14 fevereiro 2006

Porque são as ideias os pilares das Civilizações - II

Antecedentes: Porque são as ideias os pilares das Civilizações - I Em boa medida, foi nos anos 90 que começámos a assistir à subalternização da discussão ideológica ao nível da opinião pública. O fim da Guerra-Fria criou uma sensação de alívio no mundo ocidental; o progresso económico e o bem-estar social passaram a ser as únicas prioridades dos Governos Europeus, em detrimento da Segurança, da Geopolítica e da Diplomacia. A própria classe política aburguesou-se de uma forma vertiginosa, passando a atrair sobretudo burocratas e líderes sem chama, reféns do jogo partidário e do (i)mediatismo (na sua dupla significação, mediática e imediata). Certos autores, à epoca em curva ascendente, contribuíram também para um certo adormecimento das ideologias e para um downgrade da política; Francis Fukuyama (cfr. «O Fim da História e o Último Homem», Gradiva, 1992) vangloriou-se com o triunfo do modelo democrático típico das sociedades ocidentais (sobre a curva descendente de Fukuyama, ler o que escrevi aqui):
Nos últimos anos ocorreu «(...) por todo o mundo um consenso notável quanto à legitimidade da democracia liberal como sistema de governo, à medida que esta triunfava sobre ideologias rivais, como a monarquia hereditária, o fascismo e, mais recentemente, o comunismo. Mais do que isso, porém, eu defendi que a democracia liberal poderia constituir o “ponto terminal da evolução ideológica da humanidade” e a “forma final de governo humano” e, como tal, constituiria “o fim da história”. Isto é, enquanto anteriores formas de governo eram caracterizadas por graves imperfeições e irracionalidades, que conduziram ao seu eventual colapso, a democracia liberal estava comprovadamente livre dessas contradições internas fundamentais (…)»; tal não significava que para Fukuyama estas mesmas democracias «(...) estivessem livres de injustiças ou graves problemas sociais (…)», as quais seriam, no entanto, «(…) mais o produto de uma incompleta aplicação dos princípios gémeos da liberdade e da igualdade, em que a democracia moderna se fundamenta, do que defeitos intrínsecos dos próprios princípios (…)» o que certamente não acontecia relativamente a outro tipo de regimes.
Com o fim da Guerra-Fria, Marx teria sido derrotado por Hegel, e a locomotiva da história estaria, deste modo, no aconchego da estação terminal. Fukuyama rejubilava, recomendando que o mundo ocidental se concentrasse apenas no aperfeiçoamento do modelo capitalista vencedor. Fukuyama dava o mote. Todo o Ocidente se concentrou no seu próprio progresso. Em 2000, no advento do novo milénio, Salman Rushdie descrevia, de uma forma deliciosamente feliz, o ambiente reinante numa Nova-Iorque efervescente e despreocupada:
«(...) A cidade fervilhava de dinheiro. Rendas e bens imóveis nunca tinham sido tão elevados e, na indústria do vestuário, havia a convicção generalizada de que a moda nunca estivera tão na moda. A todas as horas abriam novos restaurantes. Lojas, empresas concessionárias e galerias suavam com o esforço de satisfazer a procura em flecha de produtos cada vez mais exóticos: azeites de edição limitada, saca–rolhas de trezentos dólares, Humvee de fabrico personalizado, o mais recente software antivírus, serviços de acompanhamento que incluíam contorcionistas e gémeas, instalações de vídeo, arte marginal, écharpes levíssimas feitas de penugem da queixada de cabras monteses. Eram tantas as pessoas a remodelar apartamentos que as provisões de aplicações e de mobiliário de alta qualidade eram disputadíssimas. Havia listas de espera para banheiras, puxadores, madeiras de lei de importação, lareiras a imitar o antigo, bidés, lajes de mármore. Apesar das recentes quedas do valor do índice de Nasdaq e do valor das acções da Amazon, a nova tecnologia tinha a cidade na mão: continuavam a debater–se os arranques (aqui dever-se-ia ter mantido a expressão original, “start–ups” que, sendo um estrangeirismo, é utilizado com frequência na gíria da gestão), as OPA’s, a interactividade, o futuro inimaginável que tinha agora mesmo começado a começar. O futuro era um casino, e toda a gente jogava, e toda a gente esperava ganhar (...)». [Descrição do modus vivendi nova–iorquino no início do Outono de 2000; «Fúria», de Salman Rushdie,Publicações D. Quixote, 2001]
Jean-Marie Domenach (citado por Guilherme d’Oliveira Martins in «Educação ou Barbárie», 1998, Gradiva), dizia: «(…) uma sociedade que se entrega ao frenesim do consumo torna–se escrava de uma fatalidade mais perturbante e mais terrível do que a outra que pesava sobre as épocas de penúria (…)». Vaticinava–se já, trinta anos antes, avant la letre, o que seria o início do séc. XXI: um período de recessão económica e de medo.

Rodrigo Adão da Fonseca (continua)

Sem comentários: