04 julho 2007

Blue Lounge recomenda: o casado

Um excelente texto do HR no blogue da Atlântico.

Nunca fui nem o 6 nem o 8. Futebolisticamente falando, era um polivalente, aquele gajo que está na equipa para as ocasiões: fui central, líbero à Baresi (mandava o mister), lateral direito, esquerdo, o jogador que tapava os buracos da carismática equipa dos 'Merengues'; trajávamos de branco, com lista preta, à Real Madrid, espalhando o perfume de um refinado futebol (refinado, nem bom, nem mau, muito menos eficiente) nos torneios júniores da Associação de Futebol do Porto. Guardo excelentes recordações desses sábados. O nosso troféu máximo - sobretudo para os 'paitrocinadores' que apoiavam o nosso clube - foi a brilhante goleada à equipa que dava pelo infeliz nome de 'Comuna 25 de Abril' a quem espetámos 5-1 no mítico campo do Ramaldense. Recordo-me também, como se fosse hoje, de ver o nosso treinador a elogiar o seu rebento com um sonoro 'filho da puta', logo após este ter falhado um penalti num jogo contra o Infesta (curiosamente, jogávamos em casa, em campo emprestado ... pelo Infesta!). Lembro-me ainda do suíno do avançado do Monsanto que nos cantos me cuspia na cara (como é que o porquinho tinha tanto catarro é para mim um mistério), ao ponto de me ter impelido a dar-lhe uma bela de uma joelhada nos 'respectivos' (zona do corpo habitualmente designada na locução a la gabriel alves por 'baixo ventre'), penalizada apenas com um cartão amarelo; antes tivesse sido expulso, pois a partir daí as minhas pernas passaram a ser o alvo dos pitons (na altura, de alumínio) dos adversários.

Ainda novito, cheguei a jogar à baliza, num torneio inter-escolar em que o titular se magoou. Numa final de más recordações, onde os adversários - uns coños de Madrid - nos ganharam, acho, por 9-5, passei o jogo a ir às redes, fui cilindrado, remates de todo o lado, com o pé, com a cabeça, defendi alguns, o poste e a barra ajudaram bastante, mesmo assim encaixei nove, nove vezes pensei para com os meus botões ou resmunguei, 'foda-se para a bola, tá molhada', 'tapa o ângulo, caralho', 'ninguém fecha ao meio?', 'atenção ao ressalto', 'vai-lhe às pernas, amélia', 'quadra por dentro', 'o gajo não pode saltar'. Em vão, obviamente.

Os polivalentes são sempre muito valorizados, mas a sua função utilitária afasta-os do nirvana, do glamour, nunca chegam a ser as estrelas da equipa.

Por isso, com a adolescência e juventude, avancei no terreno, em busca do sucesso, para ponta-de-lança. A equipa onde estava jogava 'à Boavista', seguindo à risca o modelo Manuel José/Jaime Pacheco: todos à defesa, concentrados na pessoa do adversário, ignorar a bola, e eu sozinho no ataque, qual Jimmy, qual Ricki, à espera de um lance perdido. E como dava resultado! Os jogos eram feios, a nossa sólida defesa cumpria à letra a sua função bélica; e, ao mínimo deslize dos nossos oponentes, pimba, lá metíamos o golito da praxe. Ainda na universidade, tive a coroa de glória, a faixa de campeão, com a equipa de Direito da UCP, vencedora do Torneio da FAP. Só não fomos mais longe nos nacionais porque, em Vila Real, fomos gamados, um verdadeiro roubo de Igreja, não fôssemos a equipa da Católica (devia haver um apito dourado no futebol universitário). Agora, nunca fui nem o 6 nem o 8.

Como quase todos os jovens da minha geração, investi mais no futebol que nos livros. Como tantos, passei ao lado de uma grande carreira. Esta história podia ser escrita por milhares, pessoas que se algum dia fizerem hipnose vão estar a sessão à roda de um esférico.

Nunca poderei afirmar, quando chegar às portas da morte, que fui totalmente feliz. Ficará sempre a faltar-me um golo marcado no Dragão, vestido de azul e branco.

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