02 Março 2007

Terá mesmo o PSD que enveredar por um discurso liberal?

(...) O PSD foi destronado do centrão; já não é o partido da eficiência. Tem de procurar outra identidade (...) Ou o PSD se assume com um partido liberal ou deixa de fazer sentido enquanto grande partido de governação. Ou o PSD se assume como partido liberal ou corre o risco de ir definhando. HR, Blogue da Atlântico (02.03.2007)

Tenho constatado, com frequência, haver, sobretudo entre os mais novos, uma vontade semelhante à que o HR manifesta no blogue da Atlântico. Vaticina-se que o PSD só terá futuro se enveredar por uma linha mais liberal, forçado que está pelas circunstâncias. Percebo o estado de alma de quem não quer ver o seu futuro adiado muito tempo. Infelizmente, tenho de discordar. Este tipo de análise, é mais do que wishful thinking; é de um determinismo algo ingénuo (reflecte até uma visão quase-marxista da realidade). Uma coisa é que muitos considerassemos tal hipótese desejável: eu, pessoalmente, gostaria que acontecesse; julgo que seria excelente para o país se os 'laranjas' regressassem ao governo com um programa liberal. Parece-me também pacífico que o regresso de Portas coloca o actual PSD numa posição desconfortável (tal é assumido nos corredores do partido de uma forma consensual). Agora, embora o futuro seja imprevisivel (não acomodando expressões do tipo 'só', 'tem', ou alternativas silogistas 'ou', 'ou'), daquilo que vou conhecendo do actual PSD o mais provável é que este mantenha o seu discurso social-democrata, de centro, 'colado' ao do PS, aguardando que a árvore socialista apodreça. À excepção de Cavaco, que soube 'ganhar' eleições, tanto PSD como PS têm ascendido ao poder por mera rotatividade e cansaço dos portugueses em relação ao(s) partido(s) do executivo, e não tanto por aderência do eleitorado às soluções alternativas propostas para a governação. Se retirarmos António Borges, que alinha num liberalismo bastante particular, temperado pelas sociais-democracias nórdicas, e Santana Lopes (que está 'arrumado' politicamente), nenhum putativo candidato à liderança - nem o próprio Marques Mendes - tem qualquer substracto liberal, ou acredita na possibilidade destas ideias serem capazes de galvanizar a grande maioria do eleitorado português. Acresce que boa parte do partido está convencida que o PS vai entrar em erosão, mas só após 2009. Poucos estão galvanizados para as próximas legislativas.

Se houver no PSD uma minoria liberal com alguma expressão já será um grande feito. Até porque os partidos de poder, como o PSD e o PS, podem sempre acomodar uma certa 'esquizofrenia ideológica'. Duvido contudo que o PSD parta neste momento para uma 'revolução cultural'; provavelmente limitar-se-á a um 'lifting' bem suave, e a uma travessia no deserto sem grandes maçadas.

Com um PS a viver de propaganda e sem ímpeto verdadeiramente reformista, e um PSD letárgico, Portugal adia reformas. É uma desgraça. Mas nem todos estamos condenados à riqueza e ao progresso. Nem todas as sociedades avançam. Algumas, por vezes, recuam. E o nosso quadro, de facto, não é o mais favorável.

Rodrigo Adão da Fonseca