a culpa é sempre dos anteriores, ou morre solteira; porque não reconhecer que a realidade não se compadece com projectos e planos, mas é o fruto da interacção de agentes dotados de um conhecimento limitado? E que a solução que melhor serve os cidadãos é a que permite o alinhamento constante dos interesses individuais, numa base flexível e reversível? A inovação reside nos agentes, não se induz por decreto; a capacidade de antecipar as necessidades, de contornar os riscos, concentra-se apenas nos agentes económicos; quem pretende promover o crescimento deve, acima de tudo, criar as condições para que haja especialização, cooperação entre os agentes, num ambiente que favoreça o estabelecimento, destruição e renovação de múltiplas redes de interdependência. Fugindo de modelos e compromissos de longo prazo, portadores de soluções de sentido único. Projectos faraónicos que não resultam de exigências dos cidadãos nem dos agentes económicos, planeados a regras e esquadro, autojustificados por decreto e por duvidosas projecções apenas nos empobrecem a prazo. Keep it simple, senhores governantes. Por favor. Rodrigo Adão da Fonseca PS. Post publicado igualmente no blog da Causa Liberal, onde poderão, a partir de hoje, encontrar alguns dos meus escritos.

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