Greve de Cidadania (Dia D, 26.01.2007)

"Nós, os pensadores, estamos em greve. (…) Contra a crença nos benefícios não merecidos e nos deveres não recompensados. Estamos em greve contra os dogmas que nos impedem de perseguir a nossa própria felicidade". Ayn Rand, Atlas Shrugged

Numa estação do metropolitano, perdida na periferia da Europa, John Galt aguarda pela carruagem que teima em não chegar. O tempo passa e não há forma de seguir viagem. Todos os dias a mesma coisa. Sucessivos atrasos. Hoje aparentemente há uma greve de maquinistas que lutam pelo direito a um emprego sem trabalho. Protestos que se repetem, que os próprios consideram legítimos, que paralisam as cidades. Pouco importa que as empresas de capitais públicos e o Estado acumulem sucessivos défices. Na subcave desta metrópole umbigocêntrica acompanham Galt na sua espera milhares de cidadãos. Pacientemente, olham o infinito, o fundo do túnel. Olhos tristes que falam derrota. Como que suplicando que alguém os transporte confortavelmente rumo a um destino que ignoram, ou fogem de conhecer, alienados que estão nas suas pequenas diversões e rotinas onde alentam as suas esperanças vãs. O túnel, como todos os túneis, é escuro, mal iluminado. Nesta claustrofobia definham milhares de cidadãos, habitantes do Reino da Incerteza, paralisados, com medo do futuro. Uma voz bem sincronizada acalma-os. Vinda do Além, convida os passageiros, num tom pausado, a esperar ordeiramente; os "responsáveis", os que trilham os caminhos e definem os destinos, estarão a planear uma "solução" que irá permitir ultrapassar todos os atrasos. Pede-se algum tempo, espírito de sacrifício e compreensão por mais este transtorno. Todos os dias a mesma voz, dia após dia, semana após semana, anos de atrasos e planos que se anulam e renovam e adensam e falham. Mais um pedido de desculpas. De tempo. Apela-se ao sacrifício colectivo. Reaviva-se o sopro das massas com um "plano diferente", em tudo semelhante ao anterior. Este é o ritmo lento de uma sociedade que penhorou as suas liberdades acreditando que em troca conseguiria superar, para lá dos indivíduos, sucessivos estados de necessidade. Vive-se a imposição envergonhada de colectivismos híbridos, invisíveis a olho nu, que vestem a falsa capa da propriedade para depois exigir que a maior parte do esforço produtivo seja canalizado para alimentar uma vazia mas voraz máquina promotora de um pretenso bem comum. A maioria dispõe hoje de casa, carro, supostamente acesso à saúde e à educação. Contudo, nesta relativa abundância material, vive insatisfeita; nada de especial, pois é esse o estado natural do Homem. Falta, contudo, a toda uma massa de cidadãos algo que é, também, especificamente humano: a vontade, o arbítrio, o poder de escolha, a capacidade de reagir, de se indignar e ser ouvido, de dispor de si e dos seus nos aspectos essenciais da sua vida. Vivem manietados, limitados que estão na busca da própria felicidade. Para lá de um mundo irreal, projectado por políticos e desenhado nos media, subsiste uma realidade agreste e tributária. Apenas tolerada porque prevalecem novos ópios, vidas alicerçadas em fugas, ilusões e esperanças; suportadas na crença na viabilidade dos "novos" planos, na exigência de ajuda exterior nascida dum esforço colectivo no qual ninguém quer participar. Sonha-se com o dia da reforma, fixado por decreto, com a possibilidade de poder esperar pela morte num ambiente mais leve, quase infantil, num limbo, em liberdade condicional. John não tem emprego nem trabalho. Embora qualificado. Ao contrário de alguns dos seus amigos, porém, não tem medo do futuro. Possui a energia que faz mover o mundo: não abdica de pensar, nem perdeu a ânsia de ser livre. Dentro de si ferve a vontade. Não quer viver sempre à espera, à espera daquilo que os outros lhe possam trazer. Quer construir o seu futuro. Fazer as suas escolhas. Não precisa que lhe apontem o caminho. Quer fugir deste mundo de promessas, em que se oferecem garantias e direitos em troca das liberdades, em que se enfraquece o Homem e a sua vontade, esvaziando-o e condenando-o lentamente, primeiro à mediania, depois à miséria, a uma vida sem horizontes, sem objectivos, sem riscos, sem escolhas. Dispensa viajar num comboio que teima em não chegar, sucessivamente requisitado para servir outros interesses. Não quer nada a que não tenha direito. Nem espera que lhe exijam mais do que é devido. Só quer poder seguir o seu caminho.

John decidiu fazer greve. Ao Metro. À sua participação em "projectos colectivos". Rasgou o bilhete que o levaria um dia numa viagem vendida como segura, mas onde alguém lhe trilharia o percurso. Levantou-se, subiu a sua montanha; evitando a longa escada rolante, abandonou a estação, regressou a casa pelo seu próprio pé.

Partiu.

Rodrigo Adão da Fonseca

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