02 outubro 2006

Os "eunucos da política"

André Freire junta-se hoje ao núcleo dos "eunucos da política". Ou, como o próprio refere:
são de saudar alertas como o que vários intelectuais subscreveram no Público (27/09): "Compre-me isto Portugal".
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Talvez por não conseguir abstrair das suas (de)formações marxistas, para sustentar a tese da "tibieza das respostas" do "Compromisso Portugal", André Freire faz um enorme esforço na recuperação da velha retórica dialéctica do "nós" contra "eles", da "direita-esquerda", grelhas ultrapassadas mas que servem o seu desiderato: colocar, de um lado, os que como ele funcionam como "contraponto (...) às ideias liberais", auto-intitulados "intelectuais", e que contribuem para o "progresso social"; e do outro, "a direita dos interesses", representada por "interesses empresariais" apostados em fazer passar a mensagem "neoliberal e neoconservadora: as revistas Atlântico e Nova Cidadania, o Fórum para a Competitividade e o Instituto de Estudos Políticos da Católica".
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Assim, os que promovem uma determinada linha de pensamento - a sua esquerda (seja lá o que ela seja) - são "intelectuais"; os que, por seu lado, frequentam o IEP, escrevem na Nova Cidadania ou na Atlântico, e participam no Compromisso Portugal, fazem parte da "direita dos interesses".
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A forma maniqueísta como o André Freire coloca, de um lado, os "intelectuais", e do outro, a "direita dos interesses" representa um retrocesso no "confronto de ideias", e em nada contribui para o progresso da "ciência".
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Aos "eunucos da política" dedico o meu texto de sexta-feira, a publicar na Revista Dia D, "O Regresso ao Individualismo".
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Não deixa de ser irónico que o registo, digamos, "neo-ultra-liberal", que há um ano atrás era unanimemente considerado minoritário, agora, pelos vistos, e fazendo fé nas palavras do André Freire, esteja reabilitado: "vivemos tempos de hegemonia das ideias neoliberais". Será?
Rodrigo Adão da Fonseca

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