Sobre a suposta "crise" da mediação

Parte da imprensa escrita está em crise porque os hábitos mudaram, os potenciais leitores têm cada vez menos disponibilidade – temporal ou mental – para ler jornais e revistas. O tempo de reflexão, de facto, alterou-se. O espaço e os hábitos dos leitores, igualmente. Mas as mediações não estarão em "crise", também, por demissão e inércia dos que supostamente "estão no meio"? Se os cidadãos têm menos tempo para reflectir, se vivemos, diz-se, numa "sociedade de informação", se existem como nunca múltiplos canais de distribuição à disposição, se os consumidores potenciais têm hoje mais recursos do que no século passado, não deveria estar a acontecer o inverso, ou seja, não haverá, potencialmente, uma maior valorização de quem produz conteúdos, de quem assume que tem uma função de mediação? A suposta decadência da imprensa escrita muito se deve à incapacidade dos seus promotores – boa parte deles são os que se "queixam" – acompanharem a mudança. A distribuição, por exemplo, em muitos casos, não se adaptou aos novos modos de vida. Os jornais gratuitos têm tido sucesso, não apenas porque o leitor não paga dinheiro por eles, ao mesmo tempo que criam valor face ao preço (o tempo que se dispensa a lê-los), mas também por serem fisicamente acessíveis: o esforço para a sua obtenção é quase nulo (basta esticar um braço ou abrir a janela do carro); se os leitores tivessem de se deslocar a um quiosque ou a uma bomba de gasolina, ou mesmo desviarem-se cem metros do seu trajecto, será que os jornais gratuitos teriam tão larga aderência? Os jornais e revistas custam tempo e dinheiro, entrando assim no processo de escolha dos consumidores. O que está a "matar" alguns media tradicionais é a subserviência ao politicamente correcto, ao vazio da notícia "imparcial" que "cheira mal" à distância, o clientelismo na opinião, o sacrifício de linhas editoriais claras e independentes à tentativa do "catch all", à superficialidade, à futebolite, aos "casos" dramáticos da vida "real"; são estes os factores que, aos poucos, têm vindo a afastar os leitores que estão dispostos a pagar o preço. Um jornal, v.g., que demora no mínimo meia hora a ler, e pretende cobrar um euro por dia; mas reduz o seu conteúdo a propaganda governamental; em vez de colunistas, dá voz a "senadores", repartindo o espaço para agradar, não os leitores, mas cliques partidárias ou grupos de pressão; se boa parte dos jornalistas não é capaz de fazer um juízo crítico sobre o que o rodeia; não estará – e bem – condenado à falência? Se a mediação é má, o leitor não paga o preço. Os media tradicionais têm um papel relevante, mas não deixam de ser negócios, iguais aos outros, sujeitos à concorrência, à ditadura dos consumidores, e, pasme-se, à mudança. Quem não for capaz de gerar valor para o consumidor de o fazer pagar um preço que este considere justo, morre (e muito bem). Rodrigo Adão da Fonseca

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