07 fevereiro 2006

Choque de Civilizações (fim da saga)

I. No dia 11 de Setembro de 2001, os EUA foram alvo de um atentado terrorista de grandes proporções. Seguiram-se Madrid e Londres. Apesar das ameaças – concretizadas – e dos diversos sinais que diariamente recebemos de todas as partes do mundo, com toda esta polémica dos cartoons constato, quatro anos após os ataques aos EUA, que a generalidade dos Europeus não está preparada para encarar a ameaça islâmica. À semelhança do que ocorreu quando as Torres Gémeas desabaram, ou quando daqui tão perto recebemos imagens do horror, as reacções foram emocionais: oscilaram entre as mais diversas exibições de compreensível medo, e as manifestações proto-heróicas a favor da liberdade. Em ambos os casos, dá para perceber que todos os europeus querem manter a sua liberdade e o seu modo de vida; constata-se, porém, que ninguém sabe como é que isso se faz e qual o seu custo: os povos da Europa não parecem preparados para os tempos que estão a viver. Por um lado, não temos sido capazes de compreender que a forma como nos relacionamos com civilizações distintas da nossa não pode fazer-se pelos padrões que decorrem do nosso estádio de desenvolvimento civilizacional. Seria interessante poder nivelar-se o mundo, como se costuma dizer, «por cima». Infelizmente, temos que nos habituar a nivelá-lo «por baixo». Tal incompreensão resulta, em boa medida, de uma deslocada concepção da relação que existe entre Liberdade e Poder. Por um lado, ao contrário da convicção de alguns, a liberdade é um valor a preservar, mas não é absoluta; por outro lado, não é livre quem quer, mas quem pode. Isso não significa que eu defenda uma menorização da liberdade: antes pelo contrário; o que se pretende é que as estruturas que permitem que as sociedades tenham um maior grau de liberdade sejam cada vez mais sólidas; agora, para podermos viver em sociedades livres, temos de ser capazes de as afirmar, mesmo contra a resistência de que não as aceita. O que não parece ser o caso; ora, no nosso frágil contexto, quanto maior for a resistência e a força dos inimigos da liberdade, mais inteligente terá de ser o seu exercício, se a queremos salvaguardar de uma forma duradoura. Enquanto não reforçamos as nossas estruturas ... II. Nos últimos dias assistimos a reacções indignadas e emocionadas em redor de alguns cartoons, seja de islamitas radicais e estados teocráticos que não se revêem nas nossas concepções de liberdade negativa e tolerância, seja de ocidentais que não estão dispostos a ver limitadas as suas liberdades básicas. Desagrada-me profundamente a forma como o meu modo de vida está a ser objecto de ameaça e condicionamento. Só que este problema não nasceu em 2006. O mundo mudou após o 11 de Setembro de 2001: desde essa data que, com frequência, temos assistido no mundo ocidental às mais distintas restrições da liberdade. Nos mais pequenos actos diários somos sujeitos a restrições: hoje, por exemplo, numa curta viagem, abrem-nos a bagagem em frente a terceiros, obrigam-nos a retirar o conteúdo dos bolsos, colocam-nos na posição de «Cristo Crucificado» de cinto desapertado enquanto um personagem do mesmo sexo, de luvas na mão, nos revista de cima a baixo; quando aterramos em turismo ou em trabalho num país estrangeiro, ainda no avião somos forçados a explicar a finalidade da nossa viagem, a apresentar o local onde pensamos ficar instalados, em que data contamos sair. Quando entramos numa qualquer estação de metro, num avião, num comboio, ou em qualquer local público, corremos um risco de vida adicional. Em quase tudo o que consumimos incorremos num custo acrescido, diluído no preço, que remunera a especulação que se criou em redor do petróleo, fruto – não só mas também – da instabilidade política nos países islâmicos. Desde o atentado às Torres Gémeas que algumas das nossas liberdades negativas têm vindo a ser comprimidas; outras se seguirão, se entretanto não formos capazes de inverter o jogo de forças existente. III. A Europa está fragilizada pelas suas próprias contradições ideológicas, pela sua dependência energética, pelo envelhecimento da sua população, pelo seu confortável modo de vida, pela sua vulnerabilidade geográfica, pela sua descoordenação militar. Cada um exerce, não a liberdade que quer, mas a liberdade que tem. Porque, para ser livre, não basta querer; é preciso Poder. Rodrigo Adão da Fonseca Backround deste post: Liberdade de Expressão, Tolerância e Segurança Liberdade Negativa V Poder

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