27 abril 2006

Programas da manhã

Hoje por motivos profissionais tive de deslocar-me à cidade de La Coruña, o que implicou uma viagem de carro acompanhado durante quase duas horas pelos programas da manhã das distintas rádios nacionais (pena capital auto-imposta como castigo por me te esquecido em casa da caixa de CD's). É impressionante até onde é possível ouvir rádios portuguesas (perdi o sinal apenas à passagem de Santiago). Tal não é necessariamente bom... Gostava de saber que "speeds" tomam os apresentadores da RFM, da CidadeFM e da Rádio Comercial para àquela hora rirem, cantarem, e acharem piada às coisas mais inacreditáveis (como a que se ria quase com lágrimas contando a história de uma amiga que achava que a diskette num computador gravava sozinha os programas, bastando colocá-la na drive. So what? É preciso desfazer-se em directo de tanto rir?). Fico também estupefacto com o que certas pessoas fazem por dinheiro: algumas até cantam(?)! Não percebo essa mania de fazerem "jingles" cantados(?) pelos apresentadores a armarem-se em "malta fixe", cheios de risinhos de fundo, tipo recriando um ambiente de kindergarten para adultos que não cresceram, e com slogans do estilo "faz de conta que é sexta", ou "há quanto tempo não dás flores", colocando as pessoas que são normais constrangidas por não serem uns "grandes malucos" (mas só um bocadinho, que convém não ferir o politicamente correcto). E que dizer do "Petit só dá canela", e "O Scolari isto e aquilo": meus senhores, vocês não sabem cantar; poupem quem ainda está a acordar! Pior que os programas portugueses, só mesmo o que nos oferecem as cadeias de rádio espanholas... Neste deserto matinal em que me senti tratado como um verdadeiro camelo o único que se "safa" - quase um "oásis" - é o "Manhãs da 3", com o Nuno Markl e a sua "Vida em Markl" e o Bubu e as impagáveis "Bolas com Creme": adorei o qualquer-coisa-"placement" e a paródia dos "Morangos com Açucar"; humor a sério, verdadeiro serviço público, sem berros e com algum apelo - ainda que mínimo, que a hora não é para brincadeiras - à inteligência do ouvinte, que está com sono, mas não significa que tenha de ser tratado como uma espécie acéfala de adolescente tardio. Um pequeno reparo: às vezes as "Bolas com Creme" são barulhentas; mas o humor neste programa está mesmo presente, não precisa de ser induzido no ouvinte com gargalhadinhas de fundo... Para terminar, um desabafo: cada vez que vou à Galiza venho de lá mais impressionado com a pujança desta região, que durante séculos parecia, como certas zonas de Portugal, condenada à pobreza: pois, eu sei, cada um tem o que merece... Rodrigo Adão da Fonseca

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