08 setembro 2006

Revista de Imprensa

Há na esquerda quem não goste da linha editorial da Dia D (revista que acompanha o jornal Público, agora às sextas-feiras); quem ler os dois artigos de opinião de hoje, escritos pelos Insurgentes António Costa Amaral e Fernando da Cruz Gabriel, poderá perceber o porquê deste mal-estar, pois ambas as colunas, pela sua qualidade, rigor e clareza, poderiam ter sido publicadas em muitas das revistas internacionais que habitualmente vemos. Para ler, reler e guardar: "Estalinismo social", opinião de António Costa Amaral (para mim, o seu melhor texto até hoje); "Lendo os russos", opinião de Fernando da Cruz Gabriel.
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No Diário Económico de hoje, António Carrapatoso publica um texto brilhante, a que chama "Neo-reaccionários", e que aqui se reproduz:

Marx tinha razão quando dizia ser necessário dar mais poder aos trabalhadores para eles serem mais felizes. Em 1848 Marx publicou com Engels ”O Manifesto Comunista” e mais tarde em 1867 o primeiro capítulo da sua obra económica fundamental ”O Capital”. Marx acreditava que a única forma de alcançar uma sociedade feliz e harmoniosa seria com os trabalhadores no poder, o que representaria o último estádio do desenvolvimento, depois de o capitalismo ter soçobrado devido, nomeadamente, às suas contradições internas e à luta de classes. Segundo Marx os patrões exploravam os trabalhadores, apropriando-se das mais valias por eles criadas, devendo por isso os trabalhadores organizarem-se em sindicatos para combater os patrões e mais tarde tomar o poder nas suas próprias mãos, passando toda a propriedade dos meios de produção para o Estado. Marx foi excessivo ao antecipar o fim do capitalismo e ao desprezar o papel dos empresários, e ingénuo ao não antecipar as distorções e ineficiências provocadas por um Estado comunista.

Mas tinha razão quando dizia ser necessário dar mais poder aos trabalhadores para eles serem mais felizes. Marx não antecipou que seria possível compatibilizar e encontrar um equilíbrio virtuoso e dinâmico entre o papel e poder dos empresários e o papel e o poder dos trabalhadores. Também não antecipou que mais relevante do que falar em classes, (que se tornaram cada vez menos homogéneas e menos estáveis), e na luta geral dos trabalhadores, seria falar e apostar em incentivos, competências e motivações individuais, num modelo social selectivo e sustentável e na valorização e responsabilização de cada cidadão, sendo esta a base da construção e desenvolvimento da Sociedade e finalmente do aumento de poder do trabalhador. Existem boas razões para desculpar Marx. Na altura em que Marx publicou as suas teses os mercados eram principalmente locais e poucos competitivos, existiam muitas posições dominantes, não existia uma adequada regulação e fiscalização das práticas duma sã concorrência, o sistema social era muito precário e os trabalhadores tinham, duma forma geral e à partida, um nível de educação e de qualificação reduzidos. Os patrões tinham, assim, um elevado poder face aos trabalhadores, que se encontravam numa situação de elevada fragilidade e que dificilmente poderiam aspirar a serem eles próprios empresários. Mas o Mundo entretanto mudou e muito, em particular nas últimas décadas. O sistema educativo tornou-se mais abrangente e eficaz, massificando o acesso ao ensino, as políticas sociais ficaram mais consequentes, as tecnologias de informação facilitaram um acesso individual ao conhecimento e à possibilidade de comunicação duma forma independente, o cidadão adquiriu muito mais poder como agente económico, seja como trabalhador, produtor ou consumidor. Por outro lado, a globalização e abertura dos mercados e as suas políticas e práticas de concorrência reduziram as ameaças de poderes empresariais dominantes e as margens de lucro excessivas e levaram os empresários a procurar obter e reter os melhores recursos, nomeadamente humanos, para os seus projectos, por forma a tornarem-se mais competitivos. Existe ainda hoje quem viva agarrado aos velhos paradigmas do passado, em parte por razões associadas a uma dificuldade de compreensão das mudanças verificadas mas, principalmente, porque essa é a única forma de defenderem o seu estatuto e não terem que entrar em contradição com as propostas que têm defendido para a Sociedade. Na prática não querem que os cidadãos tenham mais poder, sejam mais qualificados, independentes e informados e possam encontrar o seu próprio caminho. Preferem ter cidadãos fragilizados e assustados, que acreditem na manutenção da segurança de emprego (apenas aparente), para que se mantenham fiéis e dependentes das instituições e organizações políticas ou sindicais que lideram, mesmo que esse seja o caminho para o empobrecimento e infelicidade. Não aproveitam assim a parte boa e revolucionária da teoria de Karl Marx: a importância de dar poder e alternativas aos trabalhadores (neste caso individualmente considerados), aproveitando todo o seu potencial e permitindo a sua realização. Não os podemos desculpar como a Marx, dado o contexto e desafios actuais com que nos confrontamos. Porque o seu posicionamento é contrário à dinâmica de desenvolvimento da Sociedade e à felicidade dos cidadãos, mesmo que não sejamos partidários de rótulos, não podemos deixar de os designar de ”Neo-reaccionários”. António Carrapatoso, Economista

Rodrigo Adão da Fonseca

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