11 junho 2007

O piquenique nos jardins do G8

Os governos dos países mais ricos reuniram-se, e logo um batalhão de alter-mundistas se juntou para um mega-piquenique, liderados nos media pelo patrão do Live Aid e ainda pelo vocalista dos U2. O G8 deliberou apoiar os países africanos na luta contra a SIDA e malária; de imediato os proto-pedintes europeus do costume resmungaram que era pouco. Na CNN, um ex-governante nigeriano, bem mais sensato, e sem deixar de agradecer aos músicos por terem colocado África na agenda, sempre foi avisando que toda a ajuda era bem-vinda. No mesmo canal, um antigo consultor do Banco Mundial coloca o dedo na ferida: todas estas ajudas perdem-se nos canais da burocracia, dos governos locais e das ONG's (muitas delas empregam os fãs dos piqueniques alter-mundistas) que gerem os programas de apoio e combate à doença, não havendo, nem critérios a cumprir por parte de quem aplica os recursos oferecidos, nem a necessária accountability do dinheiro doado. É incompreensível que largas regiões do continente africano, ricas em recursos naturais, com enormes potencialidades agrícolas, com baixa densidade populacional, sejam marcadas pela fome, doença, guerra, concentrem todas as misérias do mundo. Só que nem o problema se soluciona com as ajudas do G8 - que, ainda assim, devem ser concedidas, embora seguindo outros moldes na forma concreta da sua atribuição - nem a esquerda festiva tem, no plano moral, legitimidade para arguir a defesa desses povos: desde logo, porque o marxismo-leninismo (nas suas várias asserções) foi demolidor na África pós-colonial da segunda metade do século XX; mas não só: esta pobreza pode ser efectivamente combatida se levantadas as barreiras alfandegárias que fazem da Europa uma gaiola dourada; agora, estarão os defensores do Modelo Social i) dispostos a aceitar a concorrência, v.g., no sector agricola e de produção industrial intensiva? e ii) até onde aquele aguentaria caso se consagrasse uma efectiva liberdade de circulação de pessoas? As esquerdas da rua e dos piqueniques, dos lençois multicolores, das artes circenses em marchas pacíficas que redundam em violência não defendem soluções políticas coerentes, mas sim algo ao estilo sol na eira e chuva no nabal; talvez porque não estejam particularmente interessadas no combate à pobreza ou à doença, mas busquem apenas as bandeiras que, a cada momento, sejam as mais convenientes, algo que sustente as suas 'políticas de causas', que legitime aquele que é o seu objectivo político: a luta contra o capitalismo. Se querem ajudar os povos africanos, defendam o fim das barreiras alfandegárias; a liberdade de circulação de pessoas e a possibilidade de oferecer trabalho onde este seja preciso/valorizado; sejam a favor da qualificação do ensino e do desenvolvimento da agricultura nas regiões onde ela é mais produtiva; promovam o fortalecimento das economias africanas e das suas instituições para que estas se tornem atractivas ao investimento, local e estrangeiro; apoiem quem seja capaz de transportar o continente para um desenvolvimento compatível com as suas riquezas; deixem de lado soluções que servem apenas para aumentar as dependências, aliviar certas consciências, e rachar cabeças aos polícias que apenas estão a fazer o seu trabalho. Rodrigo Adão da Fonseca

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