13 fevereiro 2006

Sobre a OPA da SONAE e a avaliação do management da PT feita pelo mercado

Uma OPA como a que foi lançada pela SONAE sobre o capital da PT tem, na perspectiva do oferente, uma série de riscos acrescidos face a uma OPA de menor dimensão, os quais têm de ser bem medidos antes do anúncio da operação. Assim, e ainda durante o processo da OPA colocam-se, v.g., potenciais dificuldades pelas Autoridades da Concorrência e até riscos de imagem pela não concretização da operação. Numa fase pós-OPA subsistem riscos de perda de valor, v.g., pela não concretização de sinergias, por dificuldades de alinhamento cultural entre os colaboradores das diversas empresas, pela dificuldade de as redimensionar, pela verificação de riscos não previstos, pela incerteza que paira sobre a rendibilidade da rede fixa no médio prazo. Estes riscos são - ou devem ser (nem sempre são) - objecto de mensuração antes do lançamento da OPA, e acrescidos ao valor da cotação, para comparação com o valor real (e potencial) da empresa visada. Por isso, dizer que a actual administração da PT tornou a empresa apetecível, em tom de elogio, não faz qualquer sentido (faço referência ao post do PPM, mas ao longo destes dias várias pessoas têm escrito neste mesmo sentido, inclusive, para minha surpresa, tem sido essa a linha dominante no DE). A Administração da PT, com maior ou menor responsabilidade, com maior ou menor margem de manobra, conduziu a que, na véspera do lançamento da OPA, houvesse um gap significativo entre a capitalização bolsista e o valor real e potencial da empresa, permitindo que a sua concorrência, descontados os riscos (brutais) da operação, ainda encontrasse entusiasmo e fundamento para lançar a Oferta. Estamos a falar, além do mais, de uma empresa que está numa posição de monopólio, pelo que parte, por essa razão, de uma posição francamente favorável. Não se pretende aqui crucificar a actual administração da PT, que em muitos planos terá (ou não) feito aquilo que as condições lhe permitiam (não é esse o ponto). Agora, o que é um dado de facto é que o mercado tem penalizado o título PT, em boa medida, entre outros aspectos, i) pela instabilidade institucional do seu corpo accionista; ii) pela bizarria de ter como pólo de equilíbrio um minoritário ambivalente como é o Estado; iii) pela atitude monopolista anti-cliente que por vezes cultiva e que prejudica a sua apetência junto do pequeno aforrador (ele próprio consumidor dos seus serviços); iv) pela dificuldade que o seu management sempre teve em promover efectivas reorganizações internas (dado o seu carácter substantivamente «para-público»), preferindo ser um dos maiores centros de distribuição de favores em forma de «jobs» (seja em «in» ou «outsourcing») que o país conheceu desde os anos 90. O falado interesse de Pereira Coutinho surge na sequência da iniciativa da SONAE, e dificilmente se traduzirá numa OPA concorrente. Pereira Coutinho lidera o Grupo SGC, que não terá sozinho facilidade em encontrar uma muleta financeira que suporte eventuais pretensões desta natureza; ser-lhe-á assim mais vantajoso reforçar as suas ligações ao Grupo SONAE, alinhando os seus interesses, participando na divisão do esforço da operação (e que se poderá traduzir na entrada de Pereira Coutinho no cabo e nos conteúdos); não será aliás difícil fazê-lo, pois Pereira Coutinho mantém uma excelente relação pessoal com alguns dos principais protagonistas do lado SONAE (v.g., Lobo Xavier exerceu durantes muitos anos funções no Grupo SGC, sendo ainda advogado das empresas). Nas próximas semanas poderão surgir outros interessados em dividir com a SONAE o esforço da OPA, tomando posição nos negócios que Belmiro e Cia tenham definido como não «core», ou que levantem obstáculos em sede de direito da concorrência. Mas desenganem-se os que no eixo Lisboa-Cascais ainda não digeriram a OPA (embora sempre tenham sido a favor do «funcionamento do mercado») e que aspiram a uma OPA concorrente que permita manter o status quo. Nada vai voltar a ser como dantes. Rodrigo Adão da Fonseca [Em stereo com O Insurgente]

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