28 junho 2006

Sobre o valor da opinião

Hannah Starkey, "Butterfly catchers", 2002
Algumas mentes iluminadas defendem, com orgulho, que um dado órgão de comunicação social, para ser isento e plural, deve viver na ausência total de linha editorial; infelizmente, esta visão deturpada fez escola, ao ponto de, em Portugal, ser corrente encontrar-se, num mesmo número, e lado a lado, quem defenda uma ideia para no verso da página se dar espaço à sua própria contradição (quem defenda, v.g., a intransigência da economia de mercado, para logo a seguir se classificar, com uma "seta para baixo", a iniciativa de um dado político que optou por assumir um plano de gestão de recursos humanos que, a prazo, permitirá a uma Câmara Municipal deste país dispor apenas de colaboradores contratados ao abrigo do contrato individual de trabalho, por tal "implicar a perda da noção de serviço público"). Mas será que assim se defendeu um ambiente verdadeiramente "plural" na comunicação social? Na minha humilde opinião, em Portugal confunde-se com frequência independência com isenção, informação com opinião. No fenómeno de comunicação, deve haver espaço para a informação, e lugar para a opinião. Aliás, durante muito tempo vivemos sob a ditadura da informação, desvalorizando-se com frequência a produção de opinião, dada a "canonização" da ideia de "isenção". Tal conduziu a que muita da informação consumida durante as três últimas décadas mais não fosse do que opinião travestida de informação. Com receio que os seus órgãos de informação fossem catalogados com certas e determinadas linhas ideológicas, muitos empresários que investiram na comunicação social ao longo dos últimos trinta anos permitiram que os seus investimentos se tornassem falsos "eunucos", supostamente "independentes", embora só o fossem formalmente. Esta ideia de "independência" que imperou numa boa parte dos nossos media é, porém, perversa, pois não existem no mundo indivíduos ou grupos sem vontade própria, valores e interesses particulares a defender: assim, independência será a capacidade que cada um tem de assumir aquilo que é, do que quer para si e para a sociedade em que vive: é esta a essência da política, da economia, e também da opinião. O pântano em que se transformou uma parte significativa da produção de opinião em Portugal é o resultado da ausência de liberdade editorial e de um verdadeiro pluralismo; e, entenda-se, o que se passa em Portugal não é seguido na generalidade das democracias mais avançadas. Veja-se o exemplo da vizinha Espanha, onde os jornais têm uma linha editorial bem marcada, desde o ABC, ao La Razón, ao El País, ao La Vanguardia; as pessoas sabem o que compram, e a opinião é emitida sem restrições e submissões aos ditames de um determinado "politicamente correcto". Há espaço para todos, e de uma forma (apesar dos defeitos da mediatização espanhola) mais transparente. Uma sociedade para ser "plural" e "livre" não pode viver enfeudada a órgãos de informação esquizofrénicos, nem os jornais estão forçados a transformarem-se em "melting pots" ideológicos, incongruentes, em constante contradição. Existem, aliás, benefícios óbvios para o funcionamento das sociedades quando se sai fora das amarras de uma asserção monolítica da ideia de "isenção" e se avança para um ambiente onde a opinião livre e responsável é – efectivamente – promovida e valorizada. Basta observar o que se passa nos países onde os cidadãos exigem a quem produz informação que assumam, de uma forma transparente, as suas convicções e posições. Compare-se, a este título, aquilo que foram os processos eleitorais norte-americano e português, entre Outubro de 2004 e Fevereiro de 2005. Nos EUA, a generalidade dos órgãos de informação, jornalistas e colunistas, e até departamentos de economia e think tanks, tomaram posição por um candidato ou outro, fundamentando a sua opção. As propostas eleitorais foram dissecadas até ao mais ínfimo pormenor, no plano da adequação e da sua exequibilidade; com rigor, as pessoas tomaram posição, e assumiram com clareza as suas opções (veja-se, v.g., este editorial do The Economist). Aqui, neste cantinho, foi possível eleger um primeiro ministro que prometeu cento e cinquenta mil empregos, um choque tecnológico, rigor nas contas públicas sem despedimentos e sem diminuição das prestações sociais, fomentando a recuperação económica a partir do investimento público em betão e trilhos de comboio, sem que houvesse uma oposição firme e bem vincada dos economistas de renome. E ainda aceitámos bem a encenação da "surpresa" com que José Sócrates derrogou quase todo o seu contrato eleitoral, dois meses depois de tomar posse, à laia do (pretenso) desconhecimento da realidade do estado de um país a cuja governação se candidatou. A mesma encenação havia sido já protagonizada por Durão Barroso, dois anos antes. As dificuldades que os sucessivos governos encontram na aplicação de reformas e que as empresas enfrentam na relação laboral e na afirmação de uma verdadeira economia de mercado resultam em boa medida da pouca expressão que teve, ao longo dos últimos trinta anos, um tipo de imprensa que fosse capaz de apresentar, sem intoxicações e de uma forma coerente, uma certa visão da política, da economia e da sociedade, fora daquilo que são os clichés do socialismo. Sem uma corrente de opinião forte que fundamentadamente defenda e promova a economia de mercado, os valores do capitalismo, do individualismo e da liberdade, dificilmente se conseguirá uma efectiva mobilização de vontades que nos permita escapar a este ciclo vicioso que nos está "alegremente" a conduzir, enquanto país, à pobreza. Rodrigo Adão da Fonseca

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