16 novembro 2006

Blue Lounge recomenda: Sócrates na Esquerda

"Na falta de uma teoria e de um programa, a esquerda acabou por se transformar num sentimento" Vasco Pulido Valente in Público (Sábado, 11.11.2006)
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(junta-se o artigo na íntegra)
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Última Página * Sócrates na esquerda * Público, Sábado, 11 de Novembro de 2006 * Vasco Pulido Valente * A esquerda acabou por se transformar num sentimento, que Sócrates não inspira e que ele próprio com certeza não partilha. O Diário de Notícias resolveu fazer duas perguntas a uma dúzia de personalidades de esquerda. Primeira: “O que é a esquerda?” Segunda: “É Sócrates de esquerda?” O resultado merece um comentário. Com pequenas variações de ênfase e de estilo, a esquerda acredita no eterno aperfeiçoamento do homem, no inconformismo, na mudança, na liberdade e na justiça, e também, hoje em dia, na defesa à outrance do Estado-providência e na profunda perversidade da “globalização”. Tirando o optimismo antropológico, “filosoficamente” (se a palavra se aplica) nada a distingue da direita. Só o amor ao Estado-providência (e, mesmo assim, mais bem “gerido”) e a hostilidade à “globalização”, aliás reaccionária e frívola, a separam ainda da ortodoxia vigente. Removido o marxismo e o mito histórico da revolução francesa (para não falar na russa), a esquerda, em princípio, deixou de existir. Isto evidentemente torna dificílimo classificar Sócrates. Excepto um ou dois funcionários do Governo, ninguém se atreve a dizer que ele é de esquerda. De texto, a maioria “moderada” responde com uma graça ou um sofisma e os “radicais” (PC e arredores do Bloco) dizem taxativamente que não: o homem não passa de um “noeliberal” ou de um “social-liberal”, muito pior do que um PSD. Ao contrário do que se possa julgar, na essência não se trata aqui de política. Na falta de uma teoria e de um programa, a esquerda acabou por se transformar num sentimento. Um sentimento que a figura reservada e autoritária de Sócrates não inspira e que ele próprio com certeza não partilha. O PS gostava de Soares, pela pessoa. Até não desgostava de Guterres, pela acessibilidade, a fraqueza e a parlapatice. E gosta hoje de Alegre pela pose e a retórica. Mas não gosta de Sócrates. Sócrates não pertence à família. Nem à do PS, nem à da “esquerda”. Blair, por exemplo, conseguiu substituir o vácuo ideológico do “novo trabalhismo” por um permanente melodrama. Não havia destino. Em compensação, havia emoções. Mas Sócrates não se dá bem com emoções. Não as parece ter, nem as sabe provocar e usar. Quando sai da sua geral reticência, acusa, critica e ameaça. Repele, não atrai. A esquerda e o PS precisavam de uma justificação e uma desculpa para o trabalho “sujo” de reduzir o défice, que ia claramente contra a sua natureza. Sócrates não compreendeu esta evidência. Para ele, a necessidade chegava. Para a esquerda e o PS, não chega. Sem a convicção, ou ilusão, da sua intrínseca virtude e do seu combate contra o mal do mundo não conseguem viver. Consigo ou, a prazo, com Sócrates.
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Rodrigo Adão da Fonseca

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