Os mestres do liberalismo

A CCS escreve, hoje, no Espectro, um post - «Os mestres do Liberalismo» - onde tece um conjunto de considerações diversas sobre um tema recorrente na blogosfera: o «purismo» ideológico na discussão do liberalismo. 1. Há, de facto, na blogosfera, e na discussão deste assunto em particular, muito ruído; em boa medida, porque a blogosfera é um espaço onde cada um pode escrever sem restrições; em parte, também, porque há bastante juventude, de sangue quente (ou aquecido à pressa por impulso hormonal); ou ainda muita gente que está num processo embrionário de formação, o que leva a que as imprecisões abundem com frequência; há, finalmente, um «cruzamento», interessante, mas potencialmente explosivo, entre interesses divergentes: de reflexão para-académica, de acção política e partidária, de aspiração mediática ou jornalística; ora, o modo como se alinham os conteúdos faz com que o output final seja muitas vezes criticável na perspectiva do outro, e dê lugar a acesas discussões. 2. A tudo isto acresce uma enorme dificuldade de definição do conteúdo do liberalismo. Não sendo, como o marxismo, uma doutrina com paternidade conhecida, mas uma corrente de pensamento que acomoda várias tendências e abordagens, com uma tradição plurisecular e multicultural, a sua conceptualização é aberta e até difusa. 3. As reservas que acima coloco não devem impedir, contudo, que na discussão e no debate haja um espaço para quem opte por situar o liberalismo dentro da malha larga (e estrita) em que ele se insere; sobretudo se tivermos em atenção que muito do que se publica por aí se inspira numa escrita leve e muitas vezes até negligente, embora apresentada de uma forma pomposa, barroca e até supostamente erudita. Há um espaço liberal em Portugal, de gente jovem que imprimiu na sua vida uma cultura de exigência, e que não se submete a um politicamente correcto, onde a preguiça e a escrita leve são rotuladas de «pragmatismo», e a prudência, o estudo e a preocupação pelo rigor de «pureza bacteriológica». 4. Infelizmente, num país onde a maioria da população se diz católica mas ninguém reza, e onde o filme português mais visto de sempre foi «O crime do Padre Amaro», é também relativamente fácil vender a ideia de que existem «por aí» uns «frades negros do liberalismo», agarrados aos seus dogmas, de «dedo em riste», a atormentar não sei bem quem (o post da CCS não esclarece quem são os perseguidos pelos novos «Torquemadas»). 5. Concordo que em Portugal o debate de ideias está excessivamente personalizado, e se desenrola com uma elevada falta de civismo. E, certo, está marcado por uma forte intolerância. Mas a CCS que me perdoe, mas o seu post está, neste contexto, enviesado, porque o mau carácter, a falta de educação, e o desrespeito pelos outros - o tal «dedinho em riste», o pensamento de «cartilha», os «princípios de seita», as «certezas iluminadas», as «exibições mesquinhas» e os «egos mal ajustados» - estão, infelizmente, por todo o lado. 6. O post da CCS «dispara para o ar», fazendo uma data de «vítimas civis». Por várias vezes pensei deixar de escrever na blogosfera, porque me cansa estar sistematicamente a ser bombardeado, mesmo quando a lama não me era directamente dirigida (como penso que é o caso). Que a «miudagem» se entertenha neste tipo de quezílias é-me indiferente, mas que uma jornalista da envergadura de CCS, num blogue lido por milhares de pessoas, se submeta a semelhante exercício, traduz-se numa tremenda desilusão. Rodrigo Adão da Fonseca

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