18 fevereiro 2007

Pensar os jornais*

Não sou um especialista em jornalismo, e a minha perspectiva limita-se à do leitor, observador, com espírito critico, e com uma enorme apetência pelos fenómenos de mudança. A obsolência, como JPP aqui bem refere, é irreversível, e também a imprensa tem de adaptar-se às alterações que a um ritmo elevado ocorrem na tecnologia. Estas mudanças, em qualquer caso, embora relevantes, são acessórias: importa sobretudo compreender o impacto que têm nos hábitos, nas expectativas, na forma de estar de cada um de nós. Neste ponto reside a grande dificuldade e, portanto, o factor critico de sucesso. Um produto bem concebido, que se impõe, é o que acompanha, que compreende os consumidores, que sabe o que para eles se traduz num valor acrescentado: só nestas circunstâncias estes estarão dispostos a pagar. Há dois anos atrás, algures num local perdido, o VP marketing da MTV para os EUA desabafava a dificuldade que tinha em perspectivar o seu negócio para os anos seguintes. Não que não dominasse a tecnologia e aquilo que ela é capaz de fazer - a sua empresa posiciona-se na primeira linha, neste plano, tendo recursos para obter todo o conhecimento necessário - mas porque estava a ser dificil combiná-la num produto que agradasse aos consumidores, jovens, cujas motivações e aspirações seriam cada vez mais imprevisíveis. Focar a estratégia no consumidor é certamente um lugar comum da gestão. Tenho por vezes a sensação, porém, que de tão elementar caiu no esquecimento. Não sei se quem faz os jornais em Portugal olha para os leitores como consumidores activos, cujas escolhas são motivadas por um espírito exigente. Fico com a sensação que alguns jornais ditos de referência, na prática, não se focam propriamente nos clientes, no produto que estão a conceber, dispersando-se na sua interacção diária com o poder político, económico, com os que fazem parte da noticia. Estes desvios são fatais, pois quem captura o valor acrescentado é o status quo e não são os consumidores, os que, no fundo, estarão - ou não - dispostos a pagar. Rodrigo Adão da Fonseca Ler ainda "Sobre a suposta 'crise' da mediação" (Blue Lounge, 5.01.07) (*título 'roubado' ao Abrupto)

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