28 fevereiro 2007

'Anti-Americanismo: Razão e Emoção na Relação de Amor-Ódio com os EUA'

Joe Rosenthal, ' Iwo Jima Flag Raising ', 1945
Sexta-feira passada (na excelente companhia dos 'blasfemos' Rui a., Gabriel Silva e CAA, vigiados de perto pelo JPLN e, à distância, pelo 'insurgente' Rui Oliveira) assisti ao debate ‘ Anti-Americanismo: Razão e Emoção na Relação de Amor-Ódio com os EUA ’ na livraria Almedina do Arrábida Shopping, dinamizado por José Pacheco Pereira, António José Teixeira e Richard Zimmler, e moderado por José Pedro Teixeira Fernandes. Dei o meu tempo por bem gasto, quer pelo debate em si, quer pelo bom humor do Rui a., nessa noite particularmente inspirado. Fica aqui um curto contributo sobre o tema e o que lá se discutiu.
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Entre a Europa e a América existem óbvias diferenças. Do qual o sucesso da Google é paradigmático. Apresentado como o novo arquétipo empresarial americano, a Google é co-dirigida por um russo, de 32 anos, que emigrou para a Califórnia aos 18 anos, perseguindo o seu ' american dream '. Aí encontrou todas as condições para dar largas à sua criatividade, primeiro na UCLA, depois em Silicon Valley. Quem se atreverá a dizer que a Google não é genuinamente americana? Os EUA sobreviverão, enquanto forem capazes de ser o país das grandes oportunidades.
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Um certo mainstream gosta de projectar nos media, com ar grave, de um lado, uma ‘América Boa’, contraposta a uma dada ‘América Má’. Esta visão, maniqueísta, só se explica se assumirmos que muitos europeus persistem, mesmo depois do fim da Guerra-Fria, em construir a sua identidade na comparação com a América. Como um irmão mais novo, que busca ainda o seu espaço, cuja personalidade está marcada pela sombra do (e na relação com o) mais velho. Grande parte dos europeus manifesta uma enorme dificuldade em manter uma saudável equidistância face à(s) realidade(s) dos EUA, que sentimos como a nossa casa, que sistematicamente tentamos sufragar e moldar. A inversa, porém, não se verifica, pelo menos com a mesma acuidade.
Talvez tal resulte do facto da Europa ser excessivamente ‘desejo’, e a América muito mais ‘acção’.
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A Europa (os europeus), porém, tem (têm) os seus desafios, e um caminho próprio para percorrer. Curiosamente, preferimos debater a ‘América’ do que a ‘Europa’, o que bem demonstra qual é, no fundo, o nosso farol e porto de abrigo.
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O mundo unipolar não tem, a prazo, sustentabilidade. Se é que ainda existe (ou existiu). O espaço deixado vago pela decadência da URSS está paulatinamente a ser ocupado pela China, pela Índia, pela própria Rússia, e por focos de instabilidade regional onde o peso dos EUA ou da ‘comunidade internacional’ se tem revelado intermitente (como são os casos do Médio Oriente ou de uma parte do mundo latino). Por várias razões (posição geopolítica, envelhecimento da sua população, uma certa perda do espírito de iniciativa, e da capacidade militar e de criação de riqueza) a Europa apresenta uma série de vulnerabilidades que põem em causa a sua sobrevivência ou, pelo menos, a sua coesão e estabilidade. Neste contexto, mais do que moldar a América à medida das nossas aspirações, não seria preferível saber como poderemos resguardar o futuro, alinhando as nossas preocupações com as ameaças latentes que se desenham nestes novos mundos em ascensão, e que podem pôr em causa a nossa viabilidade e a paz? Fará sentido canalizar tantas energias para o exercício desta ‘prototutela’ da América, no fundo, um país que está, salvaguardadas algumas diferenças em muitos casos significativas, ainda assim, na nossa matriz cultural e civilizacional? Não será este exercício inútil, narcisista e até perigoso?
Rodrigo Adão da Fonseca

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