12 janeiro 2006

Sobre o sentimento de identidade e pertença

Para começar, não vejo qual seja o problema de um grupo de pessoas - que até são todas elas da mesma cidade - se identificarem enquanto tal. Também me parece desprezível que se desvalorize o facto de haver cidadãos, que além das referências nacionais, tenham também um forte sentimento de pertença a uma dada região, sendo tal um factor de agregação. Basta olhar para a nossa vizinha Espanha: os catalães, galegos, bascos, andaluzes, têm esse sentimento de pertença; conheço bem a realidade espanhola, e constato que, apesar dos problemas que os nacionalismos acarretam, o sentimento de pertença às regiões e o apego à terra são, em Espanha, não só factor de identidade, como de riqueza cultural e até de saudável concorrência e progresso (as zonas de Espanha onde o sentimento de pertença é mais forte são as mais desenvolvidas; e o facto de existir um sentimento de autonomia faz com que o país seja mais homogéneo em termos de criação da riqueza).
No caso concreto das reservas à OTA e ao TGV, este factor de identidade tem um especial cabimento; porque estes dois investimentos concentram o investimento público numa região muito específica do país, canalizando recursos de uma forma assimétrica para a região de Lisboa e Vale do Tejo - aquela que é já a mais rica do país - prejudicando ainda investimentos já feitos e que perdem uma boa parte do seu sentido face aos novos projectos em curso (o risco de subalternização do Aeroporto do Porto é real: com a OTA poderá perder uma parte significativa do seu interesse; este aeroporto, recentemente inaugurado, custou ao país 300 milhões de euros, e tem uma enorme margem de progressão em termos de tráfego que ficará limitada caso haja necessidade de canalizar tráfego para o Ribatejo; não é à toa que os promotores da OTA defendem simultaneamente que a «gestão nacional» dos aeroportos fique centralizada numa só entidade, eliminando a possibilidade de concorrência). Este tipo de escolhas tem um peso fundamental nas opções de investimento, por exemplo, dos privados (v.g., na área do turismo, mas não só).
Os receios de subalternização de uma região naquilo que são as prioridades do investimento público são mais do que suficientes para justificar o aparecimento de grupos desta natureza. Se não forem os próprios a pensar as suas cidades e as suas regiões, procurando no espaço público debater e afirmar os seus pontos de vista, quem o fará? Se não forem os próprios, a partir das suas regiões, a trazer estes assuntos para a ordem do dia, ficamos todos a discutir grandes causas nacionais, como a casinha Almeida Garret.
Rodrigo Adão da Fonseca

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