04 dezembro 2005

Social-democracia e Liberalismo

O Tiago Mendes ficou muito surpreendido com o facto de eu ter escrito que a social-democracia deriva do socialismo, não sendo liberal, afirmando: "Julgo que as posições não são compatíveis. Uma coisa é achar a social-democracia tem uma componente para-socialista, outra é achar que ele deriva do socialismo. Tomar um componente por matriz-base não me parece nada indiferente. E o "para" também tem algum valor. Façam as vossas interpretações". Socorre-se ainda de um artigo no DN do Luciano Amaral, onde se defende, num contexto muito particular de eleições, que a social-democracia será um regime misto, uma espécie de liberalismo em que se enxertaram um gene democrático e outro parassocialista. Em geral concordo com aquilo que escreve o Luciano, e penso que a sua descrição de social-democracia se encaixa bem naquilo que é o contexto português, onde, por razões relacionadas com o posicionamento partidário no pós 25 de Abril, o PSD, designado social-democrata, surge no centro-direita, aninhando no seu seio uma minoria liberal. Agora, a social-democracia é uma corrente política que resulta das cisões ocorridas na II Internacional Socialista, assentes na crença que seria possivel reformar o capitalismo e partir para uma sociedade mais igualitaria sem recorrer a revoluções. São estas a suas origens. Aliás, só em 1951 a social-democracia renunciou às suas referências marxistas. A social-democracia é desde o séc. XIX um pensamento dinâmico, uma corrente em constante evolução; de facto, estamos longe hoje do revisionismo marxista de Berstein, das soluções de Kautsky, dos modelos fabianos. Durante o século XX, a própria social-democracia foi-se sucessivamente afastando das suas raizes, desenvolvendo modelos alternativos, como são os nórdicos, o trabalhismo inglês ou a social-democracia alemã redesenhada por Willy Brandt. Apesar de estar em muitos aspectos a liberalizar-se, a social-democracia labora ainda sobre modelos socialistas híbridos: as suas soluções são elaboradas a partir de modelos socialistas mitigados (e não modelos liberais mitigados, como nos quer convencer o Tiago Mendes com o seu jogo de palavras "para" e "matriz"). Cada vez mais mitigados, em grande parte devido à pressão colocada pela ameaça de falência dos Estados-Providência, cada vez mais visível. E tais conclusões não são uma embirração ou excentricidade minha: mais não são do que constatações históricas. O próprio posicionamento partidário da social-democracia na Europa fala por si. O SPD, partido social-democrata alemão, pode considerar-se liberal? Ou herdeiro do socialismo de Godsberg e Brant? E os partidos sociais-democratas nos paises nórdicos, têm alguma raiz liberal? E em Inglaterra, o Partido Trabalhista, antes de Blair, alguma vez podia ser apelidado, ainda que remotamente, de liberal? No Reino Unido, na Alemanha, em França, nos países nórdicos, o espaço liberal é ocupado pelos partidos liberais. Podemos encontrar ainda uma forte componente liberal no plano económico em alguns dos partidos conservadores europeus. A social-democracia tem, neste quadro, o seu lugar. Adivinhem qual é. Admito que com a crescente liberalização das sociedades e dos sistemas políticos, a própria social-democracia (que está em progressiva mutação e cada vez mais afastada das suas raízes) evolua no sentido de se tornar cada vez mais uma forma híbrida e até interessante de liberalismo político. Aliás, tenho até essa esperança. Agora, a análise do Tiago Mendes não tem acolhimento naquilo que são as contingências da história nem se enquadra no contexto político europeu em que vivemos. Poderá fazer sentido no futuro. Desejavelmente, num futuro muito próximo. Eu sei que ler estas coisas custa a quem gosta de viver no conforto e de se enquadrar no pensamento maioritário. É sempre mais fácil rotular e "gethizar", vestir a pele do moderado politicamente correcto. "Meu Deus, imaginem que o RAF teve a veleidade de dizer que a social-democracia não é liberal, é uma derivação do socialismo. Lá está novamente em acção a Brigada do Liberalismo Quimicamente Puro. Estes gajos julgam-se donos do liberalismo". Ora, eu próprio sempre me considerei um moderado. Concluo cada dia que passa que o serei, mas apenas no quadro de um mundo globalizado. Já em Portugal, e pelo facto de não me perder em consensos fáceis, do tipo "parasocialistas" e "matrizes" que a história não conhece, a minha moderação é vista segundo outros prismas. Porque, infelizmente, o ponto de equilíbrio em Portugal está claramente deslocado no quadrante socialista. Também tenho dificuldade em perceber esta obsessão recente que há em querer apresentar quase todas as correntes do nosso panorama político como herdeiras do liberalismo. Hoje em dia, dizer uma banalidade como "a social-democracia não é liberal, é uma derivação do socialismo" já é motivo para uma profunda discussão. Agora, bons sinais surgem no horizonte. Hoje, começamos a ter os moderados colocados no centro do quadrante político português a querer ser liberais, ainda que apenas na "matriz". A matriz da social-democracia, que sempre foi o "socialismo", agora para alguns passou a ser o "liberalismo". Bom sinal. Muito bom sinal, aliás. Usando as palavras do Tiago Mendes, resta-me dizer: façam as vossas interpretações. Rodrigo Adão da Fonseca

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