05 fevereiro 2006

Liberdade de Expressão, Tolerância e Segurança

Hoje, quando circulava na marginal da Foz, dois «transeuntes» que se passeavam acompanhados por cães de «elevado calibre» - um rottweiler e um boxer - cruzaram-se. Em vez de seguir em frente, fazendo uso da minha liberdade de circulação, optei pela solução mais segura: atravessei a rua. Certamente que os cidadãos que se fazem acompanhar de cães perigosos não deveriam circular ao domingo numa zona de grande afluência; e, óbvio, teria todo o direito de seguir em frente. Só que fiz um juízo de valor e, dadas as circunstâncias, pareceu-me que o momento não seria o mais oportuno para fazer uma dissertação sobre «liberdades básicas». Em 2002, na Tanzânia, eu e uns amigos fomos «convidados a sair» de uma mesquita, porque supostamente a nossa mera presença foi considerada desrespeitosa. Pareceu-nos, também, que o melhor seria sair discretamente. Ao longo dos mil quilómetros de estrada que fizemos no Quénia e na Tanzânia, desde Nairobi, passando pela planície do Serengeti, até ao Kilimanjaro, houve momentos em que por questões de segurança a nossa opção passou por limitar a «liberdade de expressão». Em duas situações, a nossa expressão de liberdade limitou-se à rápida colocação da Toyota Hiace em movimento ... O Ocidente tem conseguido compatibililizar os valores essenciais da liberdade e da tolerância, retirando uma boa parte do atrito que necessariamente se gera quando procurámos conciliá-los. Só que o mundo mudou, e hoje assistimos a um choque de civilizações complexo, que nos deve fazer pensar no modo como agimos, na forma como exercemos as nossas liberdades. De nada nos vale afirmar a liberdade de expressão, como liberdade negativa, se isso põe em causa a nossa segurança. Sobretudo quando na balança a restrição da nossa liberdade, aqui, apenas se limita a utilizá-la com prudência, e o valor que se atinge com esta limitação é a salvaguarda da paz (na linha de I. Berlin). Existem momentos em que temos de saber se seguimos em frente, ou se atravessamos a rua. Eu, da minha parte, prefiro evoluir para uma sociedade que usa as suas liberdades com prudência e inteligência, procurando com persistência ganhar a batalha cultural com o Islão, do que afirmar de uma forma quixotesca a supremacia dos valores ocidentais, que nos está a encaminhar para ódios inultrapassáveis e para uma potencial guerra. Rodrigo Adão da Fonseca