10 agosto 2006

Sobre o artigo "Paz e Poder"

Por opção da redacção da revista, o meu artigo na Dia D de segunda-feira foi acompanhado de uma foto imponente da Estátua da Liberdade. Talvez por isso, muitas pessoas tenham criticado o seu conteúdo, apontando-lhe um certo “americanismo”. No Blue Lounge, deliberadamente, quando republiquei o artigo, inclui um tríptico de Michelangelo Pistoletto, onde duas faces idênticas se olham através de um espelho, em busca de um pequeno ponto de equilíbrio. É a busca de uma reflexão europeia que se defende em "Paz e Poder". Com frequência me questiono – e os acontecimentos de hoje nos vôos para Londres reforçam todo o conteúdo do meu artigo de segunda-feira – como se combate uma cultura de pacifismo, apelando para os riscos que impendem sobre a Europa, sem que sejamos quase pavlovianamente rotulado de "falcões". A ideia central do meu artigo está longe daquilo que é uma visão americana, de apologia da "guerra permanente", unilateral, da recusa absoluta da noção kantiana de "paz perpétua"; tão pouco deposito esperanças no carácter redentor da democracia que motivou, por exemplo, a intervenção no Iraque. A liberdade e a paz, fundamentos de uma democracia pluralista, constroem-se, com esforço, pelos povos, são o resultado de um investimento social, e isso resulta claro do meu texto. O que pretendi aqui foi lançar o repto para uma reflexão europeia, autónoma, que atenda às suas especificidades geográficas, demográficas e socio-económicas, que compreenda que as civilizações se constroem, têm uma história, um contexto geográfico e cultural, e séculos de uma vivência que as conduziu até a actualidade. Deseja-se uma Europa onde o seus povos ganhem consciência das ameaças, e pretendam que o poder político se organize para as precaver e combater; povos que valorizem a herança cultural europeia. O nosso posicionamento deve ser necessariamente autónomo (mas não integralmente antagónico) da atitude americana, pois as nossas motivações são diversas: o poder político nos EUA tem hoje fortes raízes no judaísmo, num cristianismo messiânico e numa ideia de supremacia moral que os conduziu a um neo-conservadorismo que nada tem a ver com o pensamento europeu. Eu gosto dos EUA, onde estudei, onde fiz turismo, onde me desloquei em trabalho, por distintos períodos. Conheço razoavelmente os EUA e bastante bem a sua cultura e pensamento dominante. Mas ainda assim não me sinto americano. Porque sou português até à medula. E europeu. Por vezes pergunto-me se não estaremos a passar uma profunda crise de identidade. Por que é disso que estamos a falar, também: de uma questão de identidade. Já repararam que na Europa vivemos quase sempre obcecados em querer extrapolar-nos para o espaço alheio? Estamos sempre a tomar partidos. Insistimos em nos querermos rever em ambientes que não são os nossos, por mais válidos ou desprezáveis que nos possam parecer. Adoramos ver o mundo sempre a preto e branco, como se apenas existissem dois lados em cada questão. E recusamos trabalhar uma solução que seja a nossa. Pergunto-me, como se combate esta alienação, em que damos o nosso mundo por adquirido, e observando candidamente o exterior, posicionando-nos moralmente em todos os conflitos, wishful thinking, mas sem qualquer atitude, sem uma ideia nossa, numa total impotência no plano da acção? Rodrigo Adão da Fonseca

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