09 fevereiro 2006

Exmo. Sr. Professor Doutor MNE

Exa, Muitos cidadãos portugueses ficaram surpreendidos com o comunicado proferido pelo Ministério que V. Exa. dirige, onde por seu intermédio a República manifesta a sua opinião - leia-se, a posição de Portugal - face aos tristes acontecimentos que invadiram as nossas casas por esse poderoso meio de difusão da realidade que é a TV. Muitos se perguntam porque razão o governo de Portugal decidiu assumir uma posição oficial em relação a algo que, aparentemente, diz respeito ao Reino da Dinamarca e a alguns Estados teocráticos de inspiração islâmica. Quero dizer-lhe que considero tais reservas resquícios do provincianismo e do isolacionismo cultural tão típicos da nossa lusitaniedade. Nos nossos dias, vivemos numa aldeia global, e o que se passa num país inóspito do mundo, deve ser objecto de atenção por parte dos responsáveis governativos. Quem não percebe isto é porque desconhece, além do mais, um dos princípios basilares do Direito Internacional, o da extensão da territorialidade por facto mediático: se apareceu na nossa TV, então é porque merece a jurisdição e a douta opinião dos nossos governantes. Além do mais, se a Condoleeza Rice deu opinião, porque razão não havíamos nós de a dar? Julgo, aliás, que a sua iniciativa está perfeitamente em linha com a necessidade de aproximar a política e os políticos da generalidade dos cidadãos, interagindo o governo, activa e oficialmente, em redor daqueles que são os assuntos do momento, nos cafés, nos empregos e nas famílias. Dicordo profundamente também daqueles que dizem que V. Exa. utilizou o Estado e o nome da República para proferir uma posição eminentemente pessoal, e repugnam-me os que o comparam ao deplorável Luis XIV. V. Exa. interpretou bem o sentimento nacional, que aqui ninguém quer ter problemas com os islamitas, não queremos bombas e somos todos a favor da continência verbal e do máximo respeito pelos valores religiosos. Aproveito a ocasião para lhe perguntar que lhe parece a Soraia Chaves, e que posição assumiria se «O Crime do Padre Amaro», na sua mais recente paródia cinematográfica (o filme português mais visto de sempre), tivesse sido replicada numa versão islamita (filmado certamente por Manuel de Oliveira, o único capaz de alongar a película até à extensão necessária para que o Imã cumprimentasse as setenta e duas virgens - pense bem antes de responder, Sr. Ministro, setenta e duas Soraias, em aparições sucessivas ao longo de doze horas de filme). Aos que o acusam de «narcisismo» e ânsia de protagonismo, respondo-lhes - embora não com muito sucesso - que estou certo que V. Exa. está sobretudo preocupado com o país e com os portugueses. Por isso aproveito a oportunidade para lhe enviar uma vergonhosa notícia publicada por um jornal britânico - o Sunday Times - onde uma viscoso jornalista, à pala desta miserável prerrogativa que é a liberdade de expressão, desata a destruir os símbolos da nossa Portugalidade, desde o «bacalao» aos nossos heróicos navegantes que penhoraram a vida em busca de Novos Mundos para o Mundo. E ainda nos menoriza face aos espanhóis. Penso que esta abusiva e vergonhosa utilização da liberdade de expressão merece a atenção e a censura do governo português e, quiçá, finlandês. Estou certo que o governo líbio e lituano estarão também dispostos a prestar a devida solidariedade. Caso pretenda, estou disponível para iniciar uma manobra de destruição de embaixadas e consulados britânicos, e a promover a devida «queima das bandeiras». Peço-lhe apenas que dê instruções aos polícias que as guardam para que não apareçam nesse dia, para que, a bem do défice, não tenha o seu homólogo Costa de accionar o seguro de risco dos agentes nem pagar horas extraordinárias. Bem-haja pelo seu sentido de oportunidade, e que a inveja nacional não o arraste na próxima remodelação governamental. Um seu admirador, Rodrigo Adão da Fonseca PS: A notícia do Sunday Times recolhi-a a partir daqui (Quote That).

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