17 setembro 2006

Xanax

A discussão sobre o aborto está de regresso. O Rui de Albuquerque decidiu dar o pontapé de saída. Na minha humilde leitura, entendo que neste texto, aqui, sem se emitir opinião, se menoriza uma boa parte dos que até hoje se têm empenhado na discussão desta difícil matéria. O argumento central constante no post referendo ao aborto assenta no alinhamento [em oposição a uns (a favor) e a outros (contra)], por um (para mim) vazio politicamente correcto, coroado com uma frase (no Rui) deveras surpreendente: «é conveniente que uns e outros não transformem o referendo num processo de disputa político-partidária ou religiosa, mas que estejam seriamente empenhados em encontrar respostas para um dos mais difíceis problemas do nosso tempo». Nunca pensei encontrar num texto do Rui, e de uma forma tão taxativa, sobrevalorizada uma visão «realista» que ao mesmo tempo desqualifica o contributo das ideias (ou será das pessoas?), tenham elas um fundamento político, partidário ou religioso. Considerei, de facto, que este post denotava um certo guterrismo, e por isso convidei o Rui a desenvolver a sua posição sobre a matéria. Pelos vistos, o meu comentário teve o condão de tirar o Rui do sério. Ou nas palavras do próprio, «Confesso que, ao fim de (quase) quatro décadas e meia de existência, poucas são as coisas e as pessoas que são capazes de me "tirar do sério"». Fico satisfeito por saber que o meu grande amigo Rui ainda não perdeu a capacidade de se indignar. E como se indignou! Já agora, talvez valha a pena recuperar o meu comentário que despoletou no Rui sentimentos tão raros e intensos:
Caro Rui, Ficas bem no papel de Guterres, politicamente correcto, mediando o diálogo. Vou também gostar de ler a forma como vais explicar a tua posição sobre o assunto, e como irás certamente enriquecer o debate. Um abraço, RAF
Comentário meu, certamente irónico. De crítica a um texto - relembro, a um texto - que se posiciona acima do debate mediante uma não posição, num estilo que muito agradaria ao Monsieur de la Palisse, justificada em algo que é óbvio: o aborto é um flagelo terrivel, e que urge resolver. Uma coisa é certa. Para quem iniciou a discussão colocando-se acima de Deus e do Diabo, o Rui rapidamente desceu à terra, escrevendo um texto bem próprio dos que se indignam com facilidade: o que, diga-se, é caso quase único. Tanto por tão pouco. E que apenas se explica dada a importância do tema. Quanto ao teor do que aqui está escrito, pouco há a dizer: todos temos direito aos nossos momentos de infelicidade. Agora, caro Rui, relembro-te algo que estás fartinho de saber: não tenho por hábito - na minha vida pessoal nem naquilo que escrevo - colocar os outros no perímetro da critica quando estão em causa, entre outras, matérias de ordem moral ou de costumes. Por isso tenho pena que tenhas escrito isto - com um título destes - misturando pelo meio o meu nome. Tenho pena. As más surpresas por vezes surgem de quem menos esperamos: guterrando eu também um pouco, só me dá para dizer: «É a vida». Rodrigo Adão da Fonseca

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