26 fevereiro 2007

Pluralismo e Liberalismo: sobreviverá a direita liberal ao (res)sentimento anti-religioso?

Portugal, ao contrário das democracias liberais pluriseculares, tem pouca tradição de liberdade. Por isso é frequente confundir-se pluralismo com egocentrismo, liberdade de expressão com mera maledicência ou puro mau gosto. A direita liberal, de matriz anglo-saxónica, tem uma relação equidistante com a religião. Esta faz parte do universo privado. Por isso não é de estranhar que católicos, judeus, protestantes, ateus, ou simplesmente agnósticos partilhem, sem dificuldades de maior, o mesmo património comum no campo das ideias. Tal não significa que a religião esteja fora do perímetro da crítica (nos EUA e no Reino Unido a Igreja foi amplamente censurada quando vieram 'a lume' uma sequência preocupante de casos de pedofilia; sendo ainda referenciada nos debates em redor das matérias relacionadas com a vida - contracepção, aborto, reprodução medicamente assistida, eutanásia - ou com os costumes - em especial, o reconhecimento das uniões homossexuais); agora, não está sistematicamente na ordem do dia, sendo raras, nos meios de comunicação mais idóneos, as críticas gratuitas, sem uma razão de ser que as enquadre. Cultiva-se uma noção de pluralismo que incorpora, ao mesmo tempo, as ideias de liberdade, tolerância, respeito e sentido de oportunidade. Fora deste quadro, não há direita liberal, muito menos conservadorismo, mas mero arrivismo e mediocridade, que tem o seu espaço de eleição nos tablóides sensacionalistas e nos media menos exigentes, destinados a um público que privilegia o entertainment. Há quem aspire a ser digno representante da direita liberal mas revele uma enorme dificuldade em compreender que há um caminho mais largo, para lá do mero conservadorismo, do ateísmo militante, das 'bengaladas' à moda da 1.ª República, ou da sátira ao estilo 'Bordalo Pinheiro'. A manter-se à flor da pele um espírito anti-clerical, manifestado quase diariamente, despropositado, totalmente desfasado do nosso tempo, estaremos condenados a ter um direita à francesa, fraccionada, repartida entre nacionalistas, conservadores, jacobinos e um liberalismo envergonhado que só com Nicolas Sarkozy começa finalmente a ganhar, junto do eleitorado, algum corpo. Queremos ter em Portugal, uma direita liberal agregadora, de matriz anglo-saxónica, plural, porque faz bom uso da liberdade de expressão? Ou preferimos cair na matriz jabobina, anti-clerical, fragmentária, que descamba com frequência no populismo, no discurso fácil, na crítica gratuita? Rodrigo Adão da Fonseca

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