30 outubro 2006

Eu leio o Eduardo Prado Coelho (sempre que posso)

"A História nem sempre recorda os que bebem champagne".

"Por isso me preocupo sempre em beber Vinho do Porto".

Alguém que eu conheço mas que não digo quem é, in "Tudo o que os homens sabem sobre as mulheres", edição doméstica, aqui desvendado sem autorização do autor, obra de elevado calibre mas que não está publicada, e que se encontra em constante renovação (uma espécie de blogue em papel); citado de cor.

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Quem diminui transversalmente a blogosfera ao mesmo tempo que afirma não a conhecer só pode ser um inimigo da liberdade. Ou então, escreve sobre o que não conhece.
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Um blogue não passa de uma ferramenta virtual; em nada difere de uma página em branco, que cada um preenche como entende.
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Um papel, em si, não tem valor, que depende daquilo que o escritor lá inscrever. Pode assim transfigurar-se, tornar-se numa obra prima da literatura; ou dar lugar ao balanço de uma empresa, à conta-corrente da mercearia de uma viúva, ao diário de uma adolescente, à vingança fria de um político derrotado, a uma história para contar às crianças, aos filhos e netos; ou, simplesmente, permanecer em branco, à espera que se lhe dê vida. Recordo uma edição que alguém um dia comprou, já lá vão duas décadas - "Tudo o que os homens sabem sobre as mulheres" - de conteúdo literalmente imaculado, recheado de páginas brancas; esse livro tem vindo a ser preenchido, com especial humor; dele constam citações sobre tudo e nada, frases feitas ou imaginadas que em muito extravassam o que o próprio título inicialmente parecia condicionar.
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Não faz sentido falar em "blogues", generalizando as críticas; estes são também uma extensão das pessoas que os dinamizam. Temos por isso blogues inteligentes, trauliteiros, polidos, sofisticados, populares, brejeiros, egocêntricos, generosos, de esquerda, de direita, assim-assim, de futilidades, literatura, pornografia, poesia, defensores de causas, do não, do sim, do nunca, do sempre, utópicos, realistas, conservadores, progressistas; blogues masculinos, femininos, hetero, homo, de futebol, de cozinha, onde se ama a arte, se odeia o próximo, se difama e insulta; há ainda os que cantam, dão música, rezam, exaltam a razão, as ciências ocultas, as religiões reveladas ou por revelar.
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Na blogosfera está o melhor e o pior ... da realidade. Aqui cada qual encontra o que quiser e vier procurar. Como poderia ser diferente? Os blogues são apenas um espelho do nosso tempo, que se desvendam a partir de um clique, numa dinâmica acelerada de construção, desconstrução e mudança. Quem não percebe - ou não quer perceber - o que aqui se passa, parou no tempo, algures num passado recente, mas que, curiosamente, está já bem distante. Não se pode compreender totalmente este novo século sem conhecer a internet e aquilo que ela representa.
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Aproveito ainda este post para vos contar um segredo: eu leio os textos do EPC. Sim. Quase sempre. Eu sei que ele diz que não lê blogues. Que se saiba, Derrida não teve um. Devia "penalizá-lo". Mas, meus amigos, me confesso: sempre que posso dou uma espreitadela naquela coluna, em busca de um momento de diversão. Como este, em que o nosso inefável literato, enquanto deambulava, algures nos Champs Elisees, digo, no Príncipe Real, encontra Manuel Pinho. EPC, estou certo, bebe champagne, français; a escrever assim, vê-se bem que o prefere ao bem luso Vinho do Porto. Enquanto não passa à história, meus caros, aproveitem, que os seus textos podem propiciar raros momentos de humor! Leiam-no! Vão ver que ficam mais bem dispostos. Rodrigo Adão da Fonseca

P.S. (corporativista): O texto de EPC no Público é particularmente injusto porquanto envolve na sua crítica, pelo menos, uma das pessoas mais correctas e civilizadas que conheci nestes meandos, o LA-C.

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