31 agosto 2006

O que é a "racionalidade económica"?

Escreve o LA-C no seu A Destreza das Dúvidas (os itálicos são meus):
Para um macroecomista, e agora falo por mim, a racionalidade tem um outro significado e é uma hipótese útil. Num modelo macroeconómico assumimos que as pessoas não cometem erros sistemáticos, ou seja, que não são estúpidas. Tal implica que previsões ao longo do tempo, estarão umas vezes acima e outras abaixo da realidade. Em média, o somatório dos erros será zero. Ao longo do tempo os erros não deverão estar serialmente correlacionados. Por que é isto útil? Por uma questão de disciplina. Se admitir erros sistemáticos por parte dos agentes, consigo explicar tudo; basta que considere os erros que me dão jeito. Ao considerar que as pessoas não são burras, posso ver como um mundo idealizado funcionaria. Esta disciplina obriga-nos a não forçar as nossas próprias conclusões. Depois vê-se o que fica por explicar, e aí relaxam-se as hipóteses mais restritivas (como a de considerar que os mercados são perfeitos, que não há falhas de mercado, que os agentes são racionais, etc.). Penso que posso dizer (...) que esta é a abordagem neoclássica: Averigua-se o que se consegue explicar e prever com um modelo estilizado.
O grande problema deste tipo de abordagem neoclássica está em assumir-se uma dada racionalidade, um modelo ideal, singular, onde o comportamento tido como não estúpido é só um (embora perceba o seu interesse académico). Na verdade, a conduta dos agentes é, desde logo, plural, induzida por uma multiplicidade de motivações da mais diversa índole. Aliás, a expressão "racionalidade" é, em si mesma, ambígua: ainda mais quando se opta por definir racionalidade, a contrario, como sendo a síntese dos comportamentos que se assume serem não estúpidos, aquela que resulta de uma acção onde não se produzem erros sistemáticos. Com franqueza, nunca percebi bem o que tudo isto significa. A decisão racional - tal como a apresenta o LA-C - pressupõe que todos os agentes actuam movidos por idênticas motivações, dotados das mesmas capacidades, de igual nível de aversão ao risco e apetência pelo esforço. Implica, também, que todos os agentes dispõem do mesmo nível de informação, e que na tomada de decisão os aspectos emocionais e particulares (disponibilidade de cada um, meras preferências, percursos de vida e experiências) são irrelevantes. Os empreendedores são os agentes mais relevantes na dinamização do mercado; pautam o seu comportamento pela busca das oportunidades num ambiente de incerteza; são eles quem reconhecem/identificam/criam os bons/maus negócios, antes que eles se tornem evidentes aos olhos da generalidade dos cidadãos. Pouco se sabe sobre os mecanismos cognitivos que levam os empreendedores a identificar uma oportunidade e a avançar para os seus investimentos. Alguns autores consideram que a decisão é o fruto de um significativo esforço na procura de oportunidades (Vesper); outros, defendem que o empreendedor é o que dispondo de um maior volume de informação, tem a capacidade de percepcionar melhor as oportunidades, podendo assim monitorar de uma forma mais efectiva o risco do investimento (na linha de Kirzner). Certo é que o feeling, as aptidões pessoais para executar uma ideia, a própria capacidade de persuadir os potenciais consumidores, tudo isto faz parte de um universo amplo cuja racionalidade é imprevisível. A economia deve por isso centrar-se nos processos, e compreender que o mercado não é um fenómeno singular, mas sim plural: devemos, pois, falar em "mercados", e não em "mercado"; em "motivações", e não em "racionalidade". Importa, ainda, perceber que a economia se move no campo da imprevisibilidade, tendo uma raiz subjectiva - depende de milhões de decisões complexas que se formam na mente dos agentes. Por isso, mais do que saber o que é a racionalidade económica, importa perceber, entre outros aspectos, como se trabalha a informação, como se gere o risco e a incerteza, quais as premissas do processo de decisão individual. Rodrigo Adão da Fonseca

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