30 dezembro 2008

A última crónica de João Carlos Espada no Expresso

Vinte e sete anos depois de ter escrito a sua primeira crónica no Expresso, João Carlos Espada inscreveu, no sábado passado, as suas últimas linhas num jornal cada vez mais vazio, cada vez menos interessante. E que fica ainda mais pobre. JCE encerra a sua colaboração com uma justa e oportuna antecipação do centenário do nascimento de Isaiah Berlin, que é o patrono aqui do Blue Lounge, já que a ele pertence o let motiv deste blogue. Aqui fica, na íntegra, a reprodução de uma crónica que louva a liberdade negativa, onde se recusa o racionalismo dogmático, a "Razão" que nega apriorísmos, a "Razão", enunciada em letra maiúscula e conjugada no singular, a "Razão" que fecha os caminhos aos homens, em vez de os abrir:
Isaiah Berlin em 2009 Na última crónica de cada ano, é costume fazer previsões para o ano seguinte. Sendo esta também a minha última crónica no Expresso, onde comecei a colaborar em 1981, dedico-a a uma das poucas previsões seguras para 2009: o centenário do nascimento de Isaiah Berlin, que o mundo civilizado se prepara para comemorar. Berlin nasceu em Riga, na Letónia, em 1909. Mas os pais mudaram-se para Petrogrado e ele tinha oito anos quando assistiu ao golpe de Estado bolchevique, em 1917. O fanatismo revolucionário horrorizou-o para sempre. Em Oxford - onde na prática se exilou desde 1927 até morrer, em 1997 - procurou absorver os ingredientes da liberdade ordeira inglesa. Concluiu que residiam no pluralismo e no entendimento negativo da liberdade, como ausência de coerção por terceiros. Foi um admirador de Winston Churchill. No continente europeu, sob influência de versões dogmáticas do Iluminismo, a liberdade fora interpretada de outra maneira. Não apenas pelo marxismo, mas por várias correntes 'progressistas', foi entendida como conformidade com um determinado comportamento, alegadamente ditado pela 'Razão'. Esta fé ilimitada na razão humana assenta na crença de que a razão é capaz de explicar tudo a partir de premissas racionalmente demonstráveis. E consequentemente aconselha a destruir tudo o que não possa ser racionalmente demonstrado. No continente europeu, sucessivas modas filosóficas intoxicaram os intelectuais e a opinião publicada, dizendo-lhes que esta arrogância intelectual era prova de abertura e progressismo. E instalou-se a superstição segundo a qual quem duvidasse disso seria partidário do irracionalismo, da tradição dogmática, ou, pior um pouco, da religião. Daqui emergiu a trágica dicotomia continental entre mudança e tradição, abertura e fechamento, tolerância e intolerância. Mas essa dicotomia assenta num equívoco monumental: alguns dos piores promotores da intolerância estão entre aqueles que se apresentam como campeões da Razão. Porque a versão de racionalismo que preconizam - e a que Berlin e Popper chamaram racionalismo dogmático - é simplesmente impossível. A razão não consegue dar premissas isentas de premissas. Ela apenas opera criticamente - fazendo perguntas, conjecturando muito falíveis respostas - aos ombros das gerações anteriores, do que elas descobriram, acreditaram ou simplesmente apreciaram. Limpar a tela e começar de novo - o colossal sonho de Platão, Voltaire, Rousseau, Marx e Nietzsche - é um sonho insensato e adolescente. Gera um pesadelo com custos políticos elevados: a eterna oscilação entre revolução e contra-revolução, entre o abuso e a servidão. João Carlos Espada

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