03 fevereiro 2006

O neo-liberalismo e a ideia de cooperação

O Liberalismo dito clássico tem da natureza humana uma visão realista, subtilmente pessimista, que o aproxima do pensamento conservador. Nesta linha, vale a pena recuperar alguns escritos do Rui de Albuquerque:
Sendo certo que o liberalismo reconhece a finitude e a precariedade da existência humana e a dimensão trágica que isso comporta na vida de cada indivíduo, daí retira um primeiro postulado: que os seres humanos devem conduzir as suas precárias existências dentro do princípio da máxima liberdade possível, isto é, que não tenham entraves ao desenvolvimento das suas vidas senão os ditados pela própria liberdade alheia. Mas, sabendo que a alma humana não tende naturalmente para a filantropia, sabe que o princípio no relacionamento humano é o da cooperação em vista a fins benéficos comuns. Por isso, quanto menos intermediários existirem, sendo que o Estado mais não é do que um intermediário com interesses próprios a agir em causa alheia, melhor poderão compor os seus interesses e obter resultados de soma mais positiva para as partes. Isto é, ninguém melhor do que os próprios interessados, para comporem os seus devidos interesses, La Palice puro.
Esta visão, na minha perspectiva, é redutora, porque limita a ideia de cooperação à mera prossecução da segurança e à consciência que por esta via se promove a composição de interesses que melhor serve o indivíduo concretamente considerado. Esta abordagem, claramente hobbesiana, parte de premissas que são correctas: a) a cooperação entre os indivíduos sem intermediações artificiais i) promove a segurança e ii) uma adequada composição dos interesses ao serviço dos indivíduos; b) sendo fonte de redução de conflitos. Algumas das novas correntes liberais vão um pouco mais além; sem cair no optimismo que ignora as limitações que encerra a natureza humana, promove o seu lado mais positivo. É o que ocorre, v.g., naquilo que é central no pensamento de Israel Kizner: o «seu» empreendedorismo é a transposição para a doutrina económica, pode dizer-se uma síntese, das ideias de iniciativa, cooperação e não intermediação; procura-se libertar os indivíduos e a sua criatividade em busca da sua realização. A essência da economia de mercado na América – e isso dá-lhe uma faceta neo-liberal – assenta na confiança que existe entre os cidadãos e os agentes económicos, fonte de redução dos chamados custos de transacção, de inovação nas diversas formas de cooperação, inviáveis em sociedades, digamos, mais «desconfiadas» (de que a Google é o expoente máximo, mas não único). Daí que hoje, nas economias modernas, a cooperação, a iniciativa, a confiança entre os agentes, a desintermediação e a desburocratização sejam pilares essenciais do funcionamento dos mercados eficientes, dos mercados que estão ao serviço dos indivíduos concretamente considerados. Rodrigo Adão da Fonseca

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