23 janeiro 2006

Rescaldo das eleições presidenciais – IV

Jerónimo de Sousa tem vindo a conquistar a simpatia, não apenas do seu eleitorado potencial, mas de muitos portugueses dos mais diversos quadrantes ideológicos. O partido comunista reinventou-se em redor do carisma deste seu novo líder. Se me perguntassem com qual dos candidatos gostaria de jantar, certamente responderia, sem hesitação: Jerónimo de Sousa. O discurso comunista mantém a sua inflexibilidade e a mesma ortodoxia de sempre; só que as características pessoais de Jerónimo levam a que a generalidade dos portugueses agora – onde antes observavam atraso – veja na sua atitude um sinal vivo do «carácter», da «coerência» e da «persistência» do ideário comunista. O comunismo em Portugal resiste hoje, ironicamente, graças ao carisma de um líder. Isto sem desprezar o trabalho sério de todo um partido, o que em Portugal melhor se organiza a partir das suas bases. Numa eleição onde o seu espaço político se encontrava fortemente «balcanizado», Jerónimo conseguiu, mais uma vez, travar não só a transferência do voto comunista para Francisco Louçã, como resistiu ao «entrincheiramento» de Soares na extrema-esquerda. O espaço eleitoral do Partido Comunista está hermeticamente fechado, tal qual a sua ideologia; agora, com o carisma do seu líder e com a erosão que os socialistas vão sofrer no seu eleitorado mais à esquerda – a governação terá necessariamente este «dano colateral» – os comunistas têm boas razões para sorrir.
Rodrigo Adão da Fonseca

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