22 dezembro 2005

A pobreza de África e as recriminações entre Direita e Esquerda

Por aqui e por aqui, e ainda por aqui, discutem-se os caciques africanos. Serão de direita? Serão de esquerda? Os nomes parecem cerejas: puxa-se um aparecem logo uma dúzia. Desculpem-me os amigos Vital Moreira, Insurgentes e Acidentais, mas acho que esta é uma discussão sem sentido. Africa é uma vergonha para a Europa que se diz de direita e de esquerda (também EUA, russos e cubanos), que preferiram - e em larga medida ainda preferem (embora muita coisa tenha já melhorado) - financiar caciques locais que tolerem formas de neo-colonialismo, enquanto os países ocidentais mantêm as suas fronteiras fechadas, muradas por barreiras alfandegárias e políticas restritas de emigração que apenas a conta-gotas aceitam os emigrantes de que necessita para manter o seu estado social e o seu bem-estar (reservando aos emigrantes as tarefas que ninguém quer fazer). Só assim se compreende que os países europeus tenham taxas crescentes de desemprego - em Portugal, 7%, e a crescer a um ritmo galopante - e ainda sejam países cada vez mais de acolhimento. Muitas regiões de África são palcos de genocídio, violação à liberdade religiosa, apropriação indevida de recursos naturais por mera utilização do poder, perseguição política e étnica, guerra civil permanente. O que se vive em África - e falo do que vi, pois já visitei várias regiões do continente negro, de expressão portuguesa, francófona e anglófona - não é o resultado da aplicação de políticas de direita ou de esquerda, mas apenas da instalação forçada de sistemas de governo democrático que operam (infelizmente) apenas formalmente, em sociedades que estão ainda numa fase pre-hobbesiana, muito próximas do estado-natureza. Com a devida contribuição do mundo ocidental, obviamente. O que África precisa urgentemente é de se libertar, de começar a construir uma sociedade civil razoavelmente forte, uma classe média que desenvolva os mecanismos básicos que possibilitam a erradicação da pobreza e asseguram o mínimo de dignidade de que uma parte significativa dos africanos, hoje, está privada pelo egoísmo dos homens. Pelo egoísmo de todos nós, também. Rodrigo Adão da Fonseca

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