08 janeiro 2006

Liberalismo, Globalização, e o desconhecimento total daquilo que são os pensadores da Escola Austríaca - Parte III

Num tempo em que a desagregação do Estado Soberano é evidente, e em que o poder cada vez mais está pulverizado, se exerce em rede, em interacção e redesenho constantes, em comunidades políticas de natureza difusa, discordo do Henrique Raposo, quando afirma categoricamente que «quando se coloca as coisas em perspectiva, percebemos que a ordem espontânea só existe porque existe um Estado a protegê-la».
Tentar reduzir o fruto da acção espontânea a um resultado que assenta na existência do Estado não é colocar as coisas em perspectiva: é ver a realidade por um monóculo.
Não se nega, na verdade, que «não existe um mercado a flutuar acima das gentes de carne e osso»: essa é uma das essência do liberalismo. O mercado é o resultado da interacção dos indivíduos, preferencialmente de carne e osso.
O erro está em defender-se que «o liberalismo só funciona num Estado e numa dada comunidade. Não existe no exterior do Estado». Existe. Ou antes: pode existir. «Estado» foi simplesmente a forma escolhida por certas comunidades políticas para se organizarem.
A ordem espontânea também não se confunde com o Estado; estes nem sequer são conceitos sobrepostos, como o HR parece fazer crer. A ordem espontânea é uma matriz aberta que conduz a resultados totalmente imprevisíveis. É esta a perspectiva de Mises, Hayek, ou Kirzner.
Por isso não colhe também o argumento utilizado com frequência pelo João Galamba, que neste plano o neoliberalismo tem afinidades com o marxismo. O marxismo é um processo histórico fechado, que conduz inevitavelmente à ditadura do proletariado, pela autofagia do capitalismo (conceitos bem revisitados, já em pleno século XXI, por Negri; ver aqui, aqui e aqui).
Rodrigo Adão da Fonseca

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